O cinema japonês regressa à atualidade das salas portuguesas através de um ciclo dedicado a Hiroshi Shimizu (1903-1966), autor clássico de uma obra de mais de centena e meia de títulos, ainda que a maior parte dos que dirigiu no período mudo seja considerada perdida. É mais uma proposta da distribuidora The Stone and the Plot, dirigida por Daniel Pereira, e do programador Miguel Patrício, prolongando as quatro edições do ciclo “Mestres Japoneses Desconhecidos” e ainda a “Integral Kinuyo Tanaka” dedicada à obra da primeira cineasta japonesa do pós-guerra. Com um total de cinco títulos, o ciclo inclui O Som do Nevoeiro (1956) e Imagem de uma Mãe (1959), ambos já programados em eventos anteriores. Os restantes — O Idiota Sentimental (1956), Crianças à Procura de Mãe (1956) e A Dançarina (1957) — completam um conjunto dedicado aos últimos anos de trabalho de Shimizu, sendo Imagem de uma Mãe o derradeiro filme que realizou. Daí o título do evento, “Shimizu tardio”, com sessões em Lisboa a decorrer diariamente (até 22) no Cinema City Alvalade e, a partir do dia 19 e até 3 de maio, no Nimas e NOS Amoreiras; no Porto, os Cinemas Trindade e NOS Alameda também acolhem o ciclo, estando ainda agendadas sessões para Sintra, Santarém, Maia e Guimarães. Escusado será dizer que esta é mais uma contribuição preciosa para superarmos a imagem de um classicismo japonês que se “esgota” em nomes como Kenji Mizoguchi ou Yasujiro Ozu. Aliás, a necessidade de tal releitura está, de algum modo, implícita na humildade das palavras de Mizoguchi citadas no programa do ciclo: “Pessoas como eu e Ozu fazem filmes à custa de muito trabalho, mas o Shimizu é um génio.” Não sendo exatamente um balanço, Imagem de uma Mãe pode ser encarado como um espelho modelar das muitas variações pais/filhos que Shimizu encenou ao longo da sua carreira. A odisseia afetiva do jovem que mantém uma relação visceral com a “imagem” da mãe falecida expõe, afinal, um fundamental paradoxo dramático: os laços familiares promovem uma noção de harmonia que, em boa verdade, está sempre ameaçada pela exuberância da vida e pelo silêncio da morte. .Observe-se também o exemplo de Crianças à Procura de Mãe, título obviamente esclarecedor da teia emocional em que tudo acontece. Rodado no mesmo ano de O Som do Nevoeiro, nele acompanhamos uma mulher que procura encontrar o seu filho desaparecido; o orfanato em que acaba por se integrar como cuidadora surge, assim, como o lugar ambíguo em que a urgência dos problemas do dia a dia se apresenta delicadamente contaminada pela ânsia radical, à beira do onírico, do reencontro mãe/filho. Seja como for, mesmo ignorando as muitas dezenas de objetos da restante filmografia de Shimizu, talvez faça sentido acrescentar que os exemplos disponíveis nos revelam um criador com uma peculiar dimensão artesanal. Entenda-se: o “artesanato” não implica, aqui, uma qualquer sugestão pitoresca, envolvendo antes as qualidades de um realizador cuja agilidade criativa lhe permite ziguezaguear entre vários registos dramáticos (drama/comédia), além do mais usando de forma sofisticada os recursos de que dispõe — os seus elaborados planos-sequência são brilhantes exercícios técnicos que, em qualquer caso, não têm nada de ostensivo, antes servem os propósitos dramáticos de cada sequência e da narrativa em que se integram. Nesta perspectiva, O Idiota Sentimental e A Dançarina acrescentam uma componente (melo)dramática que convém não esquecer. Ou seja: as relações das atribulações humanas com os artifícios do mundo do espectáculo. Aí podemos descobrir outras personagens indissociáveis de um contexto histórico obviamente japonês que, apesar disso (aliás, por causa disso mesmo), possuem uma invulgar dimensão universal.