No balanço da 79.ª edição do Festival de Cannes (a decorrer até sábado), fará sentido sugerir que a dimensão sagrada da existência humana fica como matéria fulcral de alguns dos filmes que mais nos tocaram. Num sentido muito lato, entenda-se, já que entre os exemplos que possamos recordar estarão visões tão diferentes como o retrato da infância no novo filme de Hirokazu Kore-eda, Sheep in the Box, apresentado na competição, ou esse prodigioso documentário sobre um jogo de futebol que é The Match, de Juan Cabral e Santiago Franco, visto na secção Cannes Première. O mesmo se dirá de outra “première” — Aquí, de Tiago Guedes —, subtil adaptação, austera e envolvente, da "Trilogia de Jesus", de J. M. Coetzee, publicada entre 2013 e 2019 (Coetzee ganhou o Nobel da Literatura em 2003). Paulo Branco é o produtor de Aquí, projeto resultante de uma coprodução Portugal/França, com participações associadas de Espanha, França e Alemanha. O argumento, assinado pelo realizador e Luís Araújo, conserva a língua espanhola dos diálogos, correspondendo a um princípio enunciado pelo próprio Coetzee que, como se recorda no dossier de imprensa, “considera a tradução espanhola dos seus livros como a sua versão original”. No centro dos acontecimentos surgem um homem, Simón (Manolo Solo), e uma criança, David (Aléx Peláez), que chegam a um território sem nome (onde se fala espanhol). Transportam experiências de dramática insegurança, procurando um lugar para viver em que algum tipo de harmonia possa prevalecer. Simón, em particular, acredita que, através de um efeito com o seu quê de milagroso, será possível encontrar a mãe de David — quando aparece Inés (Patricia López Arnaiz), ele olha-a mesmo, de imediato, como a resposta à sua profecia. Eis um resumo sugestivo, embora francamente insuficiente para dar conta do ambiente — a palavra exata talvez seja: espírito — de um filme que se distingue por um desafio visceralmente cinematográfico. Que desafio é esse? Pois bem, a invenção de um lugar (físico e dramático, concreto e simbólico) a que o cinema, prolongando a matéria literária, confere uma vida própria, lugar onde somos convidados a entrar, deparando com um misto de transparência e mistério — mesmo se os seus elementos, ruas e casas, parecem pertencer à banalidade do quotidiano. Elemento decisivo é a comovente singularidade de David: embora não se expressando por metáforas, as suas palavras diluem os sentidos convencionais do mundo, abrindo para uma vivência em que aquilo que se diz vale tanto como aquilo que fica por dizer — a identificação das “coisas” do mundo, incluindo o silêncio que as acompanha, pode ter tanto de partilha social como de especulação de fôlego bíblico. É aí que começa o sagrado, quer dizer, a revelação da vida comunitária como uma soma de individualidades que se completam, mesmo (talvez mesmo sobretudo) quando não se compreendem por inteiro. No limite poético de tudo isto, diremos que David é o primeiro espectador do mundo, cúmplice do nosso desejo de acolher a beleza das imagens (e dos sons), celebrando o cinema como um ritual sem equivalente. Tiago Guedes convoca-nos, assim, para uma experiência emocional que o nosso tempo parece querer esquecer: o ecrã existe como um altar. Uma família romena Um contraponto sugestivo poderá ser mais um candidato à Palma de Ouro (numa competição pontuada por vários títulos realmente surpreendentes): Fjord, coprodução Roménia/Noruega, traz de novo a Cannes o romeno Cristian Mungiu, já vencedor do festival, em 2007, com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Descobrimos a existência de um casal formado por um romeno (Sebastian Stan) e uma norueguesa (Renata Reinsve). Começam a viver numa zona gelada da Noruega, parecendo ter encontrado um pequeno paraíso, até que surgem suspeitas de que terão agredido o mais velho dos seus cinco filhos... De tal modo que perdem a guarda dos filhos até que o assunto seja julgado em tribunal. A tensão coletiva que se gera nasce também das diferenças de credo religioso entre a família romena e os habitantes da comunidade em que se instalaram. Num certo sentido, Mungiu encena o “contrário” do filme de Tiago Guedes: a transfiguração da religiosidade em aparato institucional — longe de querer impor “uma” verdade, Fjord é um filme magistral, tão complexo quanto perturbante. .Cinema japonês à conquista de Cannes