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Bogdan Muresanu

"Nos cineastas romenos, destaco Călin Peter Netzer, que fez um grande filme, 'Mãe e Filho'. Também Radu Jude"

Festa do Cinema Romeno inicia-se sábado, 7, em Lisboa, no Atmosfera M. Na sessão de abertura, estará o realizador de 'O Ano Novo Que Não Aconteceu', Bogdan Muresanu, que conversou com o DN.
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O seu filme mais conhecido é O ano novo que não aconteceu. Neste Festa do Cinema Romeno vamos poder vê-lo, mas antes disso é exibido a animação O Mágico. Foi algo muito diferente para si como realizador?

Não, não diria isso. Pensando bem, é muito parecido com o outro filme. O Ano Novo..., passa-se num dia, e é um dia extraordinário. É o fim do comunismo, é o fim de um mundo e o início de um novo. N'O Mágico, temos a mesma coisa. É um dia e temos o fim de um mundo porque o novo mundo surge com esta nova central, a central elétrica.

Num foi 1989, Bucareste. No outro, 1910…

1910, exatamente. Por isso, diria que também justapõe diferentes camadas narrativas. Penso que, de um certo ponto de vista, é o mesmo escritor, se quiser.  Mas, claro, é diferente.

Pode falar um pouco sobre o tema desta animação? Estamos em 1910, e trata-se da inauguração de uma central elétrica. Era algo revolucionário naquela época, certo?

Sim. Em 1910, a eletricidade era como a inteligência artificial é hoje. Era diferente, um pouco mais poética, diria eu. Talvez, talvez. Mas tenho quase a certeza que muita gente estava com medo desta novidade, desta nova indústria e da eletricidade. Diria que talvez algumas pessoas estivessem realmente assustadas. Por exemplo, os ladrões nos portos, nas ruas, sabes, a escumalha da sociedade, porque a eletricidade revela tudo à noite e também torna a cidade mais bonita. Isso também é verdade. Quer dizer, à noite, com as luzes, toda a cidade fica muito mais bonita. Tudo começou com um pequeno romance que escrevi há anos e que foi publicado numa coletânea de contos.

Tudo se passa em Sulina…

Sim, a história passa-se num porto chamado Sulina, no Delta do Danúbio, onde o rio se encontra com o Mar Negro. Atualmente, está muito perto da Ucrânia, muito perto mesmo. E o Império Russo sempre teve interesse na foz do Danúbio. Portanto, em 1910, era como uma proto-União Europeia, pois estava sob a administração internacional. Tinha gregos, romenos, também alguns russos que fugiram do Império Czarista. Era um lugar cosmopolita, quase como a União Europeia de hoje.

O Ano Novo… já passou nos cinemas de Portugal. Fala da queda do regime comunista de Ceausescu. Que idade tinha então?  Muito jovem?

Tinha 15 anos.

E as suas memórias estão presentes no filme?

Sim, captei esse entusiasmo, por assim dizer, que me lembro desse dia. Eu capturei isso. Na verdade, queria capturar. Sim, por isso é que interrompi o filme exatamente no momento em que todos estavam felizes. Não acompanhei a desilusão que se segue a toda a revolução, quando as pessoas despertam deste sonho sereno e se deparam com a dura realidade.

Mas, sendo adolescente, tinha consciência das transformações que se avizinhavam?

Sim, porque a minha família foi muito afetada pelo comunismo. Portanto, sabe, tenho muitas histórias na família sobre isso. Por isso, desde pequeno, tinha muita consciência de tudo o que me rodeava.

Neste festival,  há mais realizadores. Conhece-os?

Conheço Radu Jude. Admiro o trabalho dele. Adorei o filme que vai ser exibido, Não esperes demasiado do fim do mundo. Existe uma outra animação chamada Sandálias, da qual fui argumentista. Portanto, também estou envolvido nessa. E esse é dirigido pelos irmãos Anton e Damian Groves. São uns britânicos que vivem em Bucareste. Assim, lá estarei para apresentar estas duas animações em que trabalhei. Uma delas como argumentista e a outra como argumentista e realizador. E, sim, também será exibida a nova animação que nunca chegou a ser lançada, O Mágico, mas pelo menos eu estarei lá. E um famoso ator romeno que participou n'O Ano Novo... e está agora no auge da sua carreira, Iulian Postelnicu, também estará na Festa.

Para os portugueses que assistem a esta Festa do Cinema Romeno e com esta pequena seleção de filmes, é possível ter uma ideia do cinema atual no vosso país?

Acho que é possível. Mas, para ser sincero, o público português talvez conheça um pouco do cinema romeno por causa de Vila do Conde, onde estive. Fui convidado com A Prenda de Natal, uma curta-metragem, e os romenos estão sempre lá em Vila do Conde. Talvez haja algo que se saiba sobre o cinema romeno no norte, no Porto. Mas, de resto, penso que vão ver nesta Festa uma grande variedade de filmes. E, sabem, porque não animação? Que, na minha opinião, não deixa de ser cinema.

Lembro-me de, em criança, haver muitos desenhos animados do antigo bloco comunista, de diferentes países, que passavam na televisão portuguesa. Lembro-me dos desenhos animados da Checoslováquia, dos desenhos animados da Hungria. A Roménia também era então forte na animação?

A Roménia nunca foi forte na animação. tínhamos ilhas de talento, por assim dizer. Mas nunca tivemos uma escola. Talvez agora seja a altura de começar algo. Mas, claro, temos alguns bons realizadores atualmente. Anca Damiani é uma delas. Talvez já tenha ouvido falar dela. Ela é famosa na Europa, especialmente em França. Mas diria que esse não é o ponto forte da animação cinematográfica romena.

Pode falar-me um pouco sobre a sua trajetória? Era jornalista antes de se tornar realizador de cinema?

Eu escrevia o tempo todo. Desde muito novo, tipo adolescente, escrevia contos e trabalhei em publicidade como argumentista, ou copywriter, como se costuma dizer, e também em jornalismo, sim. Assim, diria que trabalhei sobretudo em publicidade durante uns oito anos. Ao mesmo tempo, escrevia contos, guiões e outras coisas do género.

Ser realizador de cinema não era algo que tinha em mente desde o início?

Estava a pensar nisso, mas não era propriamente a minha praia. Eu pensava nisso, mas o tempo todo queria mais ser argumentista, se é que me entende.

E quando decidiu tornar-se realizador?

Quando um realizador fez um filme baseado num guião que eu escrevi, e o filme era tão mau que quis fazer melhor. Por isso, talvez devesse agradecer àquele tipo.

Se eu lhe pedir que me dê um ou dois nomes de realizadores romenos, e também um ou dois nomes de realizadores internacionais que realmente aprecia, pode dizer-me?

Nos cineastas romenos, destaco Călin Peter Netzer, que realizou um grande filme, Mãe e Filho. Claro, também Radu Jude. Nos estrangeiros, os meus preferido são Lars von Trier e  John Cassavetes. São mesmo de quem gosto muito. Mais recentemente, Olivier Assayas em França.

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