"O espaço mediático tem de ser conquistado pelo cinema português"

Na semana em que chegou às salas mais uma produção independente feita no norte de Portugal, <em>Já Nada Sei</em>, de Luís Diogo, o seu produtor, António Costa Valente, fala de como consegue fazer cinema sem nomes sonantes em todo o lado ao mesmo tempo. Uma figura de resistência que é também diretor de festivais, produtor, exibidor e distribuidor.
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Da sua pequena Avanca, vila escondida no concelho de Aveiro, tem criado um pólo de produção singular no cinema português. António Costa Valente é daquelas figuras do audiovisual português que consegue ter uma influência a muitas escalas: tem um festival no local onde vive, Avanca, produz filmes "impossíveis", inventa outros festivais em locais improváveis, produz animação, programa cineteatros, é professor na Universidade do Algarve , distribuidor de cinema do mundo e exibidor em Ovar. Ao mesmo tempo, não se preocupa com vaidades e dispensa as atenções mediáticas. Alguém que gere uma agenda "a mil" com um sorriso e um espírito de resiliência notáveis. Esta semana, estreou Já Nada Sei, de Luís Diogo, um drama sobre uma separação de um casal aparentemente feliz.

Para Costa Valente é importante um cinema português que fuja aos circuitos de visibilidade mais canónicos. Por isso, no cartaz de Já Nada Sei estão estampados prémios e presenças em festivais internacionais menos conhecidos. A sua Filmógrafo consegue fazer com que surjam filmes sem os dinheiros mais evidentes do ICA ou da RTP - filmes com recurso a técnicas low-budget, apoios de câmaras municipais e de privados. É assim que tem produzido com regularidade documentários, curtas-metragens e longas. Sempre desde a pacatez do seu núcleo cineclubista em Avanca.

Tem a noção de que a sua polivalência como diretor de festivais, produtor e professor é algo que pode espantar certas pessoas dentro do meio do cinema português?
Para mim, não há bem fronteiras... Ser produtor é também ser programador que é distribuidor. Faz parte de um processo - um filme antes de chegar à sala não é propriamente um filme. O trabalho de produção é constante, desde a ideia até ao filme ser visto. Tudo isto é natural para mim. A base de tudo é o Cineclube de Avanca.

Avanca... a sua terra! Isto quer dizer que há descentralização no cinema português?
O local nunca pode ser uma limitação para aquilo que se quer fazer. E é claro que continuarei em Avanca a viver, a trabalhar e a criar. Se isso traz qualidade de vida? Sim, quando se é feliz a fazer coisas, sim! Consegui nunca ter de imigrar.

Foi uma conquista complicada?
Lutei desde o início para isso. Aos 15, 16 anos já estava a organizar coisas com o cineclube. Tinha de ser! Em Avanca não tínhamos cinemas... Fomos nós que fizemos chegar o cinema. Nasceu de uma necessidade cinéfila e transformou-se em algo comunitário.

É conhecido por sorrir muito. O trabalho em cinema para si é um prazer?
Era um desastre se não fosse assim! Já tinha largado isto se não fosse um campo de felicidade e de diversão...

Mas há quem pense que o cinema é algo muito duro e depois toda a questão das contas...
Mas eu faço mal contas... Os dinheiros nunca foram o fundamental. Defino-me como produtor criativo. Um produtor é um dos autores do filme. Há a direção de atores, mas também existe a direção de autores... Trabalho com cumplicidade com o realizador. Um produtor não pode ter apenas o papel de produtor executivo, ou seja, o tipo que arranja o dinheiro e que resolve os problemas.

Tem trabalhado com cineastas sobretudo não consagrados.
Sim e de diversas idades, desde os mais jovens aos mais velhos, como o Manuel Matos Barbosa, que está com 80 anos. Gosto de trabalhar com aqueles que fazem um trabalho que me agrada. Tenho de acreditar nos filmes...

Apostou recentemente como distribuidor em Posso Olhar por Ti, de Francisco Lobo Faria, a primeira longa feita na Madeira. Como o descobriu?
Tinha visto o filme, um projeto que nasceu de um espaço de formação de cinema com miúdos. A partir daí ele decidiu dar um passo acima: escreveu um guião e filmou com as crianças. A primeira versão estava longa mas percebi que continha o essencial. O que é curioso é que conseguimos que estreasse primeiro na Austrália. Este é claramente o primeiro filme feito por madeirenses que chega ao circuito de cinemas. Coincidência estrear-se na altura em que se fala da Madeira devido às filmagens do Star Wars.

Mas não é quixotesco apostar em filmes que não ganham o apoio do ICA?
O importante é que os filmes sejam feitos, que sejam positivos. É importante que haja possibilidades para todos, que os filmes sejam terminados, enviados para festivais e exibidos. Sabe, não conta de onde veio o dinheiro, mesmo sendo sempre muito pouco.

Este Já Nada Sei tem apoio de autarquias.
Sim! Teve apoio de Oliveira de Azeméis e de Santo Tirso. Trata-se de um filme que tem feito o circuito dos festivais e que tem parecenças com os anteriores do Luís Diogo. É sobre a palavra divórcio, ali muito presente. Teve a sua antestreia no Azeméis Filme Festival e foi muito bem recebido.

Muitas vezes, o espaço mediático em Portugal não é particularmente aberto a cineastas que não estejam em Lisboa...
O cinema português está a entrar num dilema: em 2022 estrearam-se 58 filmes! Mais do que um por semana e o mesmo está a acontecer este ano. Acredito que o espaço mediático tenha de ser conquistado pelo cinema português. Estou otimista. Isto já não é um cinema subsidiário nem micro cinema. Esse dilema tem de chegar aos media... Sempre achei que o cinema português tem de ter mais espaço.

Mesmo filmes com muito espaço mediático como Great Yarmouth - Provisional Figures, de Marco Martins, não quebram o divórcio dos espectadores com o nosso cinema... Continua mesmo otimista?
Divórcio? Isso é na história de Já Nada Sei (risos). A questão não é essa, o que se passa é uma coisa de não conhecimento. As pessoas não sabem que os filmes estreiam, por isso acho importante que houvesse sempre uma sala com cinema português. Por exemplo, onde passa um filme estrangeiro, passar uma curta portuguesa. Quando as pessoas vão a um multiplex ficam com a impressão que só existe um tipo de cinema, os blockbusters. Enfim, o público tem de chegar aos outros tipos de cinema.

Como também produz cinema de animação, como vê este momento da nossa produção nesse campo, sobretudo depois da nomeação ao Óscar de João Gonzalez?
A animação sempre foi o género que esteve à frente da qualidade do cinema português. Sempre tivemos grandes realizadores. Finalmente tivemos uma nomeação aos Óscares mas sempre estivemos nos grandes festivais mundiais. Por acaso, produzi e co-realizei em 2006 a primeira longa de animação portuguesa, Até ao Tecto do Mundo, estreada precisamente na Guiné Bissau...

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