“Sorriu até quase ao último dia.” A garantia foi dada ao DN por Isabel Zambujal, filha do jornalista e escritor Mário Zambujal, que morreu esta quinta-feira, 12 de março, de manhã no Hospital da Luz, em Lisboa, uma semana depois de ter completado 90 anos de idade. Se a boa disposição o caracterizou durante a vida, como também corroborou ao DN a escritora Alice Vieira, Mário Zambujal tinha por trás desta expressão outra característica, que a filha vincou e que, completou, era assim que gostaria de ser lembrado: “Foi um homem bom.”Nasceu em Moura, no Alentejo, no dia 5 de março de 1936. Foi no Algarve, aos 16 anos, que escreveu pela primeira vez para um jornal, na altura um conto, na publicação satírica Os Ridículos, como explica o Clube de Jornalistas, a que Mário Zambujal presidiu entre 2007 e 2021. Foi chefe de redação do Diário de Notícias, nos anos 70 do século passado, e teve a mesma função no jornal O Século e no Diário de Lisboa. Foi jornalista desportivo n’A Bola e na RTP, subdiretor no Record e diretor interino no semanário Tal & Qual. Numa dupla qualidade, foi o primeiro diretor do Se7e enquanto integrava a redação d’O Jornal. Passou ainda pela Rádio Comercial, com o programa Pão com Manteiga, e assinou uma coluna no 24 Horas. Por todas estas passagens por tantas redações, o Clube de Jornalistas, no texto que assinala a vida do jornalista e escritor, deixa a nota de que “Zambujal não aquecia lugares”.Mário Zambujal estreou-se em 1980 como escritor, com a Crónica dos Bons Malandros, e não parou até ao ano passado. Escreveu, nestes últimos 39 anos, Fim da Rua, À Noite Logo se Vê, Primeiro as Senhoras, Uma Noite Não São Dias, Serpentina, Fabíolo e O Diário Oculto de Nora Rute. Em dezembro de 2025 publicou o romance policial O Último a Sair, no qual integrou o Conto Final. Parágrafo.Alice Vieira confidencia ao DN que não se lembra de quando conheceu Mário Zambujal, mas sabe que “era miúda” quando isso aconteceu. Depois, trabalhou com ele em quase todos os jornais por onde passou.Recorda-o como “um grande jornalista e um grande escritor”, para além de ter “uma coisa muito boa: ele nunca - mesmo quando a gente fazia coisas mal feitas nos jornais - ralhava.”Esta qualidade de Mário Zambujal não fazia dele desatento, até porque, como vinca Alice Vieira, ele percebia que havia alguma coisa que estava mal, mas optava por dizer “que podia estar melhor”. “Pronto, e assim já sabia que estava muito mal”, conta a escritora, sempre sorridente.Questionada sobre como sente que Mário Zambujal gostaria de ser lembrado, Alice Vieira diz apenas: “Com uma grande gargalhada, porque ele era tão divertido.” A escritora, na busca de descrições possíveis para Mário Zambujal, diz que “ele era uma daquelas pessoas extraordinárias” que “teve uma sorte danada, porque fez sempre tudo o que quis, nos lugares que quis”. É também por Mário Zambujal ter tido a vida que teve que Alice Vieira sugere que, “lá onde ele está, deve estar contente com a vida que teve, e não há nada melhor”.Por todos estes momentos, pelas recordações que eles suscitam, a escritora propõe que Mário Zambujal seja “lembrado, não com tristeza, mas realmente com uma grande gargalhada. E que bom que foi termos tido a sorte de o ter na nossa vida”, desabafa.Alice Vieira conta uma história de Mário Zambujal que se passou na redação do DN. A escritora recorda que trabalhava numa secção intitulada “informação geral, que tratava de tudo”. Tinha trabalhado na cultura, “mas era uma chatice”, descreve. “Só me davam coisas culturais, e então fui para a parte da informação geral. Escrevia tudo o que eu queria, tudo o que me apetecia, e foi muito bom, porque ninguém me dava ordens. Foram grandes anos, isso foram”, afirma.Num determinado dia, Alice Vieira “queria fechar o jornal”, isto é, concluir todos os artigos para que a gráfica possa dar seguimento ao processo de impressão. Porém, Mário Zambujal “nunca mais chegava”. Entretanto, ele lá chegou à redação. Depois de uma conversa sobre o assunto, sobre a pressão da hora de fecho e sobre tudo o que isso estava a implicar naquele exato momento, Mário Zambujal olhou para Alice Vieira e disse: “Está calada que eu estou estafado. Já hoje me vesti e despi cinco vezes”.O “desalinhado” que “cativava quem o ouvia”O Presidente da República, António José Seguro, três dias depois de ter assumido o cargo, deixou a sua primeira mensagem de condolências na sua página oficial, lembrando Mário Zambujal como alguém que “deixa uma marca muito própria no jornalismo desportivo nacional, em todos os meios por onde passou, e que obteve vários êxitos com a sua escrita”.“Orgulhosamente alentejano, foi sempre, nas suas palavras, ‘um desalinhado’ a que juntava um sentido de humor marcante”, escreve o chefe de Estado na nota oficial, referindo que o livro Crónica dos Bons Malandros foi “adaptado mais tarde a cinema”, acabando por se tornar “um dos mais populares nos anos 80”.“Agraciado em 1984 com a Ordem do Infante D. Henrique, recebeu, ao longo da carreira, inúmeros prémios, entre eles o Prémio Gazeta de Mérito 2025, atribuído pelo Clube de Jornalistas, instituição a que presidiu durante 14 anos”, acrescenta António José Seguro..Também Luís Montenegro recordou a vida de Mário Zambujal com uma publicação na rede social X, referindo o “jornalista, escritor e contador de histórias que marcou gerações com o seu talento”. O primeiro-ministro considerou que “a sua forma de comunicar cativava a atenção de quem o via e ouvia e fez escola no jornalismo português”, motivo pelo qual “o seu legado permanecerá na nossa memória coletiva”.Também a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, deixou uma mensagem no X dedicada ao “escritor excecional e talentoso”, que foi “uma inspiração para várias gerações”. “Além da literatura, também deixou uma distinta marca criativa no jornalismo, na rádio e na televisão”, lembrou..Também o presidente da Câmara de Lisboa assinalou a vida de Mário Zambujal com uma publicação nas redes sociais, destacando que, com a morte do escritor, partiu “uma dessas raras ironias luminosas que sabiam rir de Portugal sem nunca o trair”. Carlos Moedas considerou que “ficamos mais pobres em graça e elegância, daquelas que não fazem ruído, mas deixam eco, como a palavra bem dita”.No final, Carlos Moedas considera que nos despedimos “de um contador de histórias”, mas com a garantia de que “amanhã voltaremos a encontrá-lo onde verdadeiramente vivem os escritores: na memória viva dos leitores.”.Morreu o escritor e jornalista Mário Zambujal. Tinha 90 anos.Literatura: Tempo dita bons ou maus-tratos aos escritores -- Mário Zambujal