Os segredos revelados do Museu Nacional de Arte Antiga

MNAA inaugura uma exposição que nos leva em viagem pelos bastidores da instituição e nos faz refletir sobre a função do museu.

Aquela porta não costuma estar aberta. Mas agora vai estar. A meio da exposição "Museu das Descobertas", que é inaugurada esta quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, os visitantes encontram uma porta aberta para umas escadas apertadas. É preciso subir e ver aquela pequena maravilha: a sacristia da Capela das Albertas, com as paredes cobertas de lindos azulejos azuis. "É a primeira vez que vamos permitir o acesso à sacristia", assegura Anísio Franco, um dos curadores do MNAA. "O espaço estará a ser restaurado, vão estar aqui pessoas a trabalhar, e os visitantes da exposição vão poder acompanhar os trabalhos."Só vai dar para espreitar - e para ver que, para lá de outra porta fica a Capela das Albertas, que integra o edifício do museu. Mas será uma descoberta. Uma das muitas descobertas proporcionadas por esta nova exposição.

O título da exposição é assumidamente provocatório. Numa altura em que se discute a necessidade (ou não) de termos em Portugal um museu dedicado às viagens de expansão marítima e num momento em que em todo o mundo se debate a visão colonialista que ainda hoje temos dessas viagens e o uso do termo "descobrimentos", o MNAA aparece com um "Museu das Descobertas". Mas que fique desde já claro: esta não é uma exposição sobre os descobrimentos.

António Filipe Pimentel o (ainda) diretor do MNAA explica: "A exposição fala da descoberta do museu enquanto instituição e da descoberta de nós mesmos, porque quando vimos a um museu também aprendemos algo sobre nós". Trata-se, portanto, de um mergulho no MNAA, para que fiquemos a perceber como funciona o museu e como é que aquela coleção foi construída, convidando à reflexão sobre a função daquela casa. "Esta exposição é uma grande aventura do museu, e um dos seus projetos mais marcantes", diz Pimentel, sublinhando a "complexidade da montagem", com uma componente tecnológica que vai permitir aos visitantes ter acesso a informação em vídeo, além das 117 obras de arte - peças de pintura, escultura, tecidos, mobiliário, joalharia, entre outras.

Ainda antes da entrada na exposição, toda a equipa do museu - desde as funcionárias da limpeza e da manutenção, aos conservadores, restauradores e à direção - são apresentados num vídeo para que os visitantes não se esqueçam que "os museus são feitos por pessoas para as pessoas". "Para cada momento de volúpia, quando contactamos diretamente com uma obra de arte, há uma equipa por trás a trabalhar, às vezes esquecemo-nos disso", lembra Anísio Franco.

Depois, o visitante é convidado a permanecer numa sala escura onde se encontra apenas uma peça, a escultura do Bodhisattva Maitreya, em meditação, proveniente da Coreia ou do Japão, criada no século VII. "Os museus estão a transformar-se em fábricas de números de visitantes, com as pessoas a usar constantemente os telemóveis para tirar fotos. Esquecem-se da necessidade de fazer silêncio e contemplar as peças de arte", comenta o conservador do museu Anísio Franco, apontando a necessidade de criar "uma relação íntima entre o visitante e as peças". Esse é o propósito desta sala. Obrigar os visitantes a desacelerar, a parar, a observar.

Ao longo do percurso, o público poderá ficar a conhecer, por exemplo, a história do Retábulo de Santa Ana que, afinal, era uma caixa, e de um cálice veneziano do século XVIII que esteve partido em mais de 250 peças mas a que os especialistas conseguiram voltar a dar a forma original. Com estes exemplos, o MNAA pretende mostrar aos visitantes outro dos trabalhos importantes dos museus: o de "laboratório aberto", com cientistas que restauram a história.

Contas de rezar e uma salva dos Países Baixos, dos séculos XVI, um saleiro africano da mesma época, a pintura que retrata o Martírio de Santa Catarina (1570-90), presumivelmente da autoria do pintor português Gaspar Dias, o Martírio das Onze Mil Virgens e algumas das maravilhosas jóias de Goa são outras peças que o visitante pode descobrir neste percurso. Muitas das obras foram retiradas da exposição permanente do museu, mas colocadas num contexto que "obriga a serem vistas com outro olhar". A ideia é, ao longo do percurso, perceber como o museu cumpre as funções de exibir, preservar, estudar, comunicar, restaurar e salvaguardar as obras de arte. As últimas salas recordam, por exemplo, o sucesso da campanha "Pôr o Sequeira no Lugar" - que permitiu comprar o quadro A Adoração dos Reis Magos, em 2016, assim como as muitas peças que são emprestadas para exposições em instituições internacionais. Porque "um museu não vive isolado".

A exposição Museu das Descobertas é inaugurada esta quinta-feira à tarde naquela que será a despedida do diretor do MNAA. António Filipe Pimentel anunciou em janeiro deste ano a sua saída, ao fim de uma década à frente do museu, "por falta de condições" para trabalhar. Elogiando toda a equipa do museu - "todos eles comissários desta exposição" - o historiador de arte afirma que "fecha um ciclo". O conservador da coleção de pintura do MNAA, Joaquim Caetano, irá assumir, em junho, o cargo de diretor.

Museu das Descobertas
MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
De terça a domingo, das 10.00 às 18.00
Até 29 de setembro
Bilhetes: 6 euros

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