O escritor e arquiteto paisagista Júlio Moreira, 94 anos, morreu no domingo, na sua residência em Lisboa, disse esta segunda-feira à agência Lusa um familiar..Júlio Moreira "teve uma vida plena e cumpriu os seus dois últimos desejos: celebrar os 50 anos do 25 de Abril e os 50 anos de um amor intenso com [a galerista] Ana Viegas", afirma a família em comunicado..O velório realiza-se na próxima terça-feira, a partir das 15:00, no Cemitério de Carnide, que projetou com o arquiteto Carlos Guedes de Amorim, "com uma cerimónia especial às 19:00"..A cremação realiza-se na quarta-feira às 11:30, no mesmo cemitério..Júlio Moreira nasceu em Lisboa, em 29 de dezembro de 1929, foi engenheiro agrónomo e arquiteto paisagista, mas manteve paralelamente uma atividade literária, como tradutor e escritor..Publicou oito romances, entre os quais "A Barragem", distinguido com o Prémio P.E.N. Clube, e vários contos em antologias e revistas..Alguns dos seus livros encontram-se editados no Brasil e Alemanha..A par da ficção publicou obra ensaística, como "A Borges o que é de Borges", na sequência de uma entrevista ao escritor Jorge Luís Borges, em Buenos Aires, e "A Inquietação do Tempo na Obra de Rilke", sobre o escritor de língua alemã, autor de "As Anotações de Malte Laurids Brigge"..Júlio Moreira também foi autor de livros didáticos e de ficção infantil entre os quais "A Grande Viagem dos Homens" (2010), que faz parte da lista de obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura..O seu último romance publicado em vida, "O Dia Claro", data de 2011..Da sua bibliografia refira-se ainda "Notícias do Labirinto" (2005) e "Dentro de 5 Minutos" (2002)..A Fundação Calouste Gulbenkian, no seu 'site', recorda o seu trabalho como arquiteto paisagista, em particular a participação na 2.ª Exposição de Design Português, promovida em 1973, com a exposição "Landscape Design", organizada pelo seu atelier, Paisagem Lda.."Landscape Design", como a Gulbenkian indica, é "considerada a primeira manifestação consistente duma consciência ecológica em Portugal.".Júlio Moreira escreveu o livro "O Mundo é a Nossa Casa" no âmbito desta exposição, com desenhos da cenógrafa e designer Cristina Reis..Na altura, "este livro foi apreendido e destruído por ordem de Marcelo Caetano, à época chefe do governo", acrescenta a Gulbenkian, sobre este ato do último ano da ditadura.."O Mundo é a Nossa Casa" teve uma nova edição em 2009..No percurso de Júlio Moreira como arquiteto paisagista, a Gulbenkian enumera ainda intervenções em espaços industriais, como as áreas envolventes do bairro operário A Tabaqueira (1966), colaborações em planos sobre espaços de interesse patrimonial, como o plano de reconversão do Mosteiro de Alcobaça (1995), e projetos em torno de espaços reservados, como aconteceu com os cemitérios de Carnide (1985) e do Lumiar (1999), em Lisboa..Em 2012, com o encerramento do seu atelier, Paisagem Lda, Júlio Moreira confiou o seu espólio à Gulbenkian. Pertence agora ao acervo da Biblioteca de Arte e Arquivos desta fundação, "estando atualmente em fase de tratamento documental", indica a instituição..O curador e administrador da Fundação EDP, José Manuel dos Santos, sobre Júlio Moreira, afirma: "Escritor, quis imaginar o tempo que viveu para o entender melhor. Paisagista, procurou nos jardins da vida e da morte uma harmonia que o seu amigo José de Almada Negreiros buscava nos números e nos seus mistérios inumeráveis. Cidadão, foi sempre fiel a um impulso de tornar o mundo mais habitável e mais justo", lê-se no comunicado divulgado pela família..No mesmo comunicado, o escritor Helder Macedo dá conta do seu pesar e escreveu: "Saudações ao Júlio, o escritor, o construtor de paisagens renovadas, o lutador do impossível, o amigo de sempre e para sempre".