Será que existe uma fronteira clara entre os lugares-comuns das telenovelas e as narrativas genuinamente cinematográficas? A pergunta não é apenas formal, já que começa no reconhecimento da maior tragédia audiovisual dos últimos 50 anos: as novelas impuseram modos específicos de produção, histórias contadas sempre com os mesmos maniqueísmos dramáticos e, por fim, transformaram a maioria dos profissionais de várias gerações de atores e atrizes em marionetas de um “estilo” mecânico e obsoleto de representar frente a uma câmara. Honra lhe seja feita, o filme Noites Claras, escrito e realizado por Paulo Filipe Monteiro, tenta, pelo menos, escapar a tais espartilhos.Como qualquer resumo factual das peripécias que nos são apresentadas, a sinopse de Noites Claras está longe de poder condensar aquilo que acontece. Ao contrário do que proclama a crítica mais vulgar, o inventário dessas peripécias é sempre escasso para acedermos às singularidades de um filme - neste caso, podia ser uma novela, precisamente, ou algo próximo da grandiosidade humana de Dostoievsky revisto por Luchino Visconti, em 1957, em Noites Brancas (e não devemos levar a mal a sugestão de rima que o título parece conter).Digamos, para simplificar, que vamos descobrindo o território afetivo e social dos irmãos Lídia (Beatriz Godinho) e Lauro (Romeu Runa) - ela atingida por uma depressão, misto de ensimesmamento e revolta, depois do nascimento da filha; ele, de algum modo bloqueado na sua bissexualidade, divorciado, com um filho, empregado numa agência funerária.É pena que algumas componentes das histórias que se vão cruzando sejam mais ou menos supérfluas, a começar pela personagem da mãe (Custódia Gallego), uma caricatura que tornaria impossível a tarefa de qualquer intérprete. Por vezes, há mesmo a introdução de elementos “simbólicos” que limitam o impacto de algumas situações: veja-se o modo como é resolvida a cena em que, na agência funerária, Lauro contempla um morto com um rosto muito semelhante ao seu. Isto sem esquecer essa misteriosa “obrigação” de muito cinema português: há mais uma cena de um clube de dança cuja encenação e pertinência ficam por esclarecer...Dito isto, importa sublinhar o essencial. A saber: a capacidade de dar a ver Lisboa para lá dos clichés novelescos, quase sempre tratados com o brilho postiço facultado pelas soluções mais preguiçosas das câmaras de vídeo. Observe-se, em particular, a singeleza da cena de abertura com Lauro no Parque das Nações e as luzes da estação do Oriente em fundo - excelente direção fotográfica de Manuel Pinho Braga. Subitamente, as “imagens de marca” da cidade, fabricadas ao serviço de uma noção simplista de comunidade, decompõem-se para revelar o mapa das nossas solidões. .'A Semente do Figo Sagrado'. Tragédia de uma família iraniana .'A Mulher de Tchaikovsky'. Entre real e surreal.'Paradise'. Há problemas no paraíso dos bilionários