Em 2023, quando se estreou Vadio, primeira longa-metragem realizada por Simão Cayatte (nascido em Lisboa, em 1984), talvez não fosse fácil reconhecer as singularidades do talento que ali se afirmava. O retrato do jovem “vadio” que o título nomeava podia ser confundido com as regras de um esquematismo “sociológico” que, nos tempos que correm, acompanha muitas personagens de algum modo marginais ou marginalizadas (e não apenas no cinema português, como é óbvio). A partir de hoje nas salas, aí está O Barqueiro, segunda longa-metragem de Cayatte, a confirmar que estamos perante uma genuína visão do mundo, indissociável de um pensamento tão elaborado quanto coerente sobre o que é, ou pode ser, aqui e agora, um cinema de raiz portuguesa. Entenda-se: a portugalidade de uma linguagem (cinematográfica, neste caso) não se define a partir dos lugares-comuns “patrióticos” que povoam o nosso dia a dia televisivo — observe-se, a esse propósito, o nacionalismo balofo de algumas formas de celebração do futebol. Não se trata de discutir a maior ou menor “fidelidade” a princípios ou ideais nacionais, antes de avaliar uma questão singela. Entenda-se também: de uma singeleza cinematográfica. A saber: como é que, em 2026, um filme olha para o mundo à nossa volta? No caso de O Barqueiro, tal como acontecia em Vadio, tudo começa na atenção realista aos ambientes e às personagens — e, por isso mesmo, no valor dramático dos cenários e no trabalho específico dos atores. A história centra-se na figura ambígua de Joaquim, recentemente saído da prisão, em liberdade condicional. Porquê ambígua? Porque o seu voluntário distanciamento da família coexiste com o desejo veemente de conseguir dinheiro para oferecer um piano à filha... Usando uma terminologia clássica, talvez possamos dizer que Joaquim é um anti-herói que vai viver uma saga que desafia o seu lugar, tanto no plano social como em termos afectivos — isto porque, além do mais, começa a trabalhar como barqueiro na margem sul do Tejo, numa exploração ilegal de apanha de amêijoa. A composição de Romeu Runa, na personagem de Joaquim, satisfaz um preceito, também clássico, que talvez se possa condensar num método a que, por boas razões, podemos chamar “hitchcockiano”. Ou seja: a personagem existe, não tanto através da sua história pessoal (que, naturalmente, não é indiferente), antes pelos seus gestos e ações. O que também é válido para as personagens que vamos conhecendo, nomeadamente as que são interpretadas por Jani Zhao (no papel de líder da comunidade de trabalhadores ilegais), Miguel Borges, Sandra Faleiro ou Madalena Aragão. .Deparamos, assim, com a envolvente depuração de um realismo que não se confunde com a banal criação de momentos “choque”. Para lá de todas as referências que possamos citar (não muitas, em boa verdade, pelo menos na atual produção portuguesa), a vibração realista nasce, não de sublinhados dramáticos que acabam por se tornar redundantes, antes de uma contenção narrativa a que apetece chamar minimalista — até porque o adjetivo não será estranho a uma certa envolvência poética. Técnica & drama A concretização de tudo isto não pode ser desligada do labor de uma equipa técnica de variados talentos em que será forçoso destacar as contribuições de Bartosz Swiniarski (fotografia) e Tomé Palmeirim e Pedro Góis (som). Uma vez mais, é a pulsão realista que está em causa. Não a “reprodução” automática do que quer que seja, antes a criação de uma textura (imagens & sons) em que a visão do espectador se faz tanto de reconhecimento como de uma calculada estranheza. Fica um pormenor que está longe de ser secundário. Assim, as imagens da apanha da amêijoa dão a ver a verdade dos gestos que o trabalho implica, nunca apelando ao pitoresco (paternalista e televisivo) com que, quase sempre, este tipo de actividades é tratado. Dito de outro modo: mesmo nos momentos “descritivos”, são as personagens que pontuam, determinam e materializam a construção dramática de O Barqueiro. .'Nino'. Uma dupla revelação do cinema francês.'Nossa Terra'. Uma memória feita de factos e drones