Estou a conversar com um barítono russo, e a minha primeira pergunta é exatamente sobre a ópera russa. Porque pensamos muito em óperas em alemão, em italiano e em francês. Mas Guerra e Paz, de Prokofiev, e Eugene Onegin, de Tchaikovsky, são duas belíssimas óperas, além de inspiradas em obras-primas da literatura, de Tolstoi e Pushkin. São dois bons exemplos do que é a ópera russa?Penso que são das melhores músicas de sempre. Tanto Guerra e Paz como Eugene Onegin são belos exemplos da música russa. E da cultura russa. E continuam a ser muito populares em todo o mundo, mesmo hoje em dia, com todas as circunstâncias políticas. Por exemplo, há dois anos apresentámos Guerra e Paz em Munique, na Bayerische Staatsoper. Com o diretor russo Vladimir Yurovsky, maestro principal da Bayerische Staatsooper. Fizemos quantas apresentações? Penso que foram seis, e mais quatro, e mais quatro. É algo muito invulgar. Normalmente, a produção é feita e, ao fim de um ano, volta. Mas eram tantas as pessoas que queriam assistir a esta ópera. E o teatro abriu uma exceção e incluiu mais algumas apresentações na programação. Para acomodar o máximo de pessoas possível, o máximo de audiência.Diz que a ópera russa é popular no estrangeiro. Também é popular na Rússia? Desde os tempos czaristas, passando pelos tempos comunistas, até aos dias de hoje?Sim, sim, sim, absolutamente. A ópera russa foi criada com base nos melhores exemplos da ópera francesa. E, mais tarde, da ópera italiana. Porque em São Petersburgo, a antiga capital da Rússia Imperial, onde nasci, a ópera representada no teatro costumava ser francesa, depois italiana e, de tempos a tempos, até alemã. Mas, no final do século XIX, o czar Alexandre III promulgou um decreto que determinava que toda a ópera estrangeira, independentemente de ser alemã, francesa, italiana ou qualquer outra, deveria ser traduzida para russo. Para atrair mais público, para popularizar a ópera. Isso resultou, e creio que foi o que ocorreu até ao início dos anos 1990. Só nessa altura, quando se começou mais a falar línguas estrangeiras, voltou a fazer-se produção de ópera com a língua original, além do russo. Recordo-me, há muitos anos, quando o maestro Solti, Georg Solti, me convidou para fazer o meu primeiro Iago em Otello, em Covent Garden, fiz o ensaio e vi a tradução de italiano para russo. E fiquei surpreendido com a precisão e clareza de cada significado possível, de cada ênfase. Sabe, a tradução foi perfeita. Por quê? Foi ideia do czar que se ouvisse ópera estrangeira em russo e para isso envolveu os melhores tradutores, poetas e escritores. Não eram apenas pessoas que sabiam outras línguas. Eram realmente intelectuais com um elevado nível de conhecimento.Começou a sua carreira na União Soviética. Naquela época, a ópera era para todos os russos, ou mesmo durante o período comunista era para a elite?Na verdade, nunca foi apenas para a elite. Porque o preço dos bilhetes para os teatros de ópera costumava ser praticamente nada. E todos podiam pagar. Hoje, no Teatro Bolshoi em Moscovo, por exemplo, nas representações mais populares, com milhares e milhares de pessoas a querer assistir, os preços podem disparar. Mas não era assim. Além disso, naquela época, na era soviética, praticamente todas as famílias tinham crianças a aprender a tocar instrumentos musicais. Ou então frequentavam um atelier para jovens artistas, um estúdio de teatro, grupos vocais ou coros. A educação coral era de um nível muito elevado, graças a Zoltán Kodály, o compositor húngaro, e a Dmitri Kabalevsky, o compositor russo. Criaram um programa coral especial para as escolas. E em todas as escolas costumava haver um coro. Todos os sábados e domingos, e claro, nos feriados, em todos os teatros costumava haver apresentações infantis. Ópera para crianças. Então, a educação musical começava muito cedo nessa altura. E outra coisa muito importante era o que vestir. Como se veste alguém para ir ao teatro, à ópera? No fundo, é, quando se acorda de manhã, e se sabe que à noite se vai à ópera, como nos devemos vestir? Continua importante. E liam sobre os temas.Essa paixão pela ópera persiste nos russos?Sim. Há um grande interesse pela arte performativa. Claro que agora está tudo na língua original. Mas os teatros estão completamente lotados. Os bilhetes estão esgotados. É muito raro ver lugares vazios na Rússia. Só uma curiosidade. Sabe quem era uma das cantoras preferidas no tempo de Catarina a Grande?Diria Luísa Todi. Mas admito que sei porque sou de Setúbal, como ela, que dá nome à avenida principal da cidade, e é uma figura cuja vida sempre me interessou.Luísa Todi era realmente uma estrela. E o nome dela ainda é conhecido na Rússia. Porque muitas pessoas que estudam história da ópera leem sobre o marido italiano dela. Ele era compositor. É interessante como vieram para a Rússia no final do século XVIII e se tornaram verdadeiras estrelas.Nessa época as óperas na Rússia ainda eram cantadas na língua original.Sim. E Luísa Todi cantava principalmente em francês.Falando agora de si, qual foi a sua primeira ópera? Comecei com uma ópera de Gershwin. A minha primeira produção foi Porgy and Bess, de George Gershwin.Em russo?Em russo. Mas quando o consulado americano veio assistir àquela apresentação no Teatro Mikhailovsky, ficaram maravilhados, absolutamente maravilhados, com o quão brilhante e bela foi a produção.Isso foi em plena Guerra Fria, muito antes da Perestroika.Sim. Estávamos em 1972. Mas havia abertura em termos culturais?Havia. E os americanos enviaram imediatamente convites aos solistas principais e à equipa de produção. Organizaram uma noite especial no consulado americano. E trouxeram dos Estados Unidos o filme, aquele filme famoso, Porgy and Bess, onde todos os atores são negros. E depois, obtive com Die Kluge o meu diploma, porque eu já estava no teatro quando era estudante, no último ano do conservatório, e a comissão de diplomas veio assistir à apresentação no teatro. E esse foi o meu diploma de licenciatura, com Die Kluge, de Carl Orff. Em russo.Então a sua primeira experiência a cantar numa língua estrangeira foi no estrangeiro. Lembra-se do lugar?Bem, recordo-me do Festival de Wesford, por exemplo, e Grisélidis, de Massenet, a minha primeira ópera em francês. E vou contar uma história engraçada sobre isto das línguas. Conhece Elena Obraztsova? A grande mezzo russa. Faleceu há alguns anos, infelizmente. Era a melhor Carmen. Eu cantava Escamillo, mas em russo. E fomos os dois a Budapeste para cantar a Carmen na Ópera de Budapeste. Ela cantou em francês. Eu cantei a minha ária em francês e um pequeno dueto no final da ópera. O restante cantei em russo. Mas a companhia húngara cantou em húngaro. Consegue imaginar? Três idiomas. Mas foi um enorme sucesso. As pessoas adoraram.Ao longo da sua carreira, cantou em teatros míticos, como o Teatro alla Scala, de Milão, a Ópera da Bastilha ou a Ópera de Viena. E interpretou muito Verdi. Já referiu o papel de Iago, em Otello. Também fez Simon Bocanegra. O italiano Giuseppe Verdi é um compositor importante para si?Sim, mas no mesmo patamar de Verdi poria Tchaikovsky e Mussorgsky. E Massenet, por exemplo. Ou Bizet. São muitos os grandes compositores de ópera.Referiu italianos, franceses, russos. Alemães?Sim, sim, admiro muito os compositores alemães. Praticamente cantei todas as óperas alemãs. Todas. Lohengrin, Parsifal, por exemplo, óperas de Wagner. Cantei muito Wagner. Até no Japão cantei Wagner.Sei que vive em Portugal há 18 anos. Apaixonou-se pelo país, pelo clima, pela comida, pelo vinho, já o contou. Mas e a ópera? Acha que os portugueses também adoram ópera, ou é um género considerado demasiado elitista em Portugal e por isso a importância de iniciativas como o Cascais Ópera, para descobrir valores, mas também divulgar a ópera junto de novos públicos?Sinto que as pessoas estão a sofrer agora sem acesso a ópera. Porque se olharmos para a história do São Carlos, os cantores mais famosos, como Maria Callas, Tito Gobbi, só para citar alguns nomes célebres, vieram cantar ao longo dos anos no São Carlos. Era um dos locais mais prestigiados para qualquer estrela, qualquer cantor famoso, vir a Lisboa cantar. E não estou a culpar ninguém porque às vezes o nível de algo desce e depois volta a subir. Espero ver depressa o dia em que o São Carlos reabrirá, depois destas obras de renovação. Convidarão ou criarão, estou certo, um belo repertório. Vão convidar maestros maravilhosos e cantores maravilhosos e espero poder voltar a vivenciar esses grandes momentos de ópera.Mas este concurso internacional de canto, que nasceu de uma ideia sua, o Cascais Ópera, juntamente com Adriano Jordão, co-diretor artístico, e Alexandra Maurício, diretora-geral, é uma forma de atrair mais pessoas para a ópera, para descobrirem como a ópera é bela?Está a falar de público e respondo sim. Além disso, estamos a falar da geração jovem, de jovens cantores que se estão a esforçar. Querem envolver-se com a ópera aqui em Portugal. Esta é uma oportunidade. Não é apenas uma competição, não deve ser vista apenas como uma competição internacional. Na realidade, o principal objetivo do Cascais Ópera é criar uma nova geração de cantores portugueses. E está a acontecer.Mas é, de facto, um evento muito internacional em termos de candidatos, porque sei que este ano há mais de 50 nacionalidades a concorrer. Sim, 59 a concorrer.E quantos candidatos?Perto de 500. Foram 499 candidaturas de 59 países. Isto representa um grande aumento em relação ao ano anterior. Os jovens querem vir cá. E foram 41 cantores selecionados para as provas públicas. Na gala de abertura, dia 29, onde vai estar em palco, estarão também duas antigas galardoadas portuguesas, Sílvia Sequeira e Rita Coelho. Este ano, houve muitos cantores portugueses a concorrer?Tivemos 25 candidaturas de cantores portugueses. E temos três cantores portugueses que foram selecionados para as fases abertas ao público. A gala de abertura é um momento que reforça uma das dimensões centrais do projeto: dar continuidade e visibilidade aos artistas que passaram pelo concurso.Portanto, dos 41 pessoas selecionadas, três são portugueses. Quantas nacionalidades estão representadas nesta fase final?Foram selecionados 41 cantores, de 25 nacionalidades. Uma diversidade enorme. Seis chineses, cinco sul-coreanos, quatro alemães, três portugueses, dois canadianos, dois russos, dois ucranianos, dois sérvios.Isto é realmente internacional!E temos mais países. Há um da África do Sul, que é uma novidade. E a Argentina. Preciso de admitir que a América do Sul está a crescer tremendamente, sem dúvida. E estou muito feliz por ver este resultado que se deve ao Cascais Ópera em 2024, ter-se tornado no primeiro membro português a integrar a Ópera Latinoamérica (OLA), uma prestigiada rede que conecta instituições de ópera e artes cénicas em toda a América Latina. Também um da Áustria, um do Brasil, um da Costa Rica, um da Croácia, um da Eslovénia, um da Espanha, um da França, uma da Geórgia, uma da Hungria, um da Itália, um da Suíça, um da Venezuela, EUA e Reino Unido. Como pode ver, a América do Sul envia agora muitos participantes.Além dos prémios, o Cascais Ópera promove oportunidades de contratos para os cantores que se destacam. Tem acontecido carreiras artísticas darem um importante salto depois deste concurso em Portugal?Com certeza. Mesmo que porventura não sejam vencedores, não ganhem o primeiro prémio. Mas alguém envolvido, algum elemento do júri, alguém que assistiu, pensa: disse: “Ah, que jovem interessante. Devíamos convidá-lo. Ou convidá-la”. E isso já aconteceu. E é muito importante. Deixa-me feliz. Como é o caso de Teresa Sales Rebordão, finalista da 1.ª edição, que atualmente integra o Estúdio de Ópera da Vienna Staatsoper, um programa de dois anos dedicado ao acompanhamento e desenvolvimento de jovens talentos vocais de exceção, tendo sido convidada para audição após a sua participação no Cascais Ópera. Outro exemplo é o do cantor coreano Suno Sun, finalista da 2.ª edição, distinguido com o Prémio Carlos Gomes, que realizou recentemente três récitas da Ópera Salvador Rosa - de Carlos Gomes - no Festival Amazonas Ópera, em Manaus, um concerto com Orquestra em Belém do Pará e um recital em Brasília. A Rita Coelho é do Coro do São Carlos e depois deste prémio tem tido mais oportunidades como solista nas produções do teatro, e através do Cascais Ópera esteve em Macau e no 10 de Junho atuará em Boston. Por sua vez, Sílvia Sequeira voltará a Macau também no âmbito das comemorações do Dia de Portugal..“Temos de ser imaginativos e encontrar formas de atrair a São Carlos jovens e famílias”