No esplendor da maldade de Rosamund Pike

Decomposição do lugar dos vilões, o thriller de J. Blakeson chega agora às plataformas e já deu uma nomeação de melhor atriz a Rosamund Pike nos Globos de Ouro. Tudo pelo Vosso Bem é um pesadelo americano sobre como o sistema legal pode aprisionar cidadãos na terceira idade.

Foi David Fincher quem em 2014 viu na atriz britânica Rosamund Pike uma emanação do mal. Por detrás da fachada bela e perfeita deste rosto havia uma secreta crueldade que a levou à nomeação do Óscar e ao epíteto de maior vilã de um filme de Hollywood desde a Glenn Close de Atração Fatal, de Adrian Lyne. Agora, J. Blakeson volta a perceber que o alcance de vilania de Pike pode ter outros contornos, e neste pequeno filme que a Netflix resgatou no TIFF (Festival de Toronto) eleva a fasquia. Pike como uma tutora criminosa de idosos é uma extraordinária vilã que dá a volta àquilo que se entende como "má da fita".

Esta sua Maria Grayson desafia todas as regras da perversão num esquema para ficar com as fortunas dos velhotes que despacha para os lares e usufruir das suas contas e bens, alegando que o Estado a encarrega de zelar pelos seus interesses quando a saúde mental deles os incapacita, mesmo quando estes estão sãos e conscientes. Uma tutora legal dos infernos, espelho de um sonho americano do qual a máxima "não olhar aos meios para atingir os fins" acaba por ser um compasso de amoralidade de uma sociedade na qual quem não tem privilégios tem de jogar com as armas do crime.

Logo no começo do filme, a Maria de Rosamund Pike justifica-se perante os seus atos hediondos, mostrando-se como alguém que luta pela sobrevivência e alegando que jogar com as regras sociais e a honestidade nunca lhe pode reservar outro lugar que não a pobreza num jogo viciado por aqueles que têm privilégios. Tudo pelo Vosso Bem funciona quase como manual de perversão social numa América de enganos e baldrocas. O realizador de Gunpowder (série HBO criada e interpretada por Kit Harrington de A Guerra dos Tronos) explora a essência de um ADN de ambição americano, como se o crime e a dissimulação fossem males menores para a conquista da fortuna e do triunfo pessoal. Nesse aspeto, é um filme sobre as novas formas de corrupção moral americana.

Mas para além dessa observação da doença social americana, está então essa personagem feminina, um relato de emancipação que é também um símbolo de poder feminino e de rebelião contra um statu quo masculino. Maria não precisa de homens nem precisa de seduzir, apenas precisa da sua autoconfiança. Em vez de um marido, tem uma namorada, em vez de guarda-costas ou de armas, tem uma lábia de advogada feroz. Depois, importante nisto do swag e das relações de poder, tem uma pose, um olhar de matadora. E é aí que a frieza do olhar de Rosamund Pike fulmina tudo. Uma perversão levada a um extremo que se torna estupidamente divertida, sendo o mérito inteiro da atriz. Pode-se mesmo dizer que Rosamund Pike engole o filme, não sendo de espantar estar nomeada para melhor atriz nos Globos de Ouro, mesmo que seja na categoria de melhor atriz numa comédia ou musical - ora, I Care a Lot é um thriller, mas a forma como a sua personagem é construída evoca um humor do mais negro que podemos imaginar, quase em projeção de uma fantasia a iludir noções realistas...

A sua golpista a dar passas no seu vaporizador de tabaco é em si mesmo um programa de atitude de poder feminino extremo na igualdade do arquétipo da perversão. Talvez por isso, é possível pensarmos na carga de comicidade libertadora de certos filmes de golpe dos Coen, em especial na maneira como o espectador poderá sentir-se desconfortável em admirar a maldade desta mulher. Sem revelar spoilers, apenas convém dizer que a meio da intriga surge alguém pior do que ela e, cúmulo das perversões, fica uma interrogação: a subjetivação do mal pode ter camadas de complexidade? Vamos torcer por ela quando é afrontada pelo "mal masculino"?

A par de tudo isso, a casca de mero produto série B do filme provoca alguns danos. Os chamados plot twists parecem baratuchos e os próprios nós morais do conto amoral nem sempre fazem muito sentido, mas sobra, todavia, uma noção de gozo inofensivo - I Care a Lot não tem predicados de grande seriedade. Usa a sua ironia da mesma maneira desembaraçada que os Faith No More usavam quando foram felizes com o hit... I Care a Lot.

Depois, também importante e nunca de subestimar, o prazer dos atores. E quão prazenteiro é todo este acting. Se de um lado temos a "falsidade" glaciar da "querida" tutora, do outro há a contenção de ódio de uma Diane Wiest num dos seus maiores momentos da carreira. A veterana atriz mostra que pode ser o oposto àquilo que mostrava nas personagens dos filmes de Woody Allen. E temos também Peter Dinklage a divertir-se como mafioso afetado e um Chris Messina hilariante como advogado seboso, embora a grande revelação seja o interesse romântico da protagonista, Elsa González, atriz mexicana que tem um futuro radioso em Hollywood (está no elenco do blockbuster Godzila vs Kong).

I Care a Lot não deixa de ser uma boa surpresa. Suspense espevitado com uma Rosamund Pike que merece mesmo o Globo (não deve vencê-lo, a favorita é a filha de Borat, a estreante Maria Bakalova)...

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