Nick Cave voltou a estar nos braços de Lisboa e fechou Kalorama com chave de ouro

O último dia de festival começou em português com os Ornatos Violeta de Manel Cruz, viajou até ao Canadá para a extravagância de Peaches, parou para venerar Nick Cave e encerrou com pezinho de dança com os Disclosure.

O abraço sentido no regresso dos Ornatos Violeta

Antes de o relógio marcar as 18h00, já muitos se encontravam colados ao palco MEO para um final de tarde ao som dos tão esperados Ornatos Violeta. Mais velhos ou mais jovens, a verdade é que todas as gerações presentes receberam Manel Cruz, Kinörm, Peixe, Nuno Prata e Elísio Donas de braços abertos, prontos para uma hora de concerto recheada de 14 canções que marcaram o pop-rock português.

"É um prazer muito grande estar aqui. Muito obrigado a todos, um por um", começou Manel Cruz, colocando a sua guitarra para um início tranquilo com o primeiro tema, Coisas. "São coisas. Coisas bonitas", resumiu.

Com um alegre "Este é um dia bom!", só foi Dia Mau à segunda vez, depois de um início atribulado que obrigou ao recomeço da canção. Com ainda mais energia, os versos que se repetiram levaram Manel até perto da multidão, seguindo-se Pára de Olhar para Mim. Mas foi O.M.E.M - um hino bem conhecido de todos - que teve direito a momento de crowdsurfing e (muitos) gritos.

"Tu és tão bom de amar", lia-se num cartaz do público em referência a Punk Moda Funk - tema que ficou fora deste alinhamento.

Na tão esperada Chaga, os saltos e o mosh pit realçaram o pó do Parque da Bela Vista (e que tanto tem marcado este festival), ouvindo-se o coro perfeito da multidão que sabia a letra de cor.

A melancólica Nuvem proporcionou uma dança íntima de guitarras entre Manel Cruz e "Peixinho" e o clássico Ouvi Dizer dispensou apresentações, tal como o esperado. De telemóveis erguidos, olhos na banda e vozes em uníssono, os portugueses encarregaram-se do tema e deram ao MEO Kalorama um dos seus momentos mais emocionantes.

Para encerrar o espetáculo ficaram as energéticas Há de Encarnar e Pára-me Agora. Houvesse mais tempo para Ornatos Violeta e é certo que todos ficariam para ouvir mais êxitos de Cão (1997) e O Monstro Precisa de Amigos (1999).

Burlesco, extravagante e sexy: prazer, o nome é Peaches

Já com o sol a esconder-se por trás das colinas da Bela Vista e com o estômago a dar horas, Peaches subiu ao palco Colina para trazer até Lisboa a tour de aniversário do seu segundo disco The Teaches of Peaches, lançado em 2000, mas que só agora teve direito a digressão comemorativa.

E foi justamente a viajar no tempo que grande parte do concerto aconteceu. Abrindo a todo o gás, com o combo Set it Off-Hot Rod-Cum Undun, Merrill Nisker (nascida para a música como Peaches) deixava as intenções bem patentes. E, à quarta canção, já a artista andava no meio público. Literalmente. Nada de crowdsurfing, mas sim andar sobre o público. "Larguem os telemóveis. Se eu cair, o concerto acaba aqui", avisava quem por ali estava.

E sendo já certo e tradição que Peaches é tudo menos politicamente correta, a extravagância e a ousadia surgiam logo a seguir, quando em Suck and Let Go, as bailarinas se despiram e Peaches ficou como, de resto, passou grande parte do tempo: em topless, apenas com os mamilos tapados.

Demonstrando que não é preciso muita gente para se fazer barulho ou dar espetáculo (só havia três músicos em palco, contando já com Nisker), Peaches deixou clara a mensagem de empoderamento e luta pelos direitos das mulheres quando despiu um casaco azul e, por baixo, estava a mensagem "Thank God for Abortion" ("Graças a Deus pelo aborto", em português). Se dúvidas houvesse, mais extravagância surgiu em Vaginoplasty, com as bailarinas a vestirem máscaras de vulvas (Peaches enverga uma na cabeça, neste momento) e a simularem cópulas em palco.

Se quem por ali estivesse no final de tarde de sábado esperava um concerto contido, pouco polémico e extravagante, certamente saiu defraudado, mas com uma certeza: a mensagem de libertação feminina passa mesmo não sendo súbtil. E talvez por isso resulte tão bem. No final, deixou o convite: quem ali estivesse que fosse ao palco principal ver Nick Cave.

Senhoras e senhores, bem-vindos à igreja do senhor Cave

Depois da extravagância e da energia de Peaches, logo ali no topo da colina, o Parque da Bela Vista recebia o australiano Nick Cave e os seus Bad Seeds para aquele que foi o segundo concerto em solo luso em menos de seis meses (o primeiro foi a 9 de junho, no Primavera Sound, no Porto), e o primeiro em Lisboa em 14 anos (a última vista à capital foi no Coliseu, em 2008).

E foi a todo o gás, com Get Ready for Love, que Cave abriu o espetáculo, recuando até 2004, ao disco Abbatoir Blues / The Lyre of Orpheus. Por lá ficou e o remate seguinte fez-se com There She Goes, My Beautiful World, mais cinemática mas não menos enérgica.

Num alinhamento marcado por momentos mais contemplativos (como O Children, dedicada a Paula, uma fã que fazia anos, ou I Need You, tocada a solo, ao piano, com Cave quase em lágrimas), mas também por outros (bastante) mais barulhentos, como Tupelo.

Em pouco mais de duas horas, interação com o público não faltou, com o cantor / compositor australiano a subir e descer as escadas que ligavam o palco às primeiras filas da plateia (cheia mas não esgotada) - onde estava uma plataforma em que caminhou várias vezes. Se já se sabia que Cave é um compositor versátil e irrepreensível, o animal feroz que se revela em palco acabaram por tornar o concerto de maior gabarito do último dia de festival numa experiência quase religiosa.

Foi essa comunhão entre partes, aliás, que fez com que os discípulos que ali assistiam ao ritual de Cave assistissem em êxtase à monumental Higgs Boson Blues - em que o australiano canta a Hannah Montana, a personagem que trouxe Miley Cyrus para a ribalta -, seguida de City of Refuge e, depois, uma visita à colaboração com um dos membros dos Bad Seeds, Warren Ellis (no disco Carnage, de 2021).

Mas ainda havia espaço para mais. Naquele que foi o último concerto "de uma tour longa, de três meses", Cave sentava-se ao piano para iniciar o encore, e desta vez, também, com uma dedicatória especial. Sozinho em palco piano, o cantor australiano dedicou a música que se seguia - Into My Arms -, a Beatriz Lebre, a jovem que foi assassinada pelo namorado em 2020. "A mãe disse-me que era a música favorita dela, portanto, esta é para a Beatriz", anunciou.

Seguiu-se mais uma injeção de energia, com Vortex, antes da contemplativa - e quase sem qualquer instrumentação a não ser sintetizadores - Ghosteen Speaks, tirada do mais recente disco da banda. O fecho fez-se com The Weeping Song, para que não restasse qualquer ponta de ceticismo: mesmo aos 64 anos, Nick Cave continua a ser um enorme showman, ainda com muito para dar, que consegue tornar fã quem nunca o tenha visto e, ao mesmo tempo, surpreender quem já o conhece há anos.

Disclosure levaram a discoteca até ao parque

O último concerto do palco MEO teve início com uma pequena viagem até 2020 - ano severamente marcado por confinamentos e encerramentos, mas que "não fez a música parar", ouviu-se nas colunas. "Agora estamos em 2022 e é hora de celebrar" com os Disclosure, que se preparavam para dar uma festa a um ritmo alucinante.

O concerto dos irmãos Howard e Guy Lawrence ficou marcado pelo espetáculo de luzes que hipnotizou os festivaleiros e a dança que transformou o Parque da Bela Vista numa discoteca ao ar livre.

My High destacou os rappers Aminé e Slowthai. Já When a Fire Starts To Burn e Douha (Mali Mali) elevaram a fasquia do concerto, que aumentava a energia a cada música, ainda que a uma hora tardia.

Em Nocturnal, que conta com a participação do canadiano The Weeknd, os festivaleiros foram convidados a iluminar o recinto com as lanternas dos telemóveis: "Quero ver as luzes acesas. Vamos iluminar este lugar!", diziam os irmãos. E o público (maioritariamente jovem) assim o cumpriu.

"La La...", lançavam os Disclosure, ameaçando chegar a canção que todos queriam ouvir: Latch. O tema que lançou Sam Smith em 2012, foi a balada que uniu mais vozes, num concerto em que a maior parte desconhecia as letras e apenas se dedicou aos passos de dança.

O regresso aguardado da dupla britânica de música eletrónica (a última vez que atuaram em Portugal foi em 2019 no Super Bock Super Rock em modo DJ Set), no entanto, não superou as expectativas - o público saiu desiludido por terem sido deixados para trás alguns dos maiores êxitos do duo, entre eles, You & Me.

Depois da primeira edição, o festival MEO Kalorama já tem datas marcadas para 2023 durante os dias 31 de agosto, 1 e 2 de setembro.

ines.dias@dn.pt
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