Morreu o escritor e jornalista Mário Zambujal. Tinha 90 anos
Foto: Reinaldo Rodrigues

Morreu o escritor e jornalista Mário Zambujal. Tinha 90 anos

Lançada em 1980, "Crónica dos Bons Malandros", que foi mais tarde adaptada ao cinema e televisão, é uma das suas obras mais conhecidas.
Publicado a
Atualizado a

O escritor e jornalista Mário Zambujal morreu na manhã desta quinta-feira, 12 de março, avançou a RTP. "Uma das figuras mais queridas e versáteis do jornalismo nacional, morreu esta manhã no Hospital da Luz, em Lisboa, uma semana depois de ter completado 90 anos", informou o Clube de Jornalistas, que destacou o "legado marcante na imprensa escrita, na rádio, na televisão e na literatura".

Entre as várias obras que assinou, conta-se Crónica dos Bons Malandros, adaptada ao cinema e televisão, e uma das mais conhecidas do percurso literário do escritor. Numa referência ao livro, a editora Clube do Autor lamentou a morte do “eterno bom malandro”. "O seu legado será sempre relembrado por todos, sobretudo pelos seus fiéis leitores, bem como a sua enorme alegria de viver", destacou.

"Foi com tristeza que o Presidente da República tomou conhecimento da morte do jornalista e escritor Mário Zambujal, figura que nos deixa uma marca muito própria no jornalismo desportivo nacional, em todos os meios por onde passou, e que obteve vários êxitos com a sua escrita", reagiu o chefe de Estado numa nota divulgada no site da Presidência da República.

António José Seguro recordou Mário Zambujal como "orgulhosamente alentejano" e, tal como descrevia "nas suas palavras, 'um desalinhado'", a que se "juntava um sentido de humor marcante".

Lembrou o livro Crónica dos Bons Malandros como "um dos mais populares nos anos 80" e assinalou que Mário Zambujal foi "agraciado em 1984 com a Ordem do Infante D. Henrique". "Recebeu, ao longo da carreira, inúmeros prémios, entre eles o Prémio Gazeta de Mérito 2025, atribuído pelo Clube de Jornalistas, instituição que presidiu durante 14 anos", acrescenta-se.

O Presidente da República enviou "as suas sentidas condolências à sua família, amigos, ao Clube dos Jornalistas e demais colegas de profissão".

Já o primeiro-ministro afirmou: "Hoje despedimo-nos de Mário Zambujal - jornalista, escritor e contador de histórias que marcou gerações com o seu talento".

Luís Montenegro salientou a "forma de comunicar" de Mário Zambujal, que "cativava a atenção de quem o via e ouvia", referindo que "fez escola no jornalismo português". "O seu legado permanecerá na nossa memória coletiva", considerou o chefe do Governo numa mensagem publicada nas redes sociais. "Deixo em meu nome e em nome do Governo, as mais sentidas condolências à família e amigos".

A ministra da Cultura, Juventude e Desporto lembrou um "escritor excecional e talentoso, uma inspiração para várias gerações".

"Além da literatura, também deixou uma distinta marca criativa no jornalismo, na rádio e na televisão", escreveu Margarida Balseiro Lopes nas redes sociais, onde enviou "sentidas condolências" à "família, amigos e leitores".

O presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, também usou as redes sociais para homenagear o jornalista e escritor. "Partiu Mário Zambujal e, com ele, uma dessas raras ironias luminosas que sabiam rir de Portugal sem nunca o trair", referiu.

"Ficamos mais pobres em graça e elegância, daquelas que não fazem ruído, mas deixam eco, como a palavra bem dita", lamentou Moedas, que diz despedir-se "de um contador de histórias". "Amanhã voltaremos a encontrá-lo onde verdadeiramente vivem os escritores: na memória viva dos leitores", acrescentou.

Com a morte de Mário Zambujal, "perde-se mais um pouco da nossa cultura", lamentou Ana Catarina Mendes, eurodeputada do PS.

"Guardo o seu sorriso aberto, a sua gentileza e os livros que fazem parte da minha estante", escreveu numa mensagem divulgada nas redes sociais, onde recordou o primeiro livro de Mário Zambujal que leu.

Na mesma publicação, Ana Catarina Mendes lembrou a sua participação no programa Quem Conta um Conto, apresentado por Mário Zambujal e Rita Ferro. "Comprovei que a sua amabilidade, inteligência e sensibilidade eram genuínas, tal qual as palavras escritas por si", referiu.

"O programa consistia na escrita de um conto, em cinquenta minutos (que o meu amigo Bruno Ramos escreveu) e uma prova de gramática que me calhou a mim. Ganhámos o concurso. Ficou-me dessa experiência o gosto de Mário Zambujal pela língua portuguesa e pelo rigor da escrita", lembra a eurodeputada.

Homenagem junto a mural em São Domingos de Benfica

A junta de freguesia lisboeta de São Domingos de Benfica, onde o escritor e jornalista residia, expressou "profundo pesar" com a morte de Mário Zambujal, "uma figura incontornável da vida cultural portuguesa, com um percurso marcante no jornalismo e na literatura".

"Ao longo de décadas, conquistou o respeito e a admiração de leitores, colegas e de todos os que acompanharam o seu trabalho", lê-se na nota divulgada.

Recorda-se ainda que na freguesia de São Domingos de Benfica, a 5 de março de 2022, "foi inaugurado um mural de homenagem em seu nome, celebrando o seu percurso e a sua importância cultural". Também a Casa da Cidadania tem uma sala com o nome de Mário Zambujal, "símbolo do reconhecimento pelo contributo que deu à cultura e à sociedade".

"A sua partida deixa um vazio no panorama cultural português, mas a sua obra e o seu legado permanecerão na memória coletiva", indicou ainda a junta de freguesia, que anunciou para esta tarde, às 15h00, uma homenagem junto ao moral dedicado a Mário Zambujal.

João Malheiro, comentador e conhecido adepto do Benfica, também lamentou a morte de Mário Zambujal. "Perco um enorme e singular Amigo, grande escritor, indefectível benfiquista", escreveu nas redes sociais, tendo expressado "sentido pesar a familiares, amigos e admiradores".

Nascido em Moura, Beja, a 5 de março de 1936, Mário Zambujal foi jornalista desportivo na RTP, no jornal A Bola, sub-diretor do Record, tendo sido chefe de redação de O Século e do Diário de Notícias e diretor do Mundo Desportivo, do jornal Se7e e diretor interino do semanário Tal & Qual, tendo sido colunista do diário 24 Horas

Passou também pela rádio, com destaque para o programa Pão com Manteiga, da Rádio Comercial, e escreveu guiões para televisão e peças de teatro de revista.

Aos 15 anos publicou o primeiro conto no semanário Os Ridículos, mas a estreia literária surgiu em 1980 com Crónica dos Bons Malandros, que foi mais tarde adaptada ao cinema por Fernando Lopes. A obra viria ainda a dar origem a uma série de televisão realizada por Jorge Paixão da Costa e a um musical.

Três anos depois de publicar Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal lançou Histórias do Fim da Rua e, em 1986, À Noite Logo se Vê. Assinou muitas mais obras como Fora de Mão, uma coletânea de contos e crónicas, Primeiro as SenhorasUma Noite Não São DiasDama de EspadasLonge É um Bom LugarCafunéO Diário Oculto de Nora RuteSerpentinaTalismãRomão e JulianaJá Não se Escrevem Cartas de AmorEntão, Boa NoiteRodopioFabíolo e Pirueta.

Em 2025, foi publicado o seu mais recente livro, intitulado O Último a Sair, e nesse mesmo ano recebeu o Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, em reconhecimento pela "longa carreira jornalística, iniciada na década de 1960".

Presidente do Clube de Jornalistas entre 2007 e 2021, Mário Zambujal foi distinguido, em 1984, com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2016, com a medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa.

image-fallback
O futebol é "uma viagem ao estádio", "um jogo de tribos" e "viciante como um café"

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt