Rui Couceiro estreia-se na não-ficção com dez histórias de leitores ávidos de várias nacionalidades e profissões.
Rui Couceiro estreia-se na não-ficção com dez histórias de leitores ávidos de várias nacionalidades e profissões.Foto: Alexandra Teófilo

O livro egoísta que aprisiona a maldição dos livros

Após dois romances com sucessivas edições, Rui Couceiro regressa às livrarias com um volume de não-ficção que reúne várias histórias sobre leitores entusiasmados.
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Enquanto ouvia um dos “leitores” com quem conversou para escrever A Mais Bela Maldição, Rui Couceiro apercebeu-se de imediato que tinha em mãos o título para o livro em que trabalhava. Quatro entre milhares de palavras que escutou durante as entrevistas que foi fazendo, algumas das quais publicou em revistas e outras feitas de propósito para o volume de histórias que em menos de meia-dúzia de dias nas livrarias entrou no top dos livros mais vendidos em Portugal. Esse título para um livro português foi-lhe dado por um cidadão de Bogotá, José Alberto Gutiérrez que, exaustivamente, juntou livros durante a vida, que encontrou enquanto exercia a profissão de motorista de camiões do lixo.

Uma entre as dez histórias que se vão alinhar por duzentas páginas, a que se pode acrescentar outra que não faz parte desse corpo mas já explica de forma muito clara ao leitor ao que se vai: o relato mágico da doença que atingiu a sua avó que integra a Introdução. Ou seja, se esta “peça” foi deixada no início, é porque não faltarão boas histórias pela frente. Também reforça a máxima de que a realidade supera sempre a ficção, neste caso a não-ficção.  

A história da avó não surge por acaso, como Rui Couceiro explica: “Foi a partir dessa altura que comecei a interessar-me pelas histórias de pessoas a quem os livros mudam a vida ou que se interessam muito por eles”. Dá um exemplo: “Conheci um arrumador de carros que fazia esse trabalho para comprar livros. Os condutores tinham dúvidas sobre o destino das moedas, mas ele fazia questão de dizer «Não é para droga, é para livros». Era um leitor improvável, tal como a minha avó, ainda mais improvável pelo que lhe acontecera.”

Podiam definir-se os capítulos como reportagens, mas o escritor prefere chamar-lhes histórias. Justifica: “Acho que misturam o registo da reportagem com o da crónica, de uma forma mais pessoal do que seria uma reportagem de um jornalista.” Histórias que no começo não pretendia que viessem a fazer parte de um livro, como revela: “Tive um convite da revista Visão para visitar a fundação da baronesa Beatrice Monti della Corte, que tem uma residência literária na Toscana e recebe inúmeros escritores, para contar como era a experiência de lá estar, bem como o que acrescentaria às noventa páginas já escritas do meu segundo romance [Morro da Pena Ventosa], que levei comigo. Gostei tanto de escrever aquela história que ao contarem-me uma outra, a de Aziz, um livreiro que tem um estabelecimento que mais parece um armário atafulhado de livros junto à medina de Rabat, achei que também a deveria relatar. Então, meti-me num avião e fui a Marrocos procurá-lo. Propus o texto e foi aceite novamente pela revista, a que se seguiram no ano seguinte mas dois textos deste género: o do único e primeiro editor de São Tomé e Príncipe, o francês Jacques-Dominique Benoist; e o do gasolineiro açoriano Ângelo Melo, que se tornou num devorador de prémios Nobel.»

É nesta altura que se confirmará em Rui Couceiro a vontade de continuar a contar mais histórias como o quarteto que já publicara e, porque não, reuni-las num livro. Recorda: “Ao ter este projeto, não publiquei mais nenhuma e mantive-as inéditas para os leitores de um futuro livro. Reuni todas as que queria, até a que se transformou no depoimento mais difícil de obter, o de Reginald Betts, um ex-recluso que criou mais de 500 bibliotecas nas prisões e também um poeta premiado. Se encontrá-lo foi muito difícil, ainda houve um contratempo que quase me impedia de terminar esta aventura literária como desejava: o enorme nevão de novembro passado. Ainda bem que nos encontrámos porque não queria publicar o livro sem essa história, que era para mim a cereja no topo do bolo e também dava uma maior abrangência de realidades por ter uma história passada nos Estados Unidos.”

Ao recordar a odisseia norte-americana em busca da história do ex-recluso Betts, Rui Couceiro acaba por esclarecer a razão de ter escrito A Mais Bela Maldição: “Tal como nos meus romances, a escrita deste livro foi um exercício de egoísmo: escrevi os livros que gostaria de ler. Com este livro fui viajar para contar histórias, o que faz dele também um livro de viagens e de crónicas sobre aquilo que vou vendo nos lugares onde me encontro com os vários entrevistados, com cidades, países e culturas muito distintas, situações que enriqueceram o livro e a mim próprio. Daí que não possa deixar de confessar que este é um livro um pouco egoísta.”

No final, é impossível não perguntar, houve alguma história que tenha ficado de fora desta recolha. Responde que não: “Todas as que escrevi integraram este livro, mesmo que houvesse várias que fui encontrando ou que me iam sugerindo ao saberem que andava nesta busca, no entanto, não fui em frente porque não encaixavam exatamente no que queria fazer. Eram boas histórias mas não as que procurava e me interessavam, porque o espírito do volume tem muito a ver com a minha curiosidade e as histórias de que fui atrás tinham essa característica pessoal.”

Segundo o autor, uma das primeiras perguntas que ouve dos leitores é se esteve nos locais que descreve? Rui Couceiro garante que sim: “Essa realidade sente-se logo na estrutura do texto, seja nos meus romances ou neste de não-ficção, porque é como gosto de fazer. Sou muito atento ao detalhe, gosto das particularidades que conferem verossimilhança enquanto construo os cenários. No caso deste novo livro, estava sempre muito atento a todos os estímulos sensoriais, auditivos e olfativos, sempre a tomar nota no telemóvel ou mentalmente, porque iria necessitar deles quando chegasse a hora de escrever. Considero que só respeitando esta dimensão se consegue transportar o leitor para um lugar diferente e ser capaz de se contar uma história passada num outro contexto sociocultural. Afinal, o papel do escritor é mostrar e descrever de forma que quem lê também possa ver o que o inspirou.”

Entre as várias histórias está a de uma livreira italiana, Alba Donati, que faz questão de dizer que o enredo dos romances pouco conta e que o importante é a forma como o escritor conta a história. Couceiro, que se despediu há um ano da profissão de editor, discorda da posição da livreira: “Sou um grande defensor da ficção e acho que esta é a melhor forma de contar a verdade. Não concordei com ela quando referiu a sua opinião e, apesar de termos conversado bastante sobre a questão, evitei entrar em confronto com ela. Compreendo a ideia e não foi a primeira pessoa que me a disse; há gente que não gosta da ficção, que se sente atraiçoada pelo registo e só gosta de histórias que efetivamente aconteceram porque se comovem mais. Compreendo-as, porque gosto das duas formas: das vindas diretamente da realidade, se forem boas histórias; das ficcionadas, porque não é preciso estar agrilhoado à realidade e pode-se escrever exatamente o que queremos.” Esta dualidade de opiniões leva Rui Couceiro ao seguinte pensamento: “Embora tenha sido criado por grandessíssimos escritores, desde que o romance nasceu e continuou com autores como Cervantes ou Laurence Sterne, também aprecio muito um período dourado da imaginação que é o do boom da literatura latino-americana. Este último mostra o quanto a imaginação é de facto o grande recurso do escritor.”

O assunto da autoria e do género leva a outra pergunta, o que a Inteligência Artificial está a fazer à Literatura. Considera: “Podemos estar mais perto do fim da literatura como a conhecemos por conta do advento da Inteligência Artificial. Provavelmente, em breve deixaremos de saber se o livro que está nas nossas mãos foi gerado com o único recurso das capacidades humanas ou resulta do auxílio de uma máquina. Uma situação que dificilmente não representará o fim da Literatura e que vai obrigar a criar um lugar nas estantes para os livros feitos dessa forma artificial. Será que os autores terão a honestidade para admitir como fizeram o livro? Quanto a mim, só lerei livros gerados por humanos; gosto de admirar a capacidade humana, gosto de ler José Saramago porque tinha ideias geniais e que mais ninguém teve. Não foram as máquinas que as criaram, foi ele, um dos maiores escritores da história da Literatura. No futuro, se aparecerem outros José Saramago, até poderemos desconfiar.”

Entre as histórias nascidas e criadas noutros países está também uma portuguesa, a de José Alberto Postiga, sintetizada assim: “É a história de quem não leu durante metade da vida e depois quis ser poeta”. Rui Couceiro desvenda: “É a história impressionante de alguém cujo contexto não poderia ser mais distante dos livros e da leitura porque estava condenado, como quase todos os seus familiares e pessoas que fizeram do mar e da pesca a sua vida, a esse percurso e que, graças aos livros, foi capaz de fintar o seu destino e contrariá-lo. Curiosamente, não se tornou apenas leitor e quis ser escritor, trabalhando afincadamente para o conseguir. Tornou-se poeta, tem um livro publicado na Imprensa Nacional, entre outros passos do seu caminho.”

Há nesta coleção de histórias uma cujo protagonista é bastante polémico, a do pessoano José Paulo Cavalcanti Filho. Autor de uma biografia sobre Fernando Pessoa, que os especialistas criticam, consideram incorreta e até acusam de não ser o único autor da investigação. Rui Couceiro conta a sua história e defende-o dos que o contestam. Quando se pergunta porque defende este personagem entre outros que descreveu, diz: “Claro que estou do lado dele, pois conheço a paixão que tem pelo tema e o que sabe de Pessoa. Acompanhei o trabalho dele porque trabalhava na editora que publicou o seu livro em Portugal, daí que aceite que possa haver gente que não partilhe das suas opiniões ou que as ache demasiado arriscadas, mas isso não faz dele uma pessoa menos interessante para os leitores. Aliás, talvez de todas estas pessoas presentes no livro, seja aquela que é mais brilhante e carismática.” Aproveita a deixa para criticar os que se sentem com direito a rotular os outros: “Se um dia alguém contar a nossa história como será? Talvez digam que o Rui Couceiro era um autor um bocado amalucado, porque não tinha televisão em casa e isolava-se para escrever como um eremita na Beira Alta, numa terra pequena e granítica.”

Por fim, é hora de se questionar até que ponto o romancista não vai desiludir os leitores com outro registo literário além do que lhe conhecem. Para Rui Couceiro, essa é uma realidade difícil de acontecer: “Acredito que não e com tão poucos dias nas livrarias o livro têm demonstrado o contrário. Pelo que tenho percebido, os que gostam de me ler estão muito entusiasmados. É um livro mais pequeno e rápido de ler, tanto que já tenho recebido várias opiniões porque os leitores têm comentado e partilhado nas redes sociais - que têm este lado bom - e sinto que este livro poderá ser também uma porta de entrada para a minha ficção. Veremos, até porque o meu interesse maior é a ficção, cujo exercício é muito mais exigente para o escritor. Sei bem disso e tenho estado a senti-lo na escrita do próximo romance, em que estou a trabalhar.”

A MAIS BELA MALDIÇÃO

Rui Couceiro

Porto Editora

207 páginas

Apresentação hoje, pelas 18.30, no El Corte Inglés de Lisboa

O IMPERADOR

Depois de ter publicado um estudo sobre as famílias mexicanas exiladas na Europa durante a Revolução de 1910, que desalojou o general Porfirio Díaz do poder, e de ter em curso a biografia deste antigo governante, de quem o historiador mexicano é descendente, surge a tradução em português de Maximiliano - Imperador. Se o retrato da vida do príncipe de Habsburgo é curioso tanto na vivência em Viena como na aventura mexicana, esta investigação traz páginas tão curiosas como interessantes sobre a paixão de Maximiliano pela princesa Maria Amélia de Bragança, filha de D. Pedro I, a quem propôs casamento durante a estada em Lisboa. A morte da princesa alterou o destino do futuro imperador do México que, convidado por Napoleão III, aceitou uma missão que se revelaria bastante trágica ao fim de três anos.

A personalidade de Maximiliano é escalpelizada pelo autor, que não hesita em o considerar afável e, ao mesmo tempo, ingénuo. No entanto, o adjetivo que acredita ser o melhor é o de "frívolo", dando para isso exemplos de obras mais espetaculares do que necessárias, como disse Napoleão: “Em vez de construir teatros e palácios, é essencial pôr ordem nas finanças e nas estradas”. O fim de Maximiliano é próprio do seu género de homens, tanto assim que perante o pelotão de fuzilamento pediu para lhe pouparem o rosto e disparassem sobre o peito. Não queria que a mãe o visse desfigurado. Um livro profusamente ilustrado, situação que permite visualizar o que a tradução de Marcelo Teixeira dá a ler.      

MAXIMILIANO

Carlos Tello Díaz

Parsifal

157 páginas

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