Marcelo despede-se de Agustina: "Está no Panteão do coração de todos os portugueses"

Cerca de duas centenas de pessoas, entre familiares, amigos e governantes, marcaram presença, na Sé Catedral do Porto, nas cerimónias fúnebres de homenagem à escritora Agustina Bessa-Luís

"Obrigado meu Deus que nos deste uma pessoa com tão alta categoria intelectual, religiosa e cristã, e obrigada Agustina por esta extraordinária lição de teologia que a tua vida acabou por nos dar", foram estas as palavras do bispo do Porto, Manuel Linda, na missa de corpo presente que teve início cerca das 16:00, na Sé Catedral do Porto, e demorou aproximadamente uma hora.

Numa homilia emotiva, na qual recordou passagens marcantes da obra de Agustina Bessa-Luís e descreveu a religiosidade da escritora natural de Vila Meã, Amarante, Manuel afirmou referiu que "a condição humana" é uma das "marcas" da "vastíssima obra literária" de Agustina Bessa-Luís, sobre a qual disse saber que "se prostrava muitas vezes sobre um oratório que tinha em casa".

As cerimónias fúnebres de homenagem a Agustina Bessa-Luís, que contaram com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e da ministra da Cultura, Graça Fonseca, terminaram com o caixão a sair da Sé Catedral, cerca das 17:15, debaixo de um coro de aplausos e sob o olhar concentrado de Marcelo Rebelo de Sousa, ladeado pelo presidente da Câmara portuense, o independente Rui Moreira. O cortejo fúnebre seguirá para o cemitério do Peso da Régua, onde se realizará o funeral da escritora, numa cerimónia reservada à família.

"Está no panteão de todos os portugueses"

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que a escritora "está no Panteão de todos os portugueses", recordando-a como "um génio que soube retratar as mudanças de Portugal". "No campo literário, ela fez tudo. Fez romance excecional, fez biografia, fez teatro, fez crónica, fez tudo. Aquilo que fica em termos de génio é ter sabido retratar, por dentro essa mudança de Portugal, que não era apenas falar de como as pessoas eram, era falar de como a natureza humana é sempre", disse Marcelo Rebelo de Sousa.

Convidado a dizer se deseja ver Agustina Bessa-Luís no Panteão Nacional, Marcelo Rebelo de Sousa disse que esta é "uma decisão que depende da família, dos deputados" e perguntou: "Como é que Agustina gostaria que fosse?". "Neste momento estamos a prestar-lhe homenagem, e ela está no Panteão do coração de todos os portugueses", afirmou.

"Vivia intensamente o Porto"

"Agustina era uma pessoa que de facto vivia intensamente o Porto, o Norte, era uma figura absolutamente inolvidável da nossa cultura, que fica para sempre", afirmou Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, à entrada para o velório da escritora, mencionando ter a autarquia aprovado hoje "um voto de pesar", depois de, na segunda-feira, ter declarado "dois dias de luto municipal, antecipando o luto nacional de hoje".

E prosseguiu: "Era uma pessoa que, independentemente dos seus méritos literários, soube catalogar e caracterizar a nossa cidade, as nossas gentes, os nossos hábitos, os nosso destinos". Enfatizando tratar-se de "uma pessoa absolutamente extraordinária", o autarca portuense lembrou a sorte que teve de "a poder homenagear em vida", frisando que a maior homenagem "foi ler o que ela escreveu (...), foi perceber o que ela dizia, foi entender quando chamava a atenção, por vezes, para as nossas pequenas contradições, as nossas fragilidades".

Destacando o "sentido de humor extraordinário" de uma escritora que "escrevia maravilhosamente", Rui Moreira afirmou ainda que Agustina Bessa-Luís "era uma pessoa que, com aquele corpo pequeno, inspirava a todos uma forma diferente de nos vermos ao espelho".

"Uma mulher e escritora ímpar"

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, recordou Agustina Bessa-Luís como "uma mulher e escritora ímpar da cultura portuguesa", alguém que "utilizava a língua fazendo com que esta ganhasse vida". "A Agustina era a grande mulher das letras portuguesas", disse Graça Fonseca, citando o escritor Eduardo Lourenço, à chegada à Sé Catedral do Porto. "Mas é muito importante realçar também o papel como mulher. Era alguém muito atento à evolução do país, à sua intervenção. A Agustina era uma mulher e uma escritora ímpar na cultura portuguesa", disse Graça Fonseca, lembrando que o Governo português decretou para hoje dia de luto nacional.

Questionada, por fim, sobre se Agustina Bessa-Luís terá tido o reconhecimento internacional que merecia, a ministra da Cultura admitiu que esta é uma área que será trabalhada "com mais afinco". "Temos procurado internacionalizar ainda mais os nossos escritores, criadores e artistas. Portugal é de facto um país rico. Felizmente tivemos a Agustina e temos outros extraordinários. É importante levá-los para além das fronteiras do país, porque é a melhor forma que temos como projetar Portugal e encontrar novos territórios, novas centralidades, para a cultura portuguesa. No caso da Agustina é algo que vamos trabalhar com mais afinco", concluiu.

Agustina escreveu a Rui Rio

"Foi a primeira pessoa a quem, como presidente da Câmara do Porto, entreguei a chave da cidade, que era uma distinção que eu só conferia às pessoas que projetavam a cidade no mundo. Além da Agustina, só entreguei essa distinção a mais duas pessoas, que foram Siza Vieira e o papa Bento XVI", afirmou o presidente do PSD, Rui Rio, que se deslocou à Sé do Porto para prestar uma última homenagem a Agustina Bessa-Luís.

Rui Rio disse que ainda na segunda-feira releu uma carta que Agustina lhe havia escrito em 2006, que foi uma época em "era muito criticado". "Ela teve palavras muito simpáticas e palavras de incentivo que até me admiraram", declarou, acrescentando que "não fica indiferente à política". Recordou alguns livros que a escritora lhe ofereceu, o último dos quais com o título Sebastião José, considerando que a obra que deixa e a memória dela "não desaparecerão".

Agustina Bessa-Luís, que morreu na segunda-feira, no Porto, aos 96 anos, nasceu em 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante.O nome da escritora, que se estreou nas Letras com o romance Mundo Fechado, em 1948, destacou-se em 1954, com a publicação de A Sibila, obra que lhe valeu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz. Agustina recebeu também, por duas vezes, o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, a primeira, em 1983, pela obra Os Meninos de Ouro, e, depois, em 2001, por O Princípio da Incerteza I - Joia de Família. A escritora foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015. Em 2004 recebeu o Prémio Camões e o Prémio Vergílio Ferreira.

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