O FIMM vai ter este ano a 12.ª edição. Na apresentação da programação, no Grémio Literário, em Lisboa, o maestro Christoph Poppen falou de 83 compositores. Pode dar alguns exemplos do que se poderá ouvir em Marvão?O programa do 12.º FIMM é muito transversal, atravessa vários séculos de história da música e reúne cerca de 83 compositores e outros autores (incluindo Fernando Pessoa!). O público vai poder ouvir desde Bach, Mozart, Beethoven ou Schubert até nomes do século XX como Britten, Stravinsky ou Prokofiev, e também criação contemporânea, com compositores como Unsuk Chin (Coreia do Sul) ou Alice Yeung (China), incluindo estreias. Há concertos sinfónicos, música de câmara, lied e repertório coral, mas, mais do que uma sucessão de concertos, o programa propõe um percurso, uma narrativa musical coerente, onde tradição e contemporaneidade convivem naturalmente, o que é interessante para todos os públicos.Um dos pontos fortes do FIMM, a par da qualidade artística, é a magia dos locais onde acontecem os concertos. O castelo de Marvão e as ruínas de Ammaia são as estrelas, mas há outras?Não é possível desligar Marvão, o espaço e a terra, de Marvão, o programa do Festival. O castelo e as ruínas de Ammaia, ambos classificados como Monumento Nacional, têm um papel central pela escala, dimensão cénica e força simbólica que trazem aos concertos de maior fôlego, mas o festival constrói-se também através de outros lugares determinantes. As igrejas dentro da vila muralhada (São Tiago e Espírito Santo) e fora (N. Sra. da Estrela) oferecem proximidade e uma acústica ideal para repertório vocal, lied, coro e música de câmara, criando uma escuta mais concentrada, difícil de recriar em salas convencionais, “demasiado perfeitas”. A cisterna do castelo, esvaziada propositadamente para o festival, serve como sala de concertos subterrânea e permite experiências mais íntimas ou experimentais, com o público muito próximo dos músicos; Marta Pereira da Costa, por exemplo, estreia-se ali este ano. No fundo, cada local influencia o tipo de programa que ali acontece, e essa relação entre arquitectura, paisagem e música é essencial à identidade do FIMM.. O maestro Poppen foi o grande impulsionador do FIMM. Pode relembrar um pouco como um alemão, e a família, se apaixonaram por uma vila alentejana?O maestro Christoph Poppen e a mulher, Juliane Banse (também diretora artística do festival), descobriram Marvão em 2010 durante um passeio de bicicleta em família pela região. Foi uma ligação imediata: especialmente para o maestro, que ficou profundamente impressionado com a paisagem, o silêncio e o carácter único da vila, ao ponto de decidir comprar uma casa em Marvão, e a relação da família com o lugar foi-se aprofundando naturalmente. Claro, nunca ninguém pensou exactamente em criar um festival internacional que viesse a integrar os principais roteiros de música clássica europeus, a merecer elogios da crítica especializada ou a atrair visitantes de todo o mundo. Tudo nasceu de forma muito simples, a partir do desejo de trazer músicos amigos a tocar neste lugar único, e a primeira edição realizou-se em 2014 como um pequeno fim-de-semana de música. No ano seguinte o formato cresceu, e dessa evolução orgânica nasceu o modelo actual, com cerca de dez dias de festival.O Daniel é um filho da terra. Qual o impacto do FIMM em Marvão? Vai além dos dez dias?Sendo Marvão uma comunidade pequena, com menos de 100 habitantes dentro da vila muralhada e sede de um concelho com cerca de 3000, o impacto sente-se de forma directa, não apenas na dinâmica económica e turística durante o FIMM, mas ao longo de todo o ano. O festival trouxe uma projecção internacional inédita, colocando a vila no mapa cultural europeu e, mais importante, no próprio mapa de Portugal. De repente, duas horas e meia desde Lisboa ou três a partir do Porto deixam de parecer distâncias impraticáveis, e de repente, Marvão representa um “Alentejo alternativo”, tão autêntico e tão real quanto o outro, o dos postais e o das planícies douradas; um Alentejo de altitude, de montanhas e rios a perder de vista, de vinhas velhas e de pedras, de Orquestra de Câmara de Colónia e de Hong Kong Sinfonietta, mas também de Banda Sinfónica Portuguesa, de fado e de jazz. Há ainda um impacto menos visível mas profundamente transformador: a criação como que de novas “sinapses”, representada pelo reforço da identidade cultural local e maior proximidade entre habitantes e música. . Foi referido no jantar-concerto de apresentação em Lisboa a possibilidade de um grande projeto cultural em Marvão associado ao FIMM. Pode explicar?Prestes a cumprir a sua 12.ª edição, o FIMM parece estar muito próximo de esgotar um modelo que consiste em programar 30 a 40 concertos e receber aproximadamente 15 mil visitantes ao longo de 10 dias no fim de Julho. Sem o desenvolvimento efectivo de uma infraestrutura de suporte, será impossível evoluir. O número de visitantes está hoje limitado pela capacidade hoteleira da região, que, apesar de diversa, é insuficiente. Ao mesmo tempo, o facto de grande parte do programa se desenvolver ao ar livre é simultaneamente uma opção e uma limitação, tornando impossível organizar actividades fora do pico do Verão devido às condições climatéricas. Por esse motivo, tem vindo a ganhar fôlego a ideia de construir um auditório em Marvão, não como “mais um centro de artes e espectáculos”, mas como um marco cultural orientado para o futuro, capaz de acolher atividade artística e programação interdisciplinar ao longo de todo o ano, plenamente integrado na paisagem e apoiado por infra-estruturas contemporâneas, reforçando o papel de Marvão como catalisador do desenvolvimento cultural e territorial, com um potencial transformador de âmbito nacional e internacional - e por que não? - comparável ao efeito de um Guggenheim em Bilbao. Poder-se-ia dizer que estamos a falar de “construir castelos no ar”, mas a verdade é que: primeiro, isso não parece ter sido um problema anteriormente, aqui em Marvão; e, segundo, posso adiantar que temos um grandíssimo e premiadíssimo arquiteto português do nosso lado a estudar soluções, e isso sim, é uma nova e inesperada variável nesta equação inaudita… Será revelado mais tarde.Sei que recebem durante o FIMM visitantes de todo o mundo. Também das terras vizinhas espanholas?A proximidade com Espanha faz com que o FIMM tenha desde o início uma dimensão Ibérica muito forte, com público vindo regularmente das regiões vizinhas da Extremadura, mas também de outras partes do país. A fronteira aqui é meramente simbólica. Ao mesmo tempo, recebemos visitantes de vários países europeus e de fora da Europa, muitos dos quais regressam ano após ano, criando uma comunidade internacional muito fiel. Essa mistura entre público local, nacional, espanhol e internacional contribui para o ambiente muito particular do festival e reforça a ideia de Marvão como um ponto de encontro cultural aberto, acessível e profundamente europeu. .Não um, nem dois ou três, mas quatro grifos a saudar génio de Tchaikovsky em Marvão."Devo dizer que antes de conhecer a Juliane me apaixonava com muita frequência, mas nunca por um lugar"