O punk não está morto e André Henriques e Quim Albergaria da banda Mães Solteiras - que esta semana sobe ao palco para dois concertos, no Porto, a 16 de janeiro, e em Lisboa, no dia 17, pela primeira vez neste formato, apesar dos mais de 30 anos que os músicos trazem no currículo - asseguram ao DN que são agora mais punk do que alguma vez foram. Com 13 músicas vertidas num álbum acabado de cozinhar, intitulado Vamos Ser Breves, os Mães Solteiras partilham a lucidez que angariaram ao longo da vida e transformam-na numa palavra de luta, que é nítida nos nomes de algumas músicas, como Alcindo, Recursos Humanos, Tu És Bué ou Sala de Espera. É um álbum que aparece sob a forma de sinal dos tempos André Henriques, Joaquim “Quim” Albergaria, Pedro “Gaza” Cobrado e Ricardo Martins formam este quarteto que está longe de ser estreante nos palcos, ainda que a banda o seja. Entre os quatro, são mais de uma dúzia de bandas que vêm agarradas a esta, como Linda Martini, Paus, Vicious Five, Adorno e Pop Dell’Arte, que aparecem em lugares cimeiros numa lista aparentemente interminável.Sobre o nome quase improvável, porque são quatro homens, André Henriques explica que “estava escrito numa parede e, por alguma razão”, foi adotado. “Por piada”, retifica. “Mas mais do que a aparente ironia de uma banda só de homens se chamar Mães Solteiras - homens casados, pais - era mais a ideia de: ‘O que é que pode ser mais punk rock do que alguém criar um filho sozinho?’”, questiona o guitarrista, que garante que o nome não é a apropriação do lugar de ninguém na sociedade..“Foi uma coisa tão simples como ver uma coisa escrita numa parede e aquilo ressoar em nós, uma ideia de força, e que era aquilo que queríamos fazer: canções intensas, coisas apertadas. E achámos que o nome casava bem”, descreve, como se a intenção não coubesse no próprio nome.Quim Albergaria acrescenta ao rol de sentimentos que o nome da banda evoca “desespero” e “força de amor”.“Tudo feito sem hipótese de recurso. Isso é que é punk rock. O que tem de ser, tem muita força. E a mãe solteira é um símbolo maravilhoso disso”, descreve, com emoção.Tendo em conta que, tal como o hip-hop, o punk não é uma afirmação estética, é uma forma de ser, o DN perguntou aos dois músicos se são punk, verdadeiramente. A resposta, imediata e sincera, descreve a música da banda e as vidas que estão atrás dela.“Eu acho que sou punk”, assumiu Quim Albergaria com a certeza de que o era, porque, no final, justificou: “No sentido que o meu trabalho é independente.” “Criei uma comunidade à minha volta para trabalhar e fazer as coisas que eu preciso de fazer. Sustento a minha família dessa forma. Há um cuidado de tratar com respeito as pessoas com quem trabalho. E dignamente, e fazê-lo honestamente. E há sempre uma vontade de fazer. E o fazer é sempre mais importante que outra coisa qualquer. Nesse sentido, sim, sou punk”, remata.A memória de Alcindo e as outras preocupaçõesEntre as músicas, que refletem as preocupações de quem as faz, aparece um nome: Alcindo. E, ao ouvir o tema correspondente, entra um refrão tão incisivo como a história que retrata: “Os meus carrascos ninguém vai lembrar”, explica André Henriques, aludindo a Alcindo Monteiro, um jovem de 27 anos, português, nascido em Cabo Verde, que no dia 10 de junho de 1995 foi assassinado no Bairro Alto, em Lisboa. “É uma frase difícil, porque também é importante lembrar esses carrascos, mas é uma canção muito dura. E se calhar é uma das canções... Lá está, menos punk na forma”, explica o músico.A canção não poderia ter ficado fora deste álbum, ainda que o álbum também não reflita “um caderno de intenções”, acrescenta Quim Albergaria, destacando a importância desta música pela “crueza, pela barbaridade” do crime que foi cometido contra Alcindo.“Começa como uma coisa que é um OVNI no meio daquele disco. Mas o tema se calhar é das canções mais punks que temos. É lembrar uma pessoa que foi vítima de um crime de ódio. Uma coisa horrível. E na verdade a canção surge-nos por causa de uma entrevista, já há muitos anos, com a Luísa, que é a irmã dele, onde diz exatamente a frase que é um refrão. “Mano, um dia eu hei de ser famoso”, relata Quim Albergaria, enquanto refere a outra ideia da vida do jovem assassinado: a sua paixão pela dança.Por tudo isto, completa o músico, “é uma coisa que deve ser lembrada. Uma vida interrompida. Uma pessoa que ia simplesmente dançar com os amigos.”Sobre as preocupações pessoais e urgentes, refletidas nas músicas, Quim Albergaria analisa um quadro geral, que, invariavelmente, tem como fulcro a sua filha de 14 anos e um futuro com mais dúvidas do que certezas.“A questão da habitação. A questão da mercantilização do nosso contrato social. De repente, ouvir o nosso primeiro-ministro dizer que quer começar a doar hospitais para a gestão privada. O facto de nós fazermos contas todos os anos e não conseguimos comprar uma casa em Lisboa, que é cidade onde a gente vive. E como é que vai ser isso para ela?”, observa o músico, antes de elencar as incertezas que o futuro reserva para muitos pais.“Como é que é juntar dinheiro para ela e não haver juros e ter de pensar noutras coisas? E querer acreditar numa escola pública e social e ver esse serviço, que é fundamental para um futuro contínuo, ser sabotado por questões de má gestão do nosso Governo? Ver mentecaptos racistas, sexistas, homofóbicos a terem tempo de antena todos os dias, a contaminar a imagem mental daquela miúda?”, diz Quim Albergaria com serenidade, apesar das palavras não o sugerirem.O primeiro concerto dos Mães Solteiras acontece já no dia 16 de janeiro, no Porto, na Sala M.Ou.Co, e o segundo, no dia seguinte, em Lisboa, na Casa Capitão. Apesar destes dias antecederem as eleições presidenciais marcadas para domingo, dia 18, os músicos garantem que é pura coincidência de datas, até porque o disco era para acontecer mais cedo, e isso só não aconteceu por uma questão de calendarização e de disponibilidade de salas.Porém, não há um afastamento político face ao que o país atravessa, ainda que, como refere André Henriques, fazer estes concertos surge como uma oportunidade para os músicos estarem “juntos com as pessoas que querem ouvir as canções”. Além disso, explica, “as canções falam sobre temas que nos preocupam, e muitos deles também devem preocupar quem for eleito para o cargo” de Presidente da República.No fundo, conclui Quim Albergaria sobre a perspetiva política da banda: “Somos cidadãos e democratas e acreditamos no sistema. Quer dizer, não somos todos. Na verdade, temos um anarquista. Um anarquista convicto.”Entre Zeca Afonso e Black SabbathA origem de Mães Solteiras remonta aos concertos de punk hardcore do Ritz Club, na Rua da Glória, ou no bar Juke Box, na Rua do Diário de Notícias, no Bairro Alto, mas os quatro músicos transportam consigo outras memórias, que terão influenciado também o som das outras bandas que criaram ao longo destes 30 anos.A primeira banda referida por Quim Albergaria foi Black Sabbath, de Ozzy Osbourne, mas três décadas de músicas levam a que haja muitos universos, que desembocaram no punk, agora e desde sempre.Para abordar as influências, o músico destaca a importância da “função da capacidade elevatória de um refrão”. .“Foi importante e é super importante para aquilo que estamos a fazer em Mães Solteiras. E aí há várias coisas, desde Beatles, Zeca Afonso, Carlos Paião e António Variações”, refere, antes de mergulhar em universos como os do disco I Against I, da banda norte-americana Bad Brains, ou do punk de Minor Threat.André Henriques acaba por trazer à discussão José Mário Branco, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, e “essa malta toda, mas depois também há música brasileira”, como é esperado de quem nasceu perto da década de 70 do século XX.Em comum, os dois músicos recordam o punk dos portugueses X-Acto, que mais tarde deram origem aos Sannyasin, uma das bandas mais emblemáticas do final dos anos 90, até à morte do vocalista, Rodrigo Barradas.Agora, os músicos voltam aos palcos do punk, apesar de considerarem que “fazer uma banda depois dos 40 não é coisa pouca”, principalmente porque “quando tens 17 anos e estás prestes a entrar para a faculdade tens dias livres tens manhãs livres, não tens dependentes, não tens de pensar em pagar as contas”, conclui André Henriques..'Uma Brancura Luminosa' junta Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira no palco do Variedades .Conheça 'Calypso', o mural em Lisboa que está nomeado a melhor arte urbana do mundo