O meu melhor amigo vai morrer? Vamos queimar os últimos foguetes!

Mathieu Delaporte e Alexandre de La Patellière contam ao DN tudo sobre O Melhor ainda Está para Vir, comédia dramática sobre aceitar o diagnóstico de uma doença terminal. Mais outro filme nas salas para ainda dar o benefício da dúvida a um certo cinema francês de identidade industrial.

Nestes tempos de pandemia e de recolhimento, quem arriscar a ir ver uma comédia sobre um tipo com uma doença terminal, apanha uma experiência emocional revoltosa. O filme chama-se O Melhor Ainda Está para Vir e é talvez a maior surpresa desta temporada. Uma mistura de gargalhadas e lágrimas feita com uma rigor emocional correto e uma grande dose de bom senso. A cortesia é da dupla Mathieu Delaporte e Alexandre de La Patellière, cineastas que já tinham tido um sucesso global chamado O Nome da Discórdia, de 2012.

É uma estreia de combate numa altura em que o calendário e as restrições da lei permitem poucas sessões. Os realizadores, numa conversa no inverno passado em Paris, contam que a criação deste filme nasceu na altura em que festejavam o sucesso de O Nome da Discórdia: "na mesma altura que celebrávamos o sucesso mundial de O Nome da Discórdia, aconteceu-nos uma tragédia, a nossa atriz Valérie Benguigui morreu. E foi aí que surgiu a ideia de escrever algo sobre o duplo sentimento da tristeza e da alegria. Começámos a pensar sobre o tempo que nos resta... Depois de outros acidentes de vida decidimos mesmo fazer um filme luminoso e divertido sobre um assunto que nos faz sofrer", conta Mathieu Delaporte a meias com o Alexandre de La Patellière.

A morte fica-lhes tão bem, sobretudo quando se pensa que O Melhor Ainda Está para Vir é a história de dois melhores amigos: Arthur e César, ambos parisienses de meia-idade e burgueses. Um deles, César, descobre que Arthur tem um cancro terminal e ao querer dizer ao amigo a notícia forma um equívoco terrível: Arthur pensa que quem está condenado é César. Seja como for, os dois decidem ficar juntos e aproveitar o melhor da vida que resta com um imaginário de celebração final. Conto de camaradagem pura, O Melhor Ainda Está para Vir tem dois atores em estado de graça: Fabrice Lucchini e Patrick Bruel têm uma química absolutamente comovente. Delaporte e Patellière escreveram o guião com o coração no sítio e as emoções à flor da pele. Isso nota-se e alavanca todo o filme.

"O bom do cinema francês contemporâneo é que está com uma linguagem capaz de tocar a todos os públicos. Mas o nosso público são os adultos, não queremos fazer rir dos sete aos setenta anos. A nossa ideia é fazer o filme que queremos ver. Claro está que esperamos que as pessoas o queiram ver, mas nunca vamos atrás das expectativas. Esperemos que gostem do que fazemos mas marimbamo-nos para os algoritmos", contam os realizadores.

"Se as mulheres falam da intimidade no seio da amizade entre elas, aqui, no caso, dos homens, sentimos que as coisas vão para um lado onde se exalta mais o pudor... A amizade masculina conserva algo mais de distante e isso é bom para o equívoco da comédia. Somos dois homens e estamos melhor preparados para falar disto do que da amizade feminina", diz Alexandre de La Patellière, que adianta que o segredo do filme é a relação entre os atores: "o Patrick Bruel e o Frabrice Lucchini já não trabalhavam juntos há anos. Fizeram um filme chamado P.R.O.F.S e na altura não eram vedetas! Agora estavam de novo juntos e pareciam velhos amigos. O coração do nosso trabalho apenas se baseia na escrita e nos atores. E aqui o tema principal era mesmo a amizade, a amizade masculina".

Pungente nesta premissa é ambas personagens saberem que é importante celebrar a última farra, a última viagem, a última loucura... Não é a primeira vez que se filma uma despedida de uma vida, mas esse tema parece ser uma trend do cinema "mainstream". O que é de elogiar numa comédia dramática como esta é ter uma estrutura de guião que nunca guina para o cliché.

O Melhor Ainda Está para Vir é um raio de esperança numa paisagem de filmes franceses tipificado. "Trabalhámos muito neste argumento, sobretudo no ritmo das falas e dos diálogos, mas um dos segredos foi confiar nos acidentes que se passaram no "plateau". Deixámos o inesperado chegar. De alguma forma, as surpresas libertaram o peso do guião, sobretudo no jogo entre os atores. Era preciso que a vida real entrasse neste filme sem que atraiçoássemos o argumento, apenas deixámos entrar alguma loucura."

*** Bom

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG