O velho Harrison Ford e o cão digital

Está aí uma nova adaptação de "O Apelo Selvagem", o clássico de Jack London revisitado com excesso de roupagem digital. A presença carismática de Harrison Ford é a réstia de alma que sustém a frágil estrutura.

De Lassie a Hachiko, o cão de eterna lealdade ao dono Richard Gere, o cinema tem uma longa história com protagonistas de quatro patas. Nessa história - com alguns "erros de casting" como o São Bernardo Beethoven - contam-se também as várias adaptações do romance de Jack London, The Call of The Wild (publicado em 1903), que desde a era do mudo deu origem a filmes em que Buck, o cão, contracena com atores como Rutger Hauer, Charlton Heston ou, recuando um pouco mais, Clark Gable. Justamente, é a versão com este galã, de 1935, assinada por William A. Wellman (realizador de outro dos mais belos filmes centrados num cão: Good-bye, My Lady, de 1956), que se distingue de todas as outras por uma justeza clássica e romântica, própria de uma certa Hollywood, hoje em dia esplendorosamente fora de moda. E, além disso, o cão era de carne e osso.

A primeira novidade desta nova versão de O Apelo Selvagem é que já não são precisos cães reais treinados para o papel. Afinal, parece que a coisa agora faz mais sentido com alguém debaixo de uma maquilhagem CGI - neste caso, Terry Notary, o ator de O Quadrado - a simular a postura do animal que se quer cúmplice do homem. Resultado? É muito difícil aderir à imagem híbrida de um cão que está entre a aparência realista e o movimento mecanizado do digital (um pouco como o recente "live action" de O Rei Leão, cuja técnica é mais perfeita). Ao fim de algum tempo os olhos habituam-se à estranheza, é certo, mas não deixa de ser embaraçosa a tentativa de lhe associar emoções.

Este é o primeiro título lançado pela Disney sob a nova designação do estúdio 20th Century Studios (antes 20th Century Fox). Realizado por um nome vindo da animação, Chris Sanders (Lilo & Stitch), o filme justifica parte da sua opção pelo fake da roupagem digital - que inclui as paisagens "naturais", para além do protagonista - através de um assumido tom juvenil. Seguimos então o percurso do destino de Buck, o cão roubado à existência feliz numa casa na Califórnia, que se vê forçado a desenvolver um sentido de liderança na sua aventura pelas florestas de Yukon, durante a famosa Corrida do Ouro, nos anos 1890. Começa por tornar-se membro de uma matilha que puxa o trenó dos correios, passa pelas mãos de um prospetor cruel possuído pela febre do ouro e, finalmente, reencontra o homem da voz off que narra as suas proezas: John Thornton, ou melhor, Harrison Ford, o velho de olhar bondoso com quem se cruza no início do filme para devolver a harmónica que este deixara cair. A música do acaso volta a juntá-los e aí é de vez...

Neste O Apelo Selvagem são muitas as liberdades tomadas em relação à letra do romance de Jack London e, no entanto, não se pode negar o seu sincero esforço de busca pelo espírito do clássico - é também nesse esforço que o filme não se perde completamente. Digamos que esta é a versão para as audiências de hoje, cada vez mais familiarizadas com o lado artificial das imagens. E aí não há volta a dar: mesmo tendo como diretor de fotografia o grande colaborador de Steven Spielberg, Janusz Kaminski, o filme não consegue contornar uma frequente aparência duvidosa de postal turístico ou wallpaper do Windows... Como se no desejo de tornar a natureza vigorosamente apelativa à retina se perdesse a noção mínima de beleza orgânica do real; esse que nos pode ligar a qualquer partícula de emoção.

Ao invadir o grande ecrã como solitária personagem de peso na última fase da história, Harrison Ford representa a possibilidade de tudo isto adquirir uma réstia de coração. No fundo, ele simboliza a hipótese de o título call of the wild ainda bater certo com a feição da narrativa original. Sem precisar de fazer muito, a sua presença carregada de uma nobre melancolia vai ligar-se ao amigo de quatro patas, Buck, e conferir-lhe, de alguma maneira, uma existência concreta, ou por outras palavras, uma simpática consistência que disfarça a sua virtualidade física.

Classificação: ** Com interesse

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