Lembro-me muito bem em 1997, já era jornalista, de seguir o sequestro e assassínio de Miguel Ángel Blanco, de que fala neste Maite. Um jovem vereador em Ermua, do Partido Popular. E recordo que no País Basco houve protestos de rua contra a ETA de dimensão inédita. Foi verdadeiramente um momento que mudou a sociedade basca?Diz-se que no País Basco houve um antes e um depois do assassínio de Miguel Ángel Blanco. E a razão foi porque desencadeou um protesto massivo. Na minha opinião, isso fragilizou muito a ETA, principalmente porque perdeu um dos seus principais argumentos, que era o de agir em nome de um povo. Mas esse povo estava nas ruas, exigindo em massa que a organização interrompesse imediatamente a ação armada. Penso que isso foi crucial a longo prazo; mudou o panorama, e muitas pessoas ousaram manifestar-se publicamente pela primeira vez. Perceberam que não estavam sozinhas na sua rejeição da violência, e essa rejeição ganhou um propósito organizado. Surgiram organizações contra o terrorismo e houve também intervenção internacional contra o terrorismo. O papa João Paulo II interveio, assim como vários políticos. E creio que foi aí que começou o verdadeiro isolamento da ETA.Há neste romance a personagem Maite, que é basca e que, mesmo antes deste assassínio, já participava em manifestações contra a ETA, grupo independentista que praticava o terrorismo. Nessa altura, meados dos anos 1990, era mesmo preciso muita coragem para se manifestar no País Basco contra a ETA?Sim. Esses protestos, que eram silenciosos e aconteciam todas as quintas-feiras, eram perigosos porque estas pessoas reuniam-se em locais públicos das cidades e eram insultadas, atacadas e apedrejadas com bananas e moedas. Depois, os seus nomes eram escritos nas paredes. Eram pessoas muito corajosas, pessoas admiráveis. E para o meu romance, uma dessas pessoas, Consuelo Ordóñez, irmã de um homem assassinado, partilhou comigo a sua experiência, porque participou nessas manifestações. Contou-me muitos pormenores que mais tarde foram úteis para a escrita.Ser de origem basca, ter um óbvio apelido basco, ou ser de origem castelhana , se alguém fosse contra o ETA isso não fazia diferença, era sempre visado?Exatamente. Sim, era mesmo assim. Bem, agora há uma questão com os apelidos, e é que no País Basco não há capacidade demográfica; nascem muito poucas crianças. Assim, claro, o País Basco precisa de ser povoado por pessoas de fora, mas essas pessoas não trazem consigo as características culturais necessárias para manter a ilusão de uma nação. Atualmente, praticamente todos os que se consideram bascos é porque falam basco, porque outros traços característicos já não prevalecem, pois não se encontram de forma maioritária.Há hoje muitas pessoas que são filhos de imigrantes de outras zonas de Espanha e que se orgulham de ser bascas, certo?Sim, o presidente do governo regional é de origem castelhana, e o presidente do Partido Nacionalista também é de ascendência castelhana. Bem, nesse sentido, o nacionalismo entra em contradição, mas, ao mesmo tempo, é obrigado a abraçar um certo humanismo. O que eu acho bem. Ou seja, perdeu-se o elemento racial; é um conceito muito antigo, e uma sociedade moderna, onde as fronteiras desaparecem e onde pessoas de diferentes origens se encontram e se conhecem, não pode sustentá-lo.O nacionalismo aceita o facto de uma pessoa desejar ser basca.Sim, neste momento não existe outra opção. Portanto, se uma pessoa, seja ela quem for, venha de onde vier, fala a língua basca e além disso professa a ideologia nacionalista, é considerada cem por cento basca.Há outra personagem, Elene, que vive nos Estados Unidos. É uma basca que vive longe do País Basco, mas tem um forte apego à sua terra natal; ela até quer escolher como o seu apelido será escrito, rejeitando a grafia castelhana. Com base na sua própria experiência de viver longe, os bascos que moram fora têm este apego à sua terra natal talvez ainda mais do que os outros?Penso que as pessoas do norte de Espanha tendem a sentir saudades, um certo sentimento de nostalgia, talvez mais do que as outras. Existe um forte apego à sua terra natal, um sentimento partilhado, que, no caso da minha personagem, leva a uma idealização da terra de origem. De certa forma, experiencio o mesmo, uma vez que vivo na Alemanha há muitos anos. Não estou separado do País Basco por um oceano; viajo muito, por isso não sinto muita nostalgia, e não sou particularmente ligado a símbolos e coisas do género. Mas conheço a experiência do emigrante que anseia pela sua terra natal, que tenta revivê-la, recriá-la onde quer que esteja. Eu, em particular, fui professor de filhos e netos de emigrantes na Alemanha durante muitos anos, e percebia que os galegos, asturianos e bascos tinham um apego melancólico à sua terra, mais do que os vindos de regiões mais quentes. Não sei porquê, mas...Fala do norte de Espanha?Sim, do norte de Espanha, da Espanha verde.Neste seu livro o uso de palavras bascas não é muito evidente, mas no romance Pátria, por exemplo, utilizou-as bastante. Seria possível para si escrever um romance em basco?Não, não posso, porque o meu domínio do basco não é suficiente para escrever literatura; o mesmo acontece comigo com o alemão - falta-me o instinto da língua. Escrevo na língua que falava em criança.Mas quando inclui palavras bascas na sua literatura, fá-lo de forma natural?Sim, naturalmente. Quando tinha 19 anos, fui estudar para outra região, Aragão, e foi aí que percebi que falava castelhano com muitas palavras bascas. Não me tinha apercebido disso até que os meus novos colegas em Aragão me corrigiam ou não compreendiam algumas das palavras que eu utilizava..A língua basca influenciou o seu castelhano mesmo sem os falantes darem conta?Sim, claro, e isso é muito útil agora que escrevo romances com protagonistas bascos. Faço com que falem como falávamos em casa, na minha família.Pátria, o mais famoso dos seus livros, agora publicado até em versão novela gráfica, já foi traduzido para basco, ou euskera?Não.Devido a questões políticas? Ou será simplesmente porque é difícil encontrar um bom tradutor?Não sei bem, mas não houve qualquer proposta. E, além disso, todos os bascos conseguem compreender o meu romance em castelhano. Bem, não é algo que me preocupe.Mas já foi publicado em catalão, por exemplo?Sim, claro, foi publicado em catalão. Entendo que não há interesse em tê-lo em basco.Diria que é uma lacuna mais relacionada com o ser um mercado pequeno?Não sei, mas pode ser algo impulsionado pelo mercado ou por algum preconceito político. Isso não me preocupa minimamente.Mas qualquer basco que o queira ler consegue lê-lo em espanhol?Sim, sim.Disse que o nacionalismo basco de base racial está a desaparecer. Mas existe um esforço crescente para promover a língua?Sim, a língua mantém-se. A língua é uma questão sagrada para os bascos. E também acho que as coisas foram conduzidas de forma bastante adequada. Quando eu era criança, a língua estava numa situação muito precária. Estava fragmentada em muitos dialetos e não era uma língua oficial. Estava a perder-se, e houve um movimento para introduzir o basco na educação e promovê-lo na cultura e nos media. E acredito que a língua basca está agora livre de perigo.Esta é uma grande diferença entre o franquismo e a democracia. A democracia não tem medo da língua basca?Não, de todo. A democracia tem sido muito generosa para com os bascos. Além disso, a educação é da responsabilidade do governo basco. Por outras palavras, o governo central não intervém de forma alguma.E a educação é bilingue.Sim, é bilingue. Portanto, isso é transmitido naturalmente. As crianças aprendem a língua basca. Podem usar se quiserem. Se não quiserem, não precisam. Podem ouvir rádio em basco. Existem canais de televisão em língua basca. A situação normalizou-se. E acho que isso é positivo.Quando olhamos para a sociedade basca de hoje e a comparamos com este Maite, cuja ação decorre há 30 anos, a grande diferença é a ausência da ETA?A ausência de violência, sim. Porque na ausência de violência, mesmo que a sociedade tenha problemas, é possível coexistir, é possível partilhar o espaço público. E os problemas devem ser resolvidos pelas instituições representadas pelos políticos eleitos em eleições democráticas livres. Depois, é claro que uma sociedade assim permite um desenvolvimento pessoal também mais pacífico e tranquilo. Mas não era isso que tínhamos quando havia tanto medo e ataques constantes. Essa liberdade de escolha existe em democracia. Foi assim que o Bildu obteve um terço dos votos nas últimas eleições. Isto não significa que o seu eleitorado sejam pessoas que desejam o regresso da violência política?Não, não creio. Na verdade, o Bildu é uma coligação de partidos. Não é um partido, é um conjunto de partidos. E se ouvir os seus representantes, vai ouvi-los a falar sobre habitação, igualdade de género, questões sociais. Por outras palavras, os apelos para aqueles que apoiam a independência são agora muito baixos, muito moderados. E sei pessoalmente que há eleitores do Bildu que não são a favor da independência. Mas, bem, eles veem no Bildu uma opção de esquerda que é especialmente atraente para os eleitores jovens.Incomoda-o se as pessoas disserem que é um escritor basco em vez de espanhol? Ou assume-se naturalmente como ambos?Para mim, não há contradição. Sou basco e ser basco é a minha forma de ser espanhol. Não sou patriota nem de um lado nem de outro. Tenho amigos por toda a Espanha. E não quero ir a Salamanca, Tenerife ou Málaga como estrangeiro. Entende? Agora também compreendo o sentimento patriótico de alguns dos meus conterrâneos. E desde que não criem uma fronteira entre nós, que sejam felizes. Sou a favor da felicidade dos cidadãos..‘Pátria’ versão BD para reler Aramburu.Quando a ETA anunciou em 2011 o fim da luta armada pela independência do País Basco não faltou quem desconfiasse das reais intenções. Afinal, foram mais de 800 mortos em meio século de História do grupo terrorista, fundado durante o franquismo. Fernando Aramburu escreveu Pátria, publicado em 2016, para contar a fraturas que a ETA causou na própria sociedade basca, que podia agora renascer sem terror. É um romance tão impactante, que foi adaptado para uma série de TV. E também originou esta extraordinária novela gráfica Pátria, agora editada em Portugal pela ASA. Toni Fejzula, espanhol que nasceu jugoslavo (e se identifica como de origens sérvias e tem um apelido albanês), oferece-nos através da sua arte uma releitura genial de um romance genial. .“Franco aproveitou-se da fraqueza da esquerda, e era um bom estratega. Mas teve muita sorte”