Premium O teatro e a peste: recriar Artaud em tempos de covid-19

A "doença" começa esta sexta-feira com Albano Jerónimo no Teatro Romano de Lisboa e vai-se espalhando ao longo do mês de agosto com outros atores noutros locais. O projeto, que é transmitido online, recria a conferência de 1933 de Antonin Artaud.

A 6 de abril de 1933, com 37 anos, Antonin Artaud propôs ao público da Universidade Sorbonne, em Paris, uma conferência com o título O Teatro e a Peste, na qual expôs a sua a analogia "entre a vítima da peste que persegue visões, em esganiçada correria, e o ator, em perseguição dos seus sentimentos". A peste instala a desordem, provoca conflitos e permite a revelação de verdades até aí ocultadas pelas regras sociais. Tal como o teatro deve fazer.

O texto haveria de se tornar famoso, publicado no ano seguinte no volume O Teatro e o seu Duplo. Sobre a conferência, o único relato existente é o de Anais Nin, nos seus diários: "Tinha o rosto em convulsões de angústia e os cabelos ensopados em suor. Os olhos dilatavam-se, enrijava os músculos, os dedos lutavam para conservar a flexibilidade. Fazia-nos sentir a secura e o ardor da sua garganta, o sofrimento, a febre, o fogo das suas entranhas. Estava em tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram a ficar de respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim, as pessoas foram saindo uma a uma, com um grande ruído, a falar, a protestar. Ao saírem, batiam com a porta."

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