Perante a estreia de um documentário tão especial, tão carregado de factos e emoções, como é Memórias do Teatro da Cornucópia, talvez possamos dizer que os espetadores se dividirão em dois grupos (não necessariamente opostos). Os mais velhos terão conhecido o trabalho do Teatro da Cornucópia a partir de 1973, data da respetiva fundação por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo; os outros tomaram conhecimento desse trabalho mais tarde, em particular nos tempos finais, até ao seu encerramento em 2016.Entenda-se: não há espetadores “melhores” ou “piores” que outros. Mas é um facto que, em 1975, menos de um ano depois do 25 de Abril, a “aparição” da Cornucópia no Teatro do Bairro Alto (onde a companhia permaneceu até ao final) contribuiu para redefinir toda uma geografia cultural. Situado, afinal, para lá das fronteiras tradicionais do Bairro Alto, na Rua Tenente Raul Cascais, nº 1-A (perto da Faculdade de Ciências e da Imprensa Nacional, na Rua da Escola Politécnica), o Teatro da Cornucópia nasceu e viveu fiel aos seus ideais de independência artística.A realização de Memórias do Teatro da Cornucópia pertence a Solveig Nordlund, cineasta portuguesa nascida em Estocolmo, com uma trajetória criativa que nunca foi estranha a esse peso paradoxal dos lugares na existência das personagens, seu imaginário e imaginação. Lembremos a sua estreia na ficção com a média-metragem Nem Pássaro Nem Peixe (1977), com Luís Miguel Cintra e Lia Gama, e também o belíssimo documentário O Meu Outro País (2014), revisitando as memórias da sua mudança da Suécia para Portugal, com passagem por Paris. . Memórias do Teatro da Cornucópia é isso mesmo que o título anuncia: um inventário recheado de preciosas memórias de arquivo para redescobrirmos como um espaço tão singular, não concebido para albergar uma companhia teatral, se consolidou como fascinante território de trabalho e pensamento (a ponto de as palavras “trabalho” e “pensamento” surgirem como sinónimos). Sem esquecer que Solveig Nordlund foi também uma companheira cinematográfica da companhia, tendo filmado, por exemplo, esse prodigioso espetáculo intitulado E Não Se Pode Exterminá-lo? (1979), de Karl Valentin — não por acaso, são as suas imagens que servem de pontuação inicial e final ao documentário.Há em Memórias do Teatro da Cornucópia algo de um exercício coral. Desde logo com vários depoimentos através dos quais Jorge Silva Melo é recordado (alguns ainda do tempo da televisão a preto e branco). Entretanto, descobrimos Luís Miguel Cintra, de costas, numa imagem caseira (dir-se-ia o lugar a partir do qual se tornou possível reorganizar a avalanche da memória), imagem que regressa perto do final. Um pouco mais tarde surge o testemunho de Cristina Reis, cenógrafa decisiva para a “revolução interior” da Cornucópia, partilhando a direção com Luís Miguel Cintra depois da saída de Jorge Silva Melo, em 1980 — em Lisboa, Solveig Nordlund estará presente em duas sessões do Cinema Ideal: esta quinta-feira, às 18h45, com Cristina Reis; sábado, às 16h45, com atrizes e atores do Teatro da Cornucópia; no Cinema Trindade, no Porto, a realizadora e Luís Miguel Cintra estarão na sessão de segunda-feira, dia 30, às 19h15. . Cinema & teatroHá qualquer coisa de saborosamente primitivo nesta relação de um olhar cinematográfico com um tão rico e variado património teatral. De facto, muito mais do que se esgotar num efeito de “reportagem”, a subtil montagem (assinada por Paulo MilHomens) organiza os arquivos muito para lá do vício televisivo de uma banal acumulação informativa — em última instância, trata-se de dar a conhecer um projeto teatral que trabalhou para iluminar e enriquecer o conhecimento do mundo à nossa volta.Como Luís Miguel Cintra recorda, a Cornucópia acabou, não por “querer” acabar, mas porque falhou a hipótese de repensar as “condições” da sua própria existência. O que é também revelador da genuína dimensão política das questões que o filme de Solveig Nordlund relança no desencanto do nosso presente..Para redescobrir Marcel Pagnol.Nas linhas cruzadas do Entroncamento