Face ao palmarés do 79.º Festival de Cannes, simplifiquemos e saudemos o essencial. A saber: o júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook distinguiu com a Palma de Ouro um filme realmente excepcional: Fjord, do romeno Cristian Mungiu. Não terá sido fácil encontrar o vencedor e, mais do que isso, construir todo um palmarés. E isto pela melhor das razões: foi, de facto, um festival recheado de filmes capazes de tocar as nossas emoções e lidar com as nossas dúvidas, ideias e pressentimentos, fazendo-o, sobretudo, através de narrativas originais, ousadas e desafiadoras. .Também talvez por isso, o júri encontrou soluções de “acumulação” de prémios que não serão as mais interessantes para um palmarés que, para todos os efeitos, deve distinguir singularidades, não gerir “compensações”. Penso, desde logo, no prémio de realização, atribuído “ex-aequo” ao polaco Pawel Pawlikowski, por Fatherland, brilhante evocação de Thomas Mann, e à dupla espanhola Javier Calvo/Javier Ambrossi, por La Bola Negra, um fresco histórico cujo centro simbólico é Federico Garcia Lorca. E penso também na opção insólita que deu origem a dois prémios “duplos” de interpretação: Emmanuel Machia e Valentin Campagne no filme belga Coward, e Virginie Efira e Tao Okamoto no franco-japonês Soudain. .Não vem daí grande mal ao mundo, mas semelhantes opções correm o risco de enfraquecer o próprio impacto mediático de uma escolha que, não tenhamos dúvidas, pode ter uma enorme importância artística e comercial para qualquer filme citado, para qualquer profissional distinguido. Num ambiente em que quase todos os apresentadores e premiados disseram palavras com claras implicações políticas, citemos, em particular, a clareza do russo Andrei Zvyagintsev — Grande Prémio com o brilhante Minotaur —, dirigindo-se implicitamente ao presidente Vladimir Putin como a pessoa que, de facto, pode acabar com a carnificina da guerra na Ucrânia. Enfim, como disse Tilda Swinton, que entregou a Palma de Ouro, assim vai o nosso mundo em que “vivemos e respiramos política”. .Para as estatísticas do festival, importa não esquecer que, com a sua vitória, Cristian Mungiu entra para a galeria de notáveis que já arrebataram duas Palmas de Ouro — vencera a edição de 2007, com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Fica, assim, na companhia de Francis Ford Coppola, Bille August, Emir Kusturica, Shohei Imamura, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Michael Haneke, Ken Loach e Ruben Östlund. PALMARÉS / Cannes 2026 PALMA DE OURO FJORD de Cristian Mungiu (Roménia) GRANDE PRÉMIO MINOTAUR de Andrei Zvyagintsev (Rússia) PRÉMIO DO JÚRI THE DREAMED ADVENTURE de Valeska Grisebach (Alemanha) REALIZAÇÃO (ex-aequo) Javier Calvo/Javier Ambrossi LA BOLA NEGRA (Espanha) Pawel Pawlikowski FATHERLAND (Polónia) ATOR Emmanuel Machia e Valentin Campagne COWARD (Bélgica) ATRIZ Virginie Efira e Tao Okamoto SOUDAIN (França/Japão) ARGUMENTO Emmanuel Marre NOTRE SALUT (França) CÂMARA DE OURO / primeiros filmes BEN’IMANA de Marie Clémentine Dusabejambo (Rwanda) PALMA DE OURO / Curtas-metragens PARA LOS CONTRICANTES de Federico Luis (México)1 PALMAS DE OURO HONORÁRIAS Peter Jackson John Travolta Barbra Streisand