Maria Alzira Seixo morreu na madrugada desta terça-feira, 20 de janeiro, em Lisboa. Nasceu no Barreiro, no dia 29 de abril de 1941, e teve um percurso literário, ensaístico e académico ligado à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A amiga de há mais de três décadas e antiga presidente do P. E. N. Clube Português, Teresa Martins Marques, explicou ao DN como seguiu "todo o percurso literário da nossa querida Maria Alzira, não só o nacional como o internacional, na Associação Internacional dos Críticos Literários, os seus estudos pioneiros em Portugal sobre o estruturalismo". "A sua bibliografia começa em 68 com a A expressão do tempo no romance português contemporâneo", lembra a também professora de Litertura e Cultura Portuguesa, acrescentando que chegou a ser aluna de Maria Alzira Seixo "num mestrado de literatura francesa". "E continuámos amigas para sempre", sublinha.Para além de Discursos do Texto, de 1977, Maria Alzira Seixo era também poeta, mas só às vezes. "Uma poeta, como ela dizia, bissexta. Estou a pensar em Letra da Terra, que é um livro de 1983", explica Teresa Martins Marques.Com três páginas dedicadas na Enciclopédia Biblos, Maria Alzira Seixo é recordada por Teresa Martins Marques como "uma ensaísta de alto gabarito", que escreveu também "os melhores textos" sobre "o primeiro Saramago, ainda antes do Nobel, que não tinha a divulgação que depois teve. A mesma coisa sobre o Lobo Antunes", completa a professora."Era uma figura notável do ponto de vista académico", continua Teresa Martins Marques, enquanto elenca os vários prémios que Maria Alzira Seixo recebeu ao longo da vida, incluindo "o prémio do P. E. N. Clube, justamente sobre A palavra do romance. Ensaios de genologia e análise, em 1986"..Membro da Academia Europaea, Maria Alzira Seixo recebeu distinções como o Prémio Jacinto do Prado Coelho, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, e condecorações como a de Dama da Ordem das Palmas Académicas de França, em 1981, Oficial da Ordem das Palmas Académicas de França, em 1987, e a de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 2007."Um percurso extraordinário. Nos últimos anos, infelizmente, a doença de Alzheimer impediu-a completamente de continuar este percurso", lembra Terea Martins Marques antes de revelar o último trabalho de Maria Alzira Seixo, escrito consigo a quatro mãos e publicado em 2021, pela Gradiva: Os Dias da Peste."Deve ter sido a última colaboração que ela fez", conclui."Uma das mais críticas deste absurdo chamado Acordo Ortográfico"O DN conversou com o ensaísta, poeta e professor António Carlos Cortez, que recorda Maria Alzira Seixo como "uma das grandes figuras da universidade portuguesa"."Ela projetou a literatura portuguesa em várias universidades estrangeiras e eu gostaria, talvez, de dizer que a Maria Alzira Seixo, para além do seu trabalho como ensaísta, é uma docente que deixou uma marca indelével nos seus discípulos e a prova disso mesmo foi a coleção de textos literários que ela coordenou ao longo de várias décadas, desde os anos 70 até o início dos anos 90", descreve António Carlos Cortez, que trabalhou com a professora de Lietaratura Portuguesa no Plano Nacional de Leitura."Ela, de facto, encarnava uma figura de professor universitário, de intelectual, que eu julgo que hoje está em crise", analisa António Carlos Cortez, enquanto descreve Maria Alzira Seixo como "uma pessoa muito respeitada", cujos "estudos são absolutamente fundamentais para quem quer ensinar língua, cultura e literatura a sério".Numa outra nota, lembra o professor, Maria Alzira Seixo "não cedeu perante o absurdo do atual Acordo Ortográfico. Foi com o Vasco Graça Moura, entre outras vozes, uma das mais críticas deste absurdo chamado Acordo Ortográfico, que está hoje, enfim, em vigor, e que tanto mal tem feito no ensino da língua aos nossos estudantes nos últimos 20 anos."Uma "vida literária com paixão"O DN conversou com o escritor, poeta e diplomata Luís Filipe Castro Mendes sobre Maria Alzira Seixo, que a recordou como alguém muito próxima "dessa geração neorrealista" – uma referência a nomes como José Gomes Ferreira – que "dialogava com todas as figuras importantes da literatura portuguesa. Ela acompanhava não só a literatura portuguesa, também era júri de prémios internacionais", lembra o também antigo ministro da Cultura do primeiro Governo de António Costa."Tem estudos fundamentais sobre os grandes narradores portugueses. Acompanhou a vida literária com paixão, exigência e rigor e introduziu em Portugal os estudos de literatura comparada", lembra Luís Filipe Castro Mendes, referindo, sobre a professora, "uma escola comparatista que tem dado excelentes trabalhos, excelentes contribuições para um melhor conhecimento da nossa literatura".Maria Alzira Seixo, depois de concluir a Licenciatura em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, passou ainda pela École Pratique des Hautes Études, em Paris, com Roland Barthes, que foi co-orientador do seu doutoramento, e sob supervisão do linguísta de origem lituana Algirdas Julius Greimas. Maria Alzira Seixo frequentou em simultâneo, na École Normale Supérieure, as aulas professor de filosofia húngaro Tzvetan Todorov, do psicanalista Jacques Lacan e da escritora, psicanalista e teórica feminista francesa de origem búlgara Júlia Kristeva.."O Malhadinhas" em nova edição com prefácio inédito de Maria Alzira Seixo