O teatro em tempos de covid-19: "É como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo"

Os teatros podem abrir a partir de 1 de junho mas poucos o vão fazer. Além de todas as regras sobre lotação e segurança do espaço, existem muitas dúvidas sobre o que vai acontecer em cima do palco. Que teatro será possível com distanciamento e medo?

Os ensaios começaram na semana passada. Os setes atores, o encenador e todos os elementos da equipa chegam com uma máscara na cara e cumprimentam-se com um "olá" à distância. Sem beijinhos, abraços ou apertos de mão. Dentro do Teatro Ibérico, em Lisboa, cada um tem o seu espaço individual de camarim e um lugar fixo na plateia, onde se senta sempre. Devidamente distante dos outros. "É um período muito fora do comum este que vivemos, mas ao mesmo tempo exaltante na medida em que temos de encontrar soluções novas para os novos problemas", conta o encenador e dramaturgo João Garcia Miguel.

A sua companhia foi uma das primeiras a voltar ao trabalho - a "desconfinar", como agora se diz - retomando um projeto que já tinha sido iniciado antes do estado de emergência: Febres de Lisboa, que parte das Prosas Bárbaras escritas por Eça de Queiroz, muito no início da sua carreira. "Estávamos na segunda semana de ensaios quando tivemos que interromper e continuámos a trabalhar em casa, com reuniões por videochamada."

A partir de 1 de junho já será possível abrir os teatros, mas serão poucos os que o vão fazer - nem saberiam como fazê-lo, afinal, a uma semana da data marcada ainda há muitas dúvidas sobre as regras de segurança: os espectadores terão de usar máscaras?, quantas pessoas podem estar numa sala?, e os atores têm de manter a distância no palco?

"Não temos orientações específicas claras, não há ainda regras definidas, mas temos falado uns com os outros, temos falado com outras pessoas do setor artístico e temos visto o que está a ser feito noutros setores e foi assim que chegámos a um conjunto de regras nossas, que nos parecem sensatas", explica João Garcia Miguel. O espaço do teatro foi desinfetado e há um cuidado diário e permanente com a limpeza. Mantêm-se distâncias, evita-se o contacto. Depois, há pequenos ajustes. Por exemplo: a companhia continua a fornecer uma refeição, como fazia antes mas cada elemento traz de casa o seu prato e talheres.

E no palco? "Desenhei uma cenografia que vai permitir a distância entre os atores. Como se cada personagem estivesse na sua casa em Lisboa. Não dá para repetir em muitos espetáculos, claro. Mas funciona muito bem neste espetáculo. E, de alguma forma, fala deste confinamento forçado." Apesar de usarem máscara dentro do teatro, os atores pediram para retirar as máscaras no palco.

"Neste momento é muito doloroso e complicado. As pessoas não se podem aproximar, é preciso que se disciplinem e que se cuidem. Mas estamos a aprender a lidar com o medo, com o estranho, com esta necessidade de conter as emoções e lidar com elas de outra forma", diz o encenador.

A estreia está marcada para 23 de julho, mas antes disso está prevista a reposição de dois outros espetáculos (um só com um intérprete, outro com dois): "Não sabemos se os espetadores virão, mas queremos fazê-lo nem que seja para dizer às pessoas que estamos aqui. Temos todos de ter um bocadinho de coragem e de resistir ao medo. E temos de testar as medidas de segurança com o público para perceber se são comportáveis ou não."

E, depois, é esperar que tudo passe depressa. "Este será um acontecimento que nos vai marcar por alguns meses. São três ou quatro gestos e hábitos que se veem juntar a outros. Mas que depois queremos abandonar, não os queremos aprender."

"É como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo"

"Os primeiros tempos foram de choque", lembra o encenador Miguel Fragata. O espetáculo Fake deveria ter estreado no Teatro Nacional D. Maria II no dia 20 de março. A equipa já estava a ensaiar no palco da Sala Garrett. O cenário estava montado. A luz acertada. O espetáculo estava pronto. E depois foi cancelado. "Após tantos meses de trabalho, sentimo-nos como se tivéssemos sido abandonados no altar. Nessa altura, sentimos mesmo a necessidade de parar e de nos afastarmos deste projeto. Demorámos algum tempo até conseguir voltar a pensar nele. Agora, estamos a trabalhar para estrear Fake em outubro. Mas sabemos que isso pode não acontecer."

Além de Fake, a Formiga Atómica, estrutura de Miguel Fragata e Inês Barahona, viu outros projetos seus cancelados - nomeadamente várias apresentações no estrangeiro. E havia ainda novos projetos que já estavam a ser pensados para o próximo ano e que neste momento estão em suspenso: "Como vamos criar sem proximidade física? Este é um grande nó na nossa cabeça, não sei como se vai processar."

O criador tem acompanhado as regras que têm sido propostas para o setor e diz que, para já, é possível "perspetivar nos próximos tempos as mudanças na relação com o público" mas não sabe ainda "como é que as pessoas se vão relacionar em cima do palco". "Em certos casos estes limites vão castrar completamente a criação. É como imaginar Romeu e Julieta sem eles se tocarem ou beijarem."

Miguel Fragata não acredita que isso vá acontecer mas, se tiver mesmo que ser assim, se os atores não se poderem tocar "o que vai acontecer é que vamos todos criar espetáculos sobre isso, será uma coisa de tal forma presente que todos os espetáculos vão falar dessa limitação, do distanciamento, da impossibilidade."

"Os artistas são lutadores"

"Nós não podemos parar. Os artistas são lutadores, a ideia de desistir, de não continuar a procurar uma solução não está na nossa agenda", declara, logo para começar, a coreógrafa e encenadora Madalena Victorino. "Resolver problemas é algo que estamos habituados a fazer e vamos usar a nossa capacidade de imaginar, criar, inventar para resolver mais este problema."

Madalena Victorino dirige, com Giacomo Scalisi, o Lavrar o Mar, projeto cultural em Monchique e Aljezur, cuja programação foi interrompida pelo estado de emergência. "Ficámos em suspenso, como todos os outros", diz. "Esta paragem deu-nos tempo para pensar. Temos muitas perguntas mas somos otimistas."

Parte da programação que foi cancelada irá ser apresentada entre setembro e novembro. Com ajustes, claro. "Temos a sorte de apresentarmos muitos dos nossos projetos ao ar livre", admite Madalena Victorino que está a criar, com um grupo de 13 intérpretes, um espetáculo para ser apresentado no Lugar da Rocha, "um vale selvagem na fronteira entre Aljezur e Monchique": "O projeto será um bocadinho diferente, vai ter a ver com o direito à respiração e com as múltiplas fronteiras que entretanto se ergueram entre nós."

As "Caminhadas com Arte" também vão acontecer mas, em vez de terminarem com um grande almoço comunitário, como estava previsto, o Lavrar o Mar está a pensar como poderá distribuir merendas individuais aos espectadores.

"Queremos tornar todos os espetáculos possíveis mas sem fazer concessões do ponto de vista artístico e estético", diz. "Vamos tentar encontrar soluções. Há uma distância que é imposta mas vamos tentar criar um ou outro sentido de comunidade. Este é o momento para estarmos atentos e para encontrar sentido para o que estamos a viver."

"Seremos poucos mas estamos aqui"

Aos 71 anos, o encenador Jorge Silva Melo não corre riscos: está em casa há dois meses e até já se habituou a fazer chamadas por Facebook: "Estamos em permanente contacto, fazemos duas reuniões por dia, resolvemos problemas, fazemos planos. Ensaiar é difícil mas, se eu quiser, até posso dirigir os ensaios a partir de casa", conta. A tecnologia permite tudo isso. Mas isso tudo será o teatro que ele quer fazer?

O momento é de muitas interrogações. "Ainda estamos a decidir se voltamos à Politécnica antes do fim de agosto. Temos de perceber qual é o número de espectadores que podemos receber - serão 15 pessoas de cada vez?, serão menos?, e essas pessoas virão ao teatro? -, que pessoal será necessário para cumprir todas as regras de limpeza e segurança, que mais despesas vamos ter, que mudanças serão necessárias. Vamos esperar pelas regras definitivas para tomar decisões. Não podemos ser ansiosos."

Mas, para além de todas as dúvidas de ordem prática, existem outras dúvidas sobre o teatro que será possível fazer, como bem expressou o encenador num texto publicado no site CoffeePaste: "Com lotações drasticamente reduzidas (e incertas), teremos coragem para abrir a porta? Teremos coragem para dizer aos espectadores que podem entrar e que vão ser felizes? Podemos dizer aos atores que podem tirar a máscara e até abraçar-se? (Ou mesmo beijar-se?) Podemos pedir que projetem a voz quando sabemos que uma voz competente atinge 8 metros (com as suas agora chamadas "gotículas", outrora "perdigotos")? Podemos desejar a quem nos procura "uma noite feliz"? E não é isso o teatro, o desejo partilhado de "uma noite feliz"? (...) Os teatros podem abrir daqui por uns dias, sim. Mas serão teatros? Ou só umas fachadas a fingir que vivemos "normalmente"?"

Uma coisa Silva Melo já sabe: "Vai ser muito complicado." Mas também sabe que os Artistas Unidos estão dispostos a seguir em frente. Para já, depois de uma apresentação de Uma Solidão Demaciado Ruidosa, a 9 de julho, nas Caldas da Rainha, pretendem estrear no Teatro da Politécnica, em Lisboa, um novo espetáculo "em meados de outubro": Quartos, de Enda Walsh, com interpretação de Américo Silva e Vânia Rodrigues. "É um espetáculo em que só representa um ator de cada vez e em que só se fala de pessoas fechadas em casa, por isso tem tudo a ver com o que estamos a viver." E vão continuar a sonhar com a possibilidade de fazer A Coragem da Minha Mãe, de George Tabori, um dia mais tarde.

"E se só tivermos três espectadores? Olha, abrimos na mesma o teatrito, agradecemos o seu carinho, tentamos honrar o seu desejo, sim, é como se nos abraçássemos pelas palavras do Poeta. Seremos poucos? Mas estamos aqui."

Uma temporada cheia de incertezas: "escrita a lápis"

"Nós encerrámos a 13 de março e a 14 começámos a pensar na reabertura. O teatro está fechado mas nós nunca parámos", garante Tiago Rodrigues, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Por um lado, aproveitando o encerramento forçado, estão a fazer-se algumas pequenas obras que já estavam previstas. Por outro lado, foi preciso repensar toda a próxima temporada e tentar reagendar os cerca de 20 espetáculos que tiveram de ser cancelados. No dia 28 de junho Tiago Rodrigues planeia apresentar uma programação recheada, que incluirá praticamente todos os espetáculos cancelados e que arrancará a 1 de setembro.

Será com o espetáculo A Vida vai Engolir-vos, de Tónan Quito, co-produção do D. Maria II e do São Luiz que a 1 de setembro começam as temporadas destes dois teatros. O espetáculo que deveria ter encerrado esta temporada no palco São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, vai abrir a próxima. E o título até parece ter sido escolhido de propósito pois é isso mesmo que os artistas, programadores e todos os trabalhadores do setor cultural estão a sentir neste momento: que a vida os vai engolir.

"Optámos por não abrir em junho, primeiro porque o que tínhamos planeado para agora eram espetáculos internacionais, que não poderão vir, e novas criações, que não tinham sido ensaiadas - portanto era impossível apresentar estes projetos", explica Tiago Rodrigues.

Além disso, a direção e a administração do teatro não quiseram abrir sem conhecer as "regras claras" que vão definir como será a atividade artística dentro do teatro, quer em ensaios, quer em espetáculos. "O Teatro Nacional tem uma responsabilidade acrescida. Temos de ler as regras, percebê-las, aprendê-las, aplicá-las. Preocupamo-nos com a segurança dos espectadores mas também das nossas equipas. E o verão vai dar-nos esse tempo para reaprendermos como devemos fazê-lo."

A primeira fase, após ser decretado o estado de emergência, foi para pôr a casa em ordem, explica Aida Tavares, diretora artística do São Luiz. Foi a fase dos "pagamentos e reagendamentos". "Era essencial garantir o pagamento a todas as pessoas que estavam envolvidas nos projetos que tiveram de ser cancelados e adiados", diz.

Agora, estamos numa nova fase, que é perceber como vai ser possível trabalhar com todos os constrangimentos: "A lotação será reduzidíssima. Isso para as pequenas estruturas vai ser um problema, porque as receitas vão diminuir bastante. E depois há todas as medidas de segurança, a desinfeção, as máscaras... Todas essas medidas adicionais acarretam custos e nem todos terão capacidade para os suportar", diz a diretora do São Luiz. "Mas também houve coisas boas nisto tudo. Temos conversado muito. Com os outros diretores e outros teatros, nacionais, locais, internacionais. Estamos todos à procura de respostas."

Muita coisa vai acontecer nos próximos tempos. E provavelmente não será fácil, admite Aida Tavares. "Não conseguimos imaginar a estranheza de toda a situação: entrar num teatro com máscara, termos de manter a distância. Não teremos aquela energia de uma sala cheia, e isso vai ser sentido pelos espectadores mas também pelos intérpretes, no palco. Será uma experiência completamente diferente."

As regras falam em técnicos com máscaras e viseiras, espectadores sentados com distanciamento, desinfeção regular das salas. E no palco como vai ser? "Não sei", responde Tiago Rodrigues, que é também dramaturgo, ator e encenador. "Mas tenho muita vontade de descobrir como vai ser. Não sei se conseguiremos fazê-lo, mas só fazendo, só experimentando iremos descobrir."

"Um teatro só existe porque há criação", por isso, é importante que haja condições para criar. "E não podemos pensar que nos vamos desenrascar de qualquer maneira. É importante manter a integridade de cada artista e de cada projeto". Por isso, haverá artistas que conseguirão fazer os seus trabalhos, porventura diferentes do que tinham imaginado, mas ainda assim correspondendo ao seu desejo criador. E haverá artistas que não conseguirão fazê-lo. E isso, diz Tiago Rodrigues, será tudo normal.

"Temos que pensar na segurança dos nossos espectadores, dos nossos técnicos e dos nossos artistas mas também é minha obrigação garantir que os artistas possam concretizar os seus projetos. E é isso que eu estou a fazer. Vou conversar com todos os artistas e ajudá-los a pôr de pé as suas ideias, de maneira segura, mas sem comprometer a sua criação. Vamos procurar soluções juntos." Ninguém sabe como vai ser. Será que Mónica Calle vai poder, finalmente, apresentar o ciclo "Este é o meu corpo" com os seus solos, que são, quase todos, experiências de grande intimidade com os espectadores? "Não sei. Mas estou confiante. Vou fazer tudo para que seja possível", responde Ainda Tavares.

"Estamos a programar uma temporada mas a verdade é que não sabemos nem como serão a sociedade, a pandemia e as regras daqui a uns meses; nem sabemos como serão os criadores. Quererão eles ainda fazer estes espetáculos? E conseguirão fazê-los? Ou será que já tiveram de fechar a sua estrutura e arranjar outro emprego porque não tinham como pagar as contas? E mesmo que corra tudo bem, será que depois, no dia da apresentação, alguma das pessoas está com febre e, de repente temos que cancelar tudo? Será uma temporada cheia de incertezas e teremos de aprender a lidar com isso."

Apesar de tudo, os dois programadores estão bastante confiantes. Como diz Tiago Rodrigues: "Esta é uma temporada escrita a lápis. Mas não podemos parar de escrever. Podemos ter de apagar algumas coisas, mas vamos continuar a trabalhar para poder passar tudo a caneta."

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