Marte aqui tão próximo e íntimo

O circuito dos festivais exultou com O Espaço entre Nós, de Alice Winocour, conto sobre uma missão a Marte na perspectiva de uma astronauta. Trata-se de uma das grandes estreias desta temporada. O DN foi a Paris falar com a realizadora, corpo estranho no atual panorama do cinema francês.

Viajar pelo espaço sem explosões nem batalhas inter-galácticas. Em O Espaço entre Nós a aventura é apenas humana, humaníssima, toda ela toldada pelas emoções de uma mãe que antes de partir em missão espacial por Marte prepara a filha de oito anos para essa separação. Uma astronauta não evita o instinto maternal mas a preparação e os treinos desta equipa espacial que junta gente de todo o mundo é material atmosférico de cinema, mesmo quando muitas vezes aposta num realismo e numa enorme crença no detalhe.

Essa aposta é de uma realizadora, Alice Winocour, alguém que tenta configurar uma certa suavidade feminina neste olhar perante um mundo com gravidade zero, alguma linguagem técnica e uma frieza nos procedimentos. Alice, cineasta cuja carreira parece denotar uma vontade de fazer um cinema global, bem longe dos territórios comuns de um certo cinema francês contemporâneo. "Não conheço nada do mundo do espaço, a única coisa que tenho é um fascínio. Um fascínio quase poético e que vem da minha infância. Depois, acabei por me interessar de facto pelos astronautas, por todo esse mundo...Quando visitei a Estação Espacial Internacional, em Colónia, encontrei um universo desconhecido. Fico com a impressão que para fazer um filme tenho de me projetar nos universos que desconheço", conta a realizadora ao DN.

Vencedor do prémio especial do júri no Festical de San Sebastián, Proxima (título original), narra os preparativas do treino de uma astronauta prestes a ir para Marte com uma equipa internacional. São narrados os preparativos, os testes e a pressão para uma missão que envolve esforços físicos e emocionais baseados em factos verídicos, embora o cerne da história esteja na relação entre a astronauta e a sua filha. O maior teste psicológico da astronauta é seguramente poder assumir essa separação entre aquilo que mais ama e o desejo da conquista especial. Uma astronauta interpretada por uma Eva Green impecável, atriz de todas e mais algumas gamas de emoções e que aqui é um poço de força e subtileza. A atriz que foi lançada por Bertolucci em Os Sonhadores parece estar aqui no pique da sua forma, tendo sido inclusive nomeada ao César de melhor atriz.

O tema do filme é a separação, algo que define sempre a vida dos astronautas, mas é também a separação interior. Nesse sentido, Alice Winocour propõe uma reflexão acerca da nossa necessidade de sairmos de nós mesmos. Mais estimulante é ainda a forma como a condição feminina é filmada com uma naturalidade sem exposição excessiva, quase como um sopro secreto. A força e vulnerabilidade desta mulher atraída por um espírito de missão não é manifesto, mesmo quando é de uma sensibilidade que certamente nenhum homem poderia dissecar desta maneira tão sensorial.

Se este é um filme de ambiências e de total dependência de uma banda-sonora que nos faz levitar, a realizadora francesa alerta que as suas influências vêm de David Lychn e de David Cronenberg: "esses são os cineastas que me inspiraram. Eles faziam filmes sensoriais e aqui quis fazer algo que se parecesse como uma experiência física e que tivesse uma relação com o corpo. Cinema carnal? Diria que sim pois o corpo diz-nos algo que as palavras não encontram. O que é mais fascinante no cinema é conseguir traduzir aquilo que as palavras não conseguem".

Com uma carga existencial também suava mas sempre determinante, O Espaço entre Nós não se lambuza na extraordinária banda-sonora de Ryuchi Sakamoto, antes pelo contrário; só recorre a esta música de boleia para um estado de transcendência apenas quando é mesmo necessário. E quando sentimos o seu efeito já estamos transportados para uma órbita perfeita para descrever a culpa da mãe que não está com a filha ou o peso sublime de estar próximo do espaço.

Quando Alice Winocour sabe do título português fica algo espantada mas não refila: "Na verdade, é um filme sobre a distância mas é muito mais do que isso - acaba também por ser uma história de liberdade". E nessa relação de dependência de mãe e filha há um tratamento espiritual com uma tomada conceptual do qual saem momentos de cinema muito fortes. Que o filme não tenha sempre a essa mesma pedalada é algo que um argumento com alguns nós cegos não chegou a resolver. Ainda assim, Proxima está muito próximo de um encantamento parecido àquelas caixas de música que hipnotizam. Ajuda muito que encontremos um Sakamoto inspirado, uma Eva Green maternal e um Matt Dillon sóbrio.

Alice Winocour, depois deste sucesso, tem as portas abertas a poder continuar a fazer um cinema "internacional", um pouco como a missão que encena nesta obra. "Não sei se me sinto isolada no cinema francês, mas é certo que os cineastas estão todos postos numa caixa. Eu estou na caixa dos cineastas que não têm caixa. Efetivamente, é como na escola: não me sinto no grupo principal".

*** Bom

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