Figura emblemática da Geração Beat, a par de outros escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, William S. Burroughs (1914-1997) deixou um peculiar legado como inspirador, personagem ou fantasma de projetos cinematográficos muito variados. Lembremos o seu breve e muito céptico diálogo com Matt Dillon no filme Drugstore Cowboy/No Trilho da Droga (1989), de Gus Van Sant. E destaquemos, sobretudo, dois títulos admiráveis, tão ousados quanto inclassificáveis, inspirados nos seus romances: Naked Lunch (David Cronenberg, 1991) e Queer (Luca Guadagnino, 2024). Podemos redescobri-lo agora através de um belo documentário, Nova ‘78, elaborado a partir de imagens da chamada Nova Convention, um evento de 1978 organizado para celebrar o regresso de Burroughs à América — tem assinatura de um americano, Aaron Brookner, e um português, Rodrigo Areias, conta com música original de The Legendary Tigerman e chega esta quinta-feira às salas de cinema. Burroughs regressara aos EUA em 1974, iniciando um processo de superação da toxicodependência que contou com o apoio essencial do seu amigo Ginsberg. Recuperando o título da “Nova Trilogy” (com os romances The Soft Machine, The Ticket That Exploded e Nova Express, publicados no período 1961-64), a Nova Convention realizou-se em Nova Iorque, ao longo de três dias de 1978 (30 nov., 1 e 2 dez.). O programa contemplou uma série de conversas, performances e concertos que, em última instância, corresponderam a um “balanço” da contracultura da década de 1970 que elegera Burroughs como um inspirador e, no plano simbólico, um guru — recorde-se que o termo “contracultura” surgira em 1969 num livro do escritor e filósofo Theodore Roszak. .Esquematizando, poderá dizer-se que a contracultura, fortemente marcada pela contestação do envolvimento militar dos EUA no Vietname, funcionou como uma superação cultural e política das ilusões libertárias da década de 1960. No limite, o que estava em causa era a desmontagem dos valores de uma sociedade cada vez mais conservadora e com um crescente aparato legal de monitorização das diferenças individuais — neste contexto, Burroughs emergia, mais do que nunca, como “filósofo do futuro”. Foi Howard Brookner, tio de Aaron Brookner, que obteve as imagens da Nova Convention — ele viria, aliás, a realizar o documentário Burroughs: The Movie (1983). Aaron e Areias evitam a facilidade de “descrever” tais imagens através de uma voz “off” convencional, preferindo preservar a contagiante espontaneidade de um registo que acaba por ser contaminado pelos sobressaltos da própria organização. .Os momentos têm tanto de variado como de surpreendente, incluindo o discurso de uma Patti Smith algo desorientada, mobilizada para explicar à assistência que a anunciada presença de Keith Richards (que tinha atraído a maioria dos espectadores) não vai acontecer... sendo “substituído” por Frank Zappa! Para lá das intervenções nos debates, deparamos ainda, por exemplo, com a leitura de um poema por Ginsberg, uma performance de Merce Cunningham, com John Cage, um discurso utópico de Laurie Anderson e um solo de sintetizador por Philip Glass. A deficiente logística de tudo isso não impede que se sinta o acontecimento como uma tentativa contracultural, precisamente, empenhada em definir os caminhos de pensamento e ação que estavam (ou estão) por percorrer. Apostando na pluralidade dos atuais circuitos de difusão, a Nitrato Filmes, distribuidora de Nova ‘78, lança o filme em simultâneo nas salas e na plataforma Filmin. No Porto, a sessão de estreia no Cinema Trindade (amanhã, 21h30) contará com a participação de Rodrigo Areias e do músico Adolfo Luxúria Canibal, seguindo-se, após a projeção, uma conversa com os espectadores.