Não é fácil classificar, nem sequer apenas descrever, O Diário do Realizador, a mais recente experiência cinematográfica com assinatura do cineasta russo Aleksandr Sokurov. Faz sentido apresentá-la como “experiência”, quanto mais não seja por causa da sua invulgar duração, superior a cinco horas (305 minutos, para sermos exatos). Em todo o caso, seria grosseiro abordar tão impressionante proeza narrativa em função de uma qualquer norma “métrica”, mesmo reconhecendo que a sua difusão não pode cumprir os modelos correntes do mercado. Assim, para já, O Diário do Realizador vai ser apresentado em Lisboa, no Cinema Nimas, em duas partes (sessões sábado e domingo, às 11h00, com apresentação de Boris Nelepo, da direção de programação do Doclisboa).É caso para dizer: no princípio era o Verbo. Aliás, a Escrita. Isto porque Sokurov começa por se apresentar enquanto presença viva no interior do seu filme. Como? Escrevendo, justamente. Antes mesmo de descobrirmos a sua silhueta ao lado de uma mesa de trabalho, em contraluz, junto a uma janela, começamos por seguir a sua mão a escrever. Que escreve ele? “Durante anos, colecionei todo o género de material que me captou a atenção. E memorizei o que acontecia longe. Anotei tudo. Agora está aqui. É isto. Já chega.” .Já chega, quer dizer, é o momento de transformar as memórias em filme. Com uma lógica que tem qualquer coisa de diário, ou melhor, de anuário. O filme chama-se O Diário do Realizador, ecoando o método de escrita adoptado por Sokurov, mas as suas imagens estão repartidas por ciclos anuais: há mesmo uma barra vertical, à direita do ecrã (um pouco à maneira dos ícones disponíveis num computador), organizada por anos — de 1917 a 1991.A foice o marteloSão datas que atraem muitos ecos da história russa e, mais concretamente, da Rússia enquanto URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Quanto a 1917, se dúvidas houvesse, os respetivos algarismos surgem ao longo de todo o filme encimados pelo símbolo comunista, foice e martelo; 1991 corresponde ao fim de um dramático ciclo histórico em que os grandes protagonistas são Mikhail Gorbatchov e Boris Yeltsin — o derradeiro líder da URSS e, depois da respectiva dissolução, o primeiro Presidente da Rússia. Há uma mágoa que perpassa pelas imagens desses anos finais (a certa altura, as datas de 1990 e 1991 surgem mesmo sobrepostas), com memórias paralelas dos rituais políticos de transição e da população anónima que, por assim dizer, dialogam entre si. O desencanto face à herança comunista — “O Partido Comunista arrastou o país para a crise”, ou ainda “Este pesadelo durou 72 anos” — coexistem com breves frases sobrepostas às imagens, identificando acontecimentos daquele período. Sem limites geográficos ou temáticos — do anúncio da anexação do Kuwait pelo Iraque até à estreia do filme Sozinho em Casa, passando pela atribuição do Nobel da Paz a Gorbatchov. . Tudo isto pressupõe um olhar serenamente subjetivo, alheio a qualquer manipulação televisiva, supostamente objetiva, de banal acumulação de materiais de arquivo. Também não escutamos uma voz off que se apresente dotada de uma “razão” superior à própria complexidade dos factos e respectivos registos visuais e sonoros. Logo no ano de 1957, precisamente aquele com que Sokurov inicia o filme, a sua mão reaparece para escrever algo que só podemos interpretar como uma declaração de inviolável intimismo: “Meu anjo, fica comigo. Tu vais à frente. Eu sigo atrás de ti.” Ou ainda, um pouco mais à frente, numa rima trágica: “O amor de um pai é dilacerante. O amor de um filho é dilacerante.”Com um calendário que se inicia em 1917, porque é que as evocações de Sokurov apenas arrancam em 1957? Nascido em 1951, ele começou a tomar as suas notas muito cedo, no início da década de 60. Em qualquer caso, podemos supor que a escolha de 1957 não será estranha à avalanche de factos, ora convulsivos, ora apenas curiosos, que marcaram esse ano em que o PC organizou uma exposição de celebração do “40.º aniversário do Poder Soviético.”O mundo em 1957Se se tratasse de escolher uma data que pudesse simbolizar um mundo em dramáticas transformações, não haveria muitas como 1957. Assim, descobrimos elucidativas imagens de propaganda em que a exaltação das proezas “coletivas” do comunismo se faz através de um estilo pueril, sempre à beira do kitsch. Vemos, por exemplo, o dirigente de uma cooperativa agrícola a explicar como foi construída uma pocilga “com novas tecnologias” ou o rosto radioso, algo embaraçado, de uma enfermeira a saudar os bebés que nasceram com o Ano Novo (“Que todas as crianças possam crescer em paz na Terra”). Ao mesmo tempo, literalmente ao mesmo tempo, 1957 foi o ano dos motins que precederam a independência da Argélia, da posse de Andrei Gromyko como ministro dos negócios estrangeiros da URSS (“Mais vale dez anos de negociações que um dia de guerra”), ou da execução, na Hungria, dos líderes da revolta anti-soviética de 1956. . Sokurov, jovem arquivista, foi sendo marcado pela avalanche dos acontecimentos. Foi também em 1957 que os americanos promoveram a primeira explosão nuclear subterrânea no estado de Nevada, a URSS lançou o primeiro satélite artificial, o Reino Unido testou a bomba de hidrogénio e surgiu, em Milão, a primeira edição de Doutor Jivago, de Boris Pasternak — neste caso, apesar das tentativas das autoridades soviéticas para impedir, “com o auxílio dos comunistas europeus”, a sua publicação. Sem esquecer que foi ainda em 1957 que Oscar Niemeyer concebeu a arquitetura de Brasília, Albert Camus ganhou o Nobel da Literatura, West Side Story, de Leonard Bernstein, teve a sua estreia nos palcos de Nova Iorque e... Sophia Loren casou com Carlo Ponti.Corpos e fantasmasHá em O Diário do Realizador uma dinâmica, ou melhor, uma genuína dialética entre o que vemos e a escrita que se sobrepõe às imagens. Não que Sokurov procure “rimas” gratuitas entre o que nos é mostrado e as evocações contidas nas palavras. Para nos ficarmos por um exemplo eloquente e desconcertante, lembremos que, em 1978, sobre as imagens triunfantes de um novo navio quebra-gelo, surge a informação de que, nesse ano, foi lançado o filme Um Casamento, de Robert Altman, ou ainda que a URSS efetuou experiências nucleares na região de Yakutia. O que conta é, em boa verdade, um princípio existencial: tudo isto foi vivido ao mesmo tempo!Nesta perspetiva, seria francamente redutor tratar O Diário do Realizador como um documentário histórico resultante do mero inventário cronológico de quase meio século. Sokurov demarca-se dos efeitos correntes das narrativas de raiz televisiva para nos fazer ver (e ler, nas frases que o ecrã vai exibindo) que as sobreposições factuais de que se faz a história não cabem no quadro maniqueísta de uma qualquer ideologia do “bem” contra uma qualquer ideologia do “mal”. . Estamos perante um verdadeiro prodígio cinematográfico que não podemos deixar de aproximar de outros títulos em que Sokurov arriscou também desafiar os modelos “naturalistas” de aproximação das memórias históricas. Lembremos as anti-biografias de Hitler e Lenine, respetivamente em Moloch (1999) e Taurus (2001). Lembremos, sobretudo, A Arca Russa (2002), célebre experiência de 90 minutos num único plano-sequência em que, através de uma incrível deambulação pelos salões do Museu Hermitage, revisitamos quadros da história russa em que factos concretos e ideias abstratas, corpos e fantasmas tendem a trocar de lugares e significação.O Diário do Realizador entra na galeria de obras monumentais capazes de desafiar os lugares-comuns com que são tratadas as histórias que vivemos, ou nos dizem que estamos a viver, em particular num regime de tão violenta codificação do quotidiano como foi aquele que existiu na URSS. Que tudo isso não anule, antes reforce, a paixão pelas pessoas e o amor pelo seu país, eis a maravilha cinematográfica, estética e ética.