10 Factos sobre a exposição de joias goesas no MNAA

É uma coleção única de joias que combinam a cultura europeia e a hindu. Saíram de Goa em latas de bolachas, de cigarros ou rebuçados em 1961, foram reabertas em 2011 e podem ser vistas a partir de hoje, às 18.30, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

1. São 392 objetos de joalharia dos séculos XVIII e XX que estiveram fechados durante 50 anos nos cofres do Banco Nacional Ultramarino e, mais tarde da Caixa Geral de Depósitos. "Reflete esse encontro entre o mundo hindu e o mundo cristão", diz Luísa Penalva, conservadora de ourivesaria do Museu Nacional de Arte Antiga, e comissária da exposição "Esplendores do Oriente", com Anísio Franco, também conservador do MNAA.

2. "Nunca vimos nada assim", diz Luísa Penalva. "O [museu] Victoria & Albert, em Londres, disse-me que nunca tinha visto algo semelhante, é um país com grandes ligações à Índia", nota. A supresa continuou quando o museu questionou a especialista em joalharia indiana Usha R. Bala Krishnan. "Não conheciam estas tipologias", conta a conservadora.

3. A sua história dava um filme: no dia 12 de dezembro de 1961, perante a iminente invasão das tropas indianas, o gerente do BNU Jorge Esteves Anastácio envia de Goa para Lisboa um espólio de mais de meia tonelada no navio Índia. A maior parte foi devolvida à procedência, com louvores do State Bank of India, com o restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a Índia, em 1991.

4. O que fica não tem dono. É fruto de contrabando, roubo, penhora, arresto. Ficou nos cofres da Caixa Geral de Depósitos e foi aberto, simbolicamente, a 12 de dezembro de 2011, 50 anos após a expedição.

5. O acervo, agora doado ao MNAA pela Caixa Geral de Depósitos, mecenas deste projeto, estava guardado em caixas de madeira com outras muitas latas e caixinhas dentro. "Caixas de bolachas, de rebuçados, de cigarros, saquinhos", enumera Luísa Penalva. "Tudo selado", há pelo menos 50 anos (algumas há mais), acrescenta Anísio Franco. Refeito o inventário, seguiu para o Laboratório José de Figueiredo. "Nós trouxemo-las à luz, mas o restauro deu-lhes vida", iz Luísa Penalva.

6. Joias para usar no cabelo, tiaras--pente, colares, pulseiras, brincos. A variedade é imensa, as tipologias novas. "Olhávamos para o inventário e não sabíamos para que servia", lembra Luísa Penalva, representante do então Instituto dos Museus e Conservação, com Anísio Franco, no grupo de trabalho pelo Ministério das Finanças para avaliar este património do Banco Nacional Ultramarino (BNU).

7. Existe muito pouca informação sobre estas joias e a sua forma de usar. Os comissários chegaram a seis quadros da antiga coleção Alpoim Galvão e a dois livros escritos por portugueses: um de Manuel da Cunha Maldonado, do final do século XIX e outro de Bragança Pereira, de 1940, onde estas peças eram descritas com detalhe.

8. Os objetos deste tesouro eram usados sobretudo por mulheres na sociedade altamente hierarquizada de Goa, e sempre da cintura para cima. Nos pés, perto do chão, apenas se usava prata, metal que nunca apareceu aos investigadores nestas caixas. Trata-se sobretudo de tiaras-pente, afogadores com a imagem do menino Jesus, anéis e pulseiras de vários tipo.

9. "Uma mulher hindu usava duas joias, a cristã três", realça Luísa Penalva. "As mulheres nunca abandonavam completamente o hinduísmo." Símbolos de uma religião convivem com os da outra. Quando se casa e se converte ao cristianismo, a mulher hindu mantém algumas tradições.

10. "Esplendores do Oriente" pode ser vista até 7 de setembro e está a ser solicitada por museus internacionais e será editado um catálogo bilingue (português e inglês).

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