Nunca é demais revisitar Ingmar Bergman

São 23 os títulos do cineasta sueco que no ano do seu centenário compõem o ciclo organizado pela Leopardo Filmes e Medeia filmes. Começa hoje no Espaço Nimas em Lisboa e estende-se ao Porto, Braga, Coimbra e Setúbal.

Quando Fanny e Alexandre (1982) foi anunciado como o último filme de Ingmar Bergman, poucos acreditaram que esta se revelaria uma das mais graciosas obras do mestre, respeitada até ao nível da bilheteira (já para não falar dos Óscares...). O que é que há de tão luminoso no filme? Dir-se-ia o modo como Bergman concretiza uma rara expressão de alegria pela vida, tecendo a manta de retalhos das suas memórias de infância, e registando-as numa nova narrativa. Está lá o essencial: a figura rígida de um pai pastor da Igreja, a magia do primeiro brinquedo em jeito de cinematógrafo e a mãe que vigia a abundância de uma ceia natalícia ("O nosso Natal era sempre uma autêntica explosão de prazeres encenados com mão de ferro pela minha mãe"), tudo isto narrado na autobiografia Lanterna Mágica. E é precisamente neste filme, que parece executar um exercício de funambulismo entre os dois pilares do universo do mestre - a austeridade da Igreja e os prazeres do teatro -, que descobrimos uma das mais belas sequências de abertura do seu cinema, contemplando a animada e espirituosa celebração do Natal, na vertigem do ato de recordar.

Pois bem, a sugestão de Fanny e Alexandre adequa-se à quadra, mas há outras manifestações temporais na filmografia de Bergman que se prestam à (re)descoberta neste ciclo contextualizado nas comemorações do seu centenário. Veja-se, por exemplo, a viagem de Victor Sjöström, entre o presente o passado, em Morangos Silvestres (1957), o paciente jogo de xadrez de Max von Sydow com a Morte, em O Sétimo Selo (1957), ou Um Verão de Amor (1951), outra revisitação nostálgica da memória de uma paixão, que, pelo retrato da juventude e pela luz estival, se aproxima do audacioso Mónica e o Desejo (1953).

A importância de voltar ao cinema do realizador de Persona tem que ver com algo simultaneamente simples e complexo: o reencontro com o mistério da angústia humana nas suas mais subtis variações. Na essência, cada um dos seus filmes representa uma busca pelo milagre do ator na captação dessa verdade íntima, e cada encenação dramática assenta num impulso teatral. E é justamente isso - o teatro - que se afirma como matéria e reflexão cinematográfica em títulos como O Rosto (1958), Ritual (1969), a comédia O Olho do Diabo (1960) e, muito claramente, A Flauta Mágica (1975), brilhante artifício de palco que tem no olhar da criança o fio condutor.

Estes e outros filmes estão a partir de amanhã em exibição no Espaço Nimas (programa que pode ser consultado aqui (http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ingmar-bergman-ndash-centenario-do-nascimento-ciclo/), prevendo-se ainda a estreia do documentário Bergman - A Year In a Life, de Jane Magnusson, e uma extensão do programa com mais obras do cineasta sueco.

Celebrar Ingmar Bergman hoje é celebrar a respiração profunda do seu cinema, cuja permanente modernidade se vislumbra inclusivamente na "problemática da luz", como explica na Lanterna Mágica, "seja branda, perigosa, onírica, viva, morta, clara, turva, quente, violenta, gélida, repentina, sombria, primaveril, interior, exterior, direta, oblíqua, sensual...". Somente a luz. Como ela incide sobre a pietà de Kari Sylwan e Harriet Andersson em Lágrimas e Suspiros (1972), por exemplo.

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