Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares criaram um código que a PIDE nunca descobriu, na correspondência que trocaram durante as detenções do advogado, por oposição ao Estado Novo, contou à Lusa o filho Miguel Sousa Tavares.Além de acompanhar a mãe nas visitas à prisão de Caxias, Miguel Sousa Tavares tinha a missão de a ajudar na redação das cartas e na “tradução” das mensagens enviadas pelo pai.“Eles comunicavam e tinham segredos políticos a partilhar e a transmitir à volta do circulo de resistência contra o Estado Novo de que faziam parte. Tinham inventado um código genial”, recordou o filho.Em tempos de perseguição política, Miguel Sousa Tavares jurou à mãe que nunca divulgaria o enigma, contido nas cartas.“Era preciso que a redação das cartas contivesse lá dentro a chave do código e o meu pai, que estava preso, não tinha nada para fazer, nem sequer o deixavam ler – o único livro que lhe permitiram ter foi a Bíblia -, tinha todo o tempo do mundo para escrever aquelas cartas, a minha mãe é que não tinha. Tinha outras coisas para fazer, coitada, estava sozinha em casa e tinha cinco filhos”, lembrou Miguel Sousa Tavares.A mãe pedia-lhe ajuda para “traduzir” as cartas do pai e extrair o código que permitiria encontrar a mensagem escondida na correspondência conjugal, respondendo depois da mesma forma.“Não era nada fácil, em termos de criatividade escrita, de modo a que a PIDE não desconfiasse que lá dentro havia uma chave”, revelou Miguel Sousa Tavares, em entrevista à agência Lusa, no âmbito dos 50 anos da aprovação da Constituição da República, que se cumprem na quinta-feira.Além de um dos maiores nomes da poesia portuguesa, com honras de Panteão Nacional, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004) foi deputada constituinte (1975-1976) e integrou, com o marido, a resistência antifascista antes da revolução de 25 de Abril de 1974.O código funcionou sempre que Francisco Sousa Tavares esteve preso e conseguiu comunicar com a mulher, garantiu o filho.“Guardei sempre para mim isto - nunca hei de contar a ninguém qual era aquele enigma particular. Já não sei qual dos dois é que o inventou, mas foi simplesmente brilhante”, referiu.“Era preciso que alguém soubesse ler a coisa e dos cinco filhos, eu não era o mais velho, mas a minha mãe escolheu-me para ser o único que estava dentro do segredo. As minhas irmãs ficavam muito admiradas, porque me viam com a minha mãe, sentados a uma mesa, e durante horas - ninguém podia entrar - a escrever ou a ler as cartas do meu pai”, descreveu o jornalista, ao recuar ao período antes do 25 de Abril, durante o qual o pai esteve preso e a mãe foi interrogada pela polícia política.A última detenção de Francisco Sousa Tavares está associada à divulgação do caso “Ballet Rose”, um escândalo de pedofilia, envolvendo altas figuras do Estado que acabou noticiado na imprensa estrangeira, no final de 1967, conforme pode constatar-se no Museu do Aljube (Lisboa).Juntamente com o jurista, foram presos o escritor Urbano Tavares Rodrigues e o histórico líder socialista Mário Soares.“A PIDE convenceu-se de que o meu pai tinha sido um dos divulgadores. Não foi. Nem ele, nem o Mário Soares”, garantiu Miguel Sousa Tavares, que viu o pai ser libertado em 1968.Mário Soares foi deportado para São Tomé. “Discutia-se muito lá em casa se o meu pai também corria o risco de ser deportado e se devia antecipar-se e pedir asilo político numa embaixada em Lisboa. O consenso e a vontade dele acabou por ser “Não” e ficar em casa a ver o que acontecia. Felizmente, nesse caso, não lhe aconteceu nada!”, desabafou.A imagem de Francisco Sousa Tavares no dia 25 de Abril de 1974, quando de megafone em punho subiu a uma guarita no Largo do Carmo para incentivar a população a organizar-se, em pleno golpe militar, tornou-se uma das fotografias icónicas da revolução, registadas pelos repórteres fotográficos que cobriram os acontecimentos, em Lisboa.Versos escritos por Sophia de Mello Breyner, durante a ditadura, como “vemos, ouvimos e lemos/ não podemos ignorar” (Cantata da Paz) ou posteriormente, “esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo” (sobre o 25 de abril) continuam a sair à rua em cartazes improvisados, em diversas manifestações de cariz social e político, incluindo o desfile que todos os anos assinala o aniversário da revolução, na Avenida da Liberdade, em Lisboa.A cultura, dizia a poeta numa das intervenções na Assembleia Constituinte, “não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar”..Revista de imprensa: Metade dos portugueses revê-se na Constituição e mais famílias vão pagar IRS