Foi o único português na gala de encerramento da 12.ª edição do Festival Internacional de Música de Marvão, entre uma dúzia de figuras da música clássica. Estava lá o próprio Christoph Poppen, o maestro alemão que é o fundador do festival. Para o miúdo que em Pinheiro de Ázere, uma aldeia perto de Santa Comba Dão, aprendeu a tocar clarinete numa filarmónica é como um sonho, mas na realidade um sonho já cumprido desde há alguns anos?Sim, participar no festival tem sido um hábito desde que me tornei assessor artístico do festival. Portanto, o sonho, posso dizer que foi exatamente o período antes disso. Foi a primeira vez que fui convidado para vir ao festival, em 2015. E depois, nessa mesma edição, fui reconvidado para fazer o concerto de abertura em 2016. Em 2017 eu não participei. E nesses dois anos que referi, a minha participação era vir, tocar e ir embora. Portanto, de 2018 em diante, tem sido um processo bastante diferente. Desde logo, porque passo aqui a duração toda do festival. Faço um acompanhamento que me permite ter uma visão total do evento.E um contacto com músicos de nacionalidades muito diversas?No fundo, há aqui uma multiculturalidade bastante vasta. Este ano, em específico, tivemos muitos asiáticos. Tivemos ensembles da Coreia do Sul, de Hong Kong. Tivemos um artista chinês também. Acabou por ser muito abrangente para a Ásia. Não obstante, temos artistas alemães, franceses, a juntar naturalmente aos artistas portugueses. No ano passado tivemos um artista americano. Portanto, acaba por ser uma conjugação de escolas, isto mais no meio musical, de diferentes escolas, de diferentes backgrounds, e que acaba por enriquecer o próprio festival. Até porque, no meu caso, tive a oportunidade neste festival de me juntar a mais dois artistas para fazer um concerto. E isto acabou por ser muito interessante também, porque me permitiu abordar ideias deles, partilhar as minhas, e em conjunto recriar uma interpretação. Foi no penúltimo dia, sábado, às onze da manhã, na Igreja de São Tiago onde eu toquei parte das Oito Peças de Max Bruch para clarinete, viola e piano. Portanto, há aqui uma comunhão muito interessante de partilha de ideias.Há um percurso aqui que é de um jovem que vem de uma aldeia e gosta de música até chegar a este festival, que é um festival de elite. As filarmónicas são a porta de entrada para os jovens na música?O panorama tem-se vindo a alterar, porque cada vez mais existem escolas do ensino artístico especializado. Hoje em dia é raro uma região que não tenha uma escola bastante estruturada, com professores especializados, coisa que não havia há 30 anos quando eu comecei a tocar clarinete. E nessa altura, sim, as filarmónicas eram muito importantes. Na minha terra, é a Sociedade Filarmónica Lealdade Pinheirense, agora mais conhecida por Banda Musical de Pinheiro de Ázere. Um menino da aldeia bate à porta da filarmónica e diz “eu gosto de música e quero tocar”?O que aconteceu, e o que penso que ainda acontece hoje um pouco por todo o lado, é que as próprias bandas necessitam de ter quadros, de recrutar pessoas. As bandas são associações, no fundo, que têm um papel cívico importantíssimo. E na minha localidade, ainda mais porque não há uma segunda opção. Conhecia a banda de ouvir passar a tocar, das comemorações. E, quando eu estava mais ou menos no terceiro ano de escolaridade, veio um rapaz à escola apresentar a banda e fazer essa captação. E, basicamente, a grande maioria dos meus colegas foi para a banda. Na minha altura, em Santa Comba Dão, a escolha era o futebol ou a música, e no meu caso foi a música. Tinha sete anos.E é então que experimenta o clarinete pela primeira vez?Sim, mas não queria tocar clarinete. Na altura, queria tocar saxofone, provavelmente influenciado por algum desenho animado. Mas foi a necessidade da banda que pesou mais?Foi a necessidade da banda, sim. Basicamente, disseram-me, “olha, saxofones não temos. Temos um instrumento que é parecido, o clarinete. Levas para experimentar, depois logo se vê”.Não havia saxofone?Havia [risos]. Só que como precisavam muito mais de clarinete encaminharam assim a coisa. O que é uma história, hoje em dia, bastante engraçada. E, na realidade, isto também, se calhar, reflete a minha pessoa. Sou muito comprometido. A partir do momento em que fico comprometido com uma determinada situação, dificilmente mudo. E, neste caso, adaptei-me bastante bem ao clarinete. Gostei. Consegue tocar saxofone?É possível um clarinetista tocar saxofone, ainda que...Mas não o faz, ou faz? Não, não faço. Há muitos anos, nas orquestras profissionais, por exemplo, o Bolero de Ravel, quando era preciso o saxofone, era o naipe dos clarinetes que assumia o saxofone.Se não houvesse saxofonistas, os clarinetistas assumiam...Exatamente. Especializavam-se um bocadinho. A forma de tocar, a abordagem ao instrumento é similar. Depois, claro, irmos ao detalhe, é mais complexo. Mas a abordagem inicial é similar.No contexto de uma orquestra pode funcionar a substituição?Poderia funcionar. Hoje em dia, já há muito mais especialistas que cresceram com o instrumento. O grau de profissionalismo é muito maior. Mas há uns anos, quando o saxofone não era propriamente um instrumento clássico, que era mais ligado ao jazz e a outros géneros alternativos, o clarinetista é que tinha a abordagem clássica do instrumento.Sintetizando a sua formação. Escola de Música em Espinho... Oficialmente eu comecei a estudar clarinete no Conservatório de Música de Coimbra, onde estudei um ano, e coincidiu, naquela altura, com ter de escolher o que seguir, que área específica fazer no secundário. E tive a oportunidade de ir fazer provas à Escola Profissional de Música de Espinho, e foi aí que fui para Espinho. E depois para o Porto...E depois para a ESMAE, a escola superior de música. Antes de ir para fora estudar. Seguiu uma formação internacional diversificada. Alguma escola que o tenha marcado mais?Sim, sim, sem dúvida. A minha passagem na Escola Superior de Música Rainha Sofia, em Madrid, foi essencial. Basicamente, se me considero músico, imagino que foi porque tive a formação ali. Mas é pela qualidade da escola como um todo, ou é especificamente pelo clarinete?Tudo. Fui estudar com o Michel Arrignon, que faleceu no ano passado. E, basicamente, a escola é em volta de professores que têm carreiras ultraconsideradas. Aliás, o próprio diretor do Festival de Marvão, Christoph Poppen, é professor em Madrid. Portanto, os artistas e os professores que fazem parte da escola são muito focados na performance, no perfeccionismo de que estávamos a falar. Na altura, o curso chamava-se Alta Formación Musical. Portanto, era algo mesmo muito vocacionado para a performance, para a qualidade artística. E depois, não há, e acho que é muito importante, classes que tenham um nível mais baixo. As classes eram todas de um nível elevadíssimo. E isso, na música de câmara, nos pequenos ensembles, ou projetos que se fazem paralelamente às aulas individuais, ajuda imenso a criar uma personalidade e a manter um nível alto, no sentido em que nós todos queremos tocar o melhor possível. Que nomes o influenciaram neste já longo percurso musical?Comecei na banda com dois senhores que me incentivaram imenso, Ilídio Gomes e Francisco Castanheira. Duas pessoas que eram apaixonadas por música. Passaram-me a paixão pela música, e contribuíram para este meu destino. Foram as pessoas da filarmónica que lhe incutiram a paixão pela música.Incentivaram bastante a aprender, a estudar, a prosseguir e a especializar-me um bocadinho mais. E depois, naturalmente, eu não quero destacar ninguém, mas cada professor que eu tive em determinado momento foi importante: Luís Carvalho em Espinho, António Saiote na ESMAE e Michel Arrignon em Madrid influenciaram-me imenso. E depois, posteriormente, ainda mantive contacto regular com Nicolas Baldeyrou que é atualmente um dos clarinetistas de topo. Portanto, a formação, na realidade, eu sinto que cada vez é mais contínua. Está sempre a aprender?No fundo, estar em contacto com algum par nosso que esteja no meio e, no fundo, nem que seja só para trocar ideias, impressões, abordagens, acho que é muito importante.E da longa listagem de prémios conquistados, há algum que consiga individualizar? Naturalmente, o Prémio Jovens Músicos foi extremamente importante para mim porque me abriu uma série de portas. Eu tinha 25 anos. Era mesmo na idade limite para participar no prémio.Continuam, por vezes, ainda a referir-se a si como um jovem músico... É verdade. Um jovem músico com 37 anos [risos]. Sempre que aparece alguém, tem que ser jovem. Porque vende mais ou chega de outra maneira às pessoas, mais do que se for apenas músico. Por exemplo, há uns tempos, numa rádio, havia um programa com Martim Sousa Tavares. E era o jovem maestro [risos]. Mas alteraram, entretanto, e agora já é só um programa com o maestro Martim Sousa Tavares. Porque senão, o jovem maestro, como o jovem músico, fica para a vida.Voltando à gala de encerramento do Festival de Marvão, com temas de uma pluralidade de compositores, como Mozart, Bruch ou Bizet. Como clarinetista, tem compositores preferidos? Neste caso houve que combinar várias questões. É uma gala, portanto, não é um concerto tradicional do festival. E nesta gala, por norma, faz-se um desfile de artistas, no fundo quase como a fazer um retrato daquilo que foi o festival todo e a deixar já o bichinho para aquela que será a próxima edição. Neste caso, é importante escolher o repertório, primeiro, que seja escrito originalmente para o instrumento e depois que faça sentido no programa. Eu toquei o primeiro andamento do Concerto duplo para clarinete e viola de Max Bruch. Na realidade, foi a primeira vez que toquei este concerto, que é um concerto que não é propriamente muito tocado e combina dois instrumentos que têm uma tessitura muito própria e muito próxima também. É habitual compositores criarem especificamente para clarinete?Nós na história da música destacamos as obras de Mozart como o pai, no fundo, daquilo que é o repertório para clarinete. Depois temos Brahms, no período romântico, que também ajudou a catapultar o instrumento. Mais recentemente, nos séculos XX, XXI, o clarinete acaba por ser um instrumento muito requisitado pelos diferentes compositores, por ser um instrumento muito versátil, que permite explorar uma série de coisas, desde o virtuosismo digital, técnico, ao virtuosismo de buscar sonoridades, de fazer alguns efeitos... Quando se ouve um concerto, por uma grande orquestra, o clarinetista pode sobressair?É uma figura que pode sobressair, sim, sem dúvida. Ou seja, um clarinetista que toque forte, que se permita expandir o seu som, pode facilmente destacar-se. O meu concerto favorito é o de Mozart, mas do século XX temos um concerto cada vez mais tocado, o de Copland. Estreei também, em 2019, o qual o escreveu para mim, o concerto de Luís Tinoco, que acabou agora de ser premiado também nos Prémios Play, portanto um CD que foi editado e gravado ao vivo. Inclusive, aqui no festival já tive uma estreia num concerto para clarinete. Pessoalmente gosto muito do Concerto para clarinete e orquestra de Mozart.Voltando ao seu percurso surpreendente, iniciado numa filarmónica de aldeia mas hoje com expressão de alto nível internacional. Também um grande festival de música clássica numa vila do Alentejo é quase um milagre? O maestro Poppen estar a passear por Portugal com a família e ver Marvão e interessar-se por Marvão é extraordinário.Sim. É uma história muito bonita e apaixonante, porque, na realidade, conhecer Marvão na altura do festival e fora do festival, são duas realidades bastante distintas. Fora do festival, há uma paz, eu diria, ensurdecedora, e a música trouxe, precisamente, a beleza a essa paz. Naturalmente, a consequência também, e eu acho que é positiva, foi trazer as pessoas a virem conhecer essa paz. Se passearmos à noite no fim do último concerto na cisterna, onde fazemos o Late Night Special, é uma paz espetacular e as pessoas estão a usufruir dessa paz. Agora, durante o dia, aquela correria de um concerto para o outro, e estamos a falar de um número significativo de pessoas, nota-se na vila um movimento que ao longo do ano não existe. Acho que esta dupla sensação da realidade é muito bonita de se ver e o festival trouxe isso a Marvão.Dos projetos atuais que tem há algum que queira destacar? Eu faço coisas diferentes. Para além da minha carreira mais a solo, tenho dois projetos de música de câmara, um quinteto de sopros e um ensemble de música moderna. O nome do quinteto clássico é o Art’Ventus Quintet e o ensemble é o Ensemble Ars Ad Hoc, onde exploramos um bocadinho mais da música dos nossos dias. Portanto, tenho estes dois projetos onde sou clarinetista e faço parte dos projetos enquanto músico. Paralelamente a isso, no ano passado abracei um outro projeto também ligado às bandas, neste caso à Banda Sinfónica Portuguesa, tornando-me diretor artístico deste grupo. É a única orquestra de sopros não militar em Portugal, é a única orquestra de sopros profissional civil que temos no país. São projetos diferentes e, no fundo, é o que eu faço hoje em dia. Dedico-me inteiramente a estes projetos. Sabe se algum miúdo da sua terra foi para a filarmónica inspirado pelo seu sucesso? Sim, certamente. Houve gente que foi para a música porque queria ser isso, não tenho dúvidas, e não é ser arrogante de nenhuma forma, mas acho que é bonito de observar, porque, no fundo, também fui inspirado por outros e acho que a música deve ser assim mesmo, nós todos inspiramo-nos uns aos outros. ."Graças ao sucesso do Festival de Música tem vindo a ganhar fôlego a ideia de construir auditório em Marvão"