Como acontece com o trabalho de vários cineastas obsessivos, a obra de Abdellatif Kechiche (francês de origem tunisina, nascido em Tunes, em 1960) seduz-nos pela persistência dos seus contrastes melodramáticos. Ele conta-nos histórias de amores desencontrados em que os corpos e, por vezes, as imagens cruas da sexualidade podem ter tanto de verdade transparente como de indecifrável estranheza. Assim volta a acontecer com Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo, revelado no Festival de Locarno de 2025, esta quinta-feira, 16 de abril, lançado nas salas portuguesas.O novo título envolve uma assumida contradição, já que este Canto Segundo é, de facto, o derradeiro título de uma trilogia iniciada com Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro (2017) e continuada com Mektoub, Meu Amor: Intermezzo (2019). Tudo gira em torno de uma comunidade familiar da cidade costeira de Sète, no sul de França. Embora sem ser uma verdadeira personagem central, o jovem Amin (Shaïn Boumedine) emerge como um polo decisivo, aliás prolongando peripécias dos filmes anteriores — depois dos estudos em Paris, ele está de regresso a Sève, continuando a alimentar o sonho de fazer filmes.Resta saber se Kechiche ainda se interessa, realmente, pelas convulsões vividas pelas suas personagens, ou se está apenas a reproduzir uma “assinatura” autoral gerada por aquele que é, para todos os efeitos, o seu filme mais brilhante: A Vida de Adèle, Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013. Por um lado, persiste a capacidade de filmar os atores como num “bailado” de muitas formas de sensualidade, não necessariamente através da exploração da nudez, antes enredando-os numa teia de olhares que transportam desejos múltiplos, porventura indizíveis. Por outro lado, a entrada de um novo casal — um produtor e uma atriz de Hollywood que poderão promover a concretização de um argumento original de Amin — não ajuda muito, já que a sua dimensão caricatural parece não pertencer ao mesmo filme. Aliás, na sua agitação algo postiça, o inesperado final “policial” surge como um truque esquemático para abrir a possibilidade de a trilogia não terminar aqui...Adepto das filmagens com a câmara à mão, Kechiche preserva uma dimensão que esse tipo de opção (técnica e narrativa) raras vezes consegue. A saber: a criação de um espaço de movimentos físicos em que cada personagem surge como um ator incauto de uma comunidade tão forte na sua identidade cultural como vulnerável às suas fissuras emocionais. O que, enfim, não impede a sensação de que algo se esgotou nesta visão de Sève, do brilho dos seus dias e dos mistérios das suas noites..'De que Casa És?'. Como reorganizar todas as memórias?.'La Grazia'. A política é uma arte da solidão