A conversa com Mario Cucinella acontece na Faculdade de Belas Artes (depois do encontro com alunos, com participação do professor Raul Cunca) e começa logo pelo tema da italianidade do pavilhão que o arquiteto concebeu para a Expo Osaka, de 2025, premiado pela Bureau International des Expositions. “Sim, podemos dizer que foi uma homenagem a Itália a forma como este pavilhão foi feito. É como um grande salão renascentista com o teto de madeira. Lembra-me um palácio italiano. Existem alguns elementos que representam a Itália. Um deles são as arcadas. Ao entrar, é como se estivesse numa festa italiana. E depois pode ver um teatro. O teatro é uma das partes mais importantes da história de Itália. Muitas culturas reúnem-se no teatro. Não apenas em La Scala, em Milão, e teatros das grandes cidades. Também na aldeia, onde as pessoas aprendem sobre ópera, aprendem sobre teatro. E o teatro é um local de acolhimento, de boas-vindas, e isso é uma metáfora dos italianos. Quando se vai a Itália, vai-se ao teatro. E então o teatro abre-se como um palco. E depois podemos encontrar uma grande piazza. E a piazza está repleta de arte”, explica o arquiteto, que esteve em Lisboa por iniciativa da embaixada italiana para participar no Italian Design Day, integrado na Lisbon Design Week..No centro da piazza do Pavilhão de Itália estava realmente arte. “Havia o Atlas Farnésio. Havia um Tintoretto. E havia também a nova infraestrutura tecnológica italiana. E lá estava ainda o Pavilhão do Vaticano, com uma das mais belas pinturas de Caravaggio. A Deposição de Cristo foi concebida para ser colocada numa igreja, numa posição elevada. Mas não tínhamos espaço, por isso colocámo-la no chão. E a altura do quadro é o tamanho de uma pessoa. Assim, pode-se realmente ver a pintura de Caravaggio de uma forma muito invulgar”. Foi a primeira vez que o Vaticano teve um pavilhão dentro do pavilhão italiano, sublinha.Cucinella, siciliano (nasceu em Palermo, em 1960), formou-se em Arquitetura pela Universidade de Génova e hoje a sua empresa tem sedes em Bolonha e Milão. E se é capaz de homenagear as Itálias Clássica e do Renascimento, é igualmente um arquiteto virado para a Itália do futuro, a da indústria, da tecnologia e também, sempre, do design. Foi da sua cabeça que nasceu o e-building da Ferrari, em Maranello. “É uma fábrica de carros elétricos. O interessante neste edifício é que é quase todo em vidro. E parte do vidro é transparente, pelo que entra muita luz natural. Mas também porque a fábrica da Ferrari é limpa como um hospital. É perfeita por dentro, toda branca, super eficiente. Várias partes são transparentes, com jardins à vista. Porque as pessoas que trabalham na Ferrari são maioritariamente ali da zona. E quem é dali está habituado a ver os montes. E gosto da ideia de que as pessoas que trabalham na Ferrari, em algo tão tecnológico, quando estão a trabalhar, olhem para fora, e consigam ver as colinas, o verde das colinas. O vinho vem das colinas. A comida vem das colinas. Portanto, esta ligação entre o trabalho, os edifícios e a paisagem é muito, muito importante”, explica.Esta relação da arquitetura com a paisagem é algo que marca o trabalho de Cucinella, e está relacionado com a sua ideia de sustentabilidade, que já explicou até em livros: “No passado, ao longo da história, as construções sempre estiveram relacionadas com o local. Por razões climáticas, por razões energéticas. Porque o edifício não se resume apenas ao perímetro. Constrói-se um edifício, mas a sua função é muito mais abrangente. As pessoas entram e saem. Por isso, acredito que esta relação entre os edifícios e a envolvente é importante para fortalecer a relação entre os espaços públicos e os espaços privados”..Sobre a preocupação com a sustentabilidade, acrescenta que aquilo que faz “baseia-se no programa de redução do impacto da construção civil no contexto europeu. Menos 85% entre agora e 2050, o que é um plano muito ambicioso. Os edifícios representam quase metade do problema. 50% a 55% das emissões provêm dos edifícios. Por isso, é preciso ter cuidado quando se trabalha na produção do material e na construção, para reduzir o impacto da obra. E aí entra a inovação. A procura de materiais naturais”.Cucinella admite que o seu nome é hoje associado à longa atenção dada à sustentabilidade na construção de edifícios. Mas ser italiano, admite, traz vantagens: “acho que os arquitetos italianos, fora de Itália, têm a oportunidade de usar esta ideia de ‘Made in Italy’. De que algo ‘Feito em Itália’ é sempre algo bom. Fora de Itália, quando se fala em ‘Made in Italy’, as pessoas associam a moda, o design, os automóveis, os edifícios. Penso que temos uma vantagem histórica: associamos o nome de Itália e o ‘Made in Italy’ a coisas boas. E acredito que isto se aplica a tudo, quer se seja ou não um bom arquiteto, quer se seja ou não um bom designer, todos partem de uma atitude positiva, porque, afinal, está-se em Itália e é preciso ser bom. Nem sempre é verdade”.Há neste momento uma colaboração da Mario Cucinella Architects com uma empresa portuguesa, no Porto, e tudo tem que ver uma vez mais com novas tecnologias e materiais mais ecológicos. “Considero que a utilização da impressão 3D como tecnologia de ponta se traduz na redução do desperdício, ou melhor, na eliminação total do mesmo, uma vez que a máquina utiliza apenas o necessário. E é seguro, pois não há pessoas a circular com maquinaria, tudo é controlado por um computador. Além disso, existe uma nova geração de trabalhadores, que utilizam ferramentas digitais. Trabalham com cimento, mas controlam tudo através de dados. Por isso, acho que é uma tecnologia interessante para construir de forma rápida, segura e reduzindo o impacto ambiental”.Já que falamos do Porto, de onde são os dois arquitetos portugueses com o Prémio Pritzker, peço a Cucinella que me fale das suas referências. Realça logo a admiração que tem pelo compatriota Renzo Piano: “Trabalhei com Renzo Piano quando era jovem e ele é realmente uma referência para mim. Ele é um dos maiores. Ora, em Itália, quando era estudante, estudei muito os arquitetos italianos do período renascentista e a belíssima arquitetura das igrejas. Mas, na era moderna, acho que Renzo foi o arquiteto que me inspirou. Porque surgiu em 1970 e em 1980, e a sua visão estava virada para a tecnologia, a alta tecnologia. Depois, fomo-nos aproximando cada vez mais da arquitetura poética, mais virada para as pessoas e mais amiga dos materiais. Foi uma evolução bonita e realmente inspiradora”.Depois do elogio a Piano, também Prémio Pritzker, as palavras de apreço por Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura. “Bem, Siza é, sem dúvida, uma das minhas referências. Eu era estudante e já acompanhava o trabalho dele; é uma arquitetura muito delicada, muito genuína. Também gosto do trabalho do Eduardo Souto de Moura, espero ir jantar um dia destes com ele no Porto. Gosto da arquitetura portuguesa, tem um caráter muito forte. E um compromisso com o social que é muito importante. Vi uma exposição no Porto com os trabalhos de Siza desde o tempo em que era jovem. No novo museu, fez um excelente desenho, ficou muito bonito. Mas a sensibilidade de Siza não é apenas famosa pelas casas brancas, mas por muitos outros projetos, fruto de imenso talento”.Tal como Siza, Cucinella projetou escolas, hospitais e até igrejas. Diz serem um grande desafio estas últimas: “Eu desenhei uma igreja. E digo que projetar uma igreja é muito difícil, especialmente para os arquitetos italianos, porque as igrejas em Itália são lindíssimas, muitas delas do Barroco. Mas desenhei uma igreja no meio das montanhas, no sul do país. Estava a tentar perceber o que funciona melhor, qual era o ingrediente essencial de uma igreja. Para mim é a luz. Quando se entra na igreja, a luz é muito natural. É muito importante. E é também um lugar onde se vai com outras pessoas, mas principalmente vai-se para si mesmo. Depois precisa de encontrar um pouco de intimidade. Não se pode estar realmente numa igreja como se está num congresso. É preciso encontrar intimidade. E a igreja tem tudo a ver com isso. É muito moderna, mas é como um teto com uma luz translúcida, que difunde a luz. E, sabe, há alguns pormenores. Ir a uma igreja barroca é uma experiência intensa, com muitos mármores e outras coisas, por isso é preciso encontrar algo assim, mas mais moderno. Depois, o ingrediente principal tem a ver com a experiência física e emocional. Precisa de se conectar com o seu interior, precisa de vivenciar emoção. Já se vai à procura da oração, que é algo emocional, por isso é preciso encontrar um espaço e criar essa emoção. E é esse o papel da arquitetura”Termino a entrevista no Auditório Lagoa Henriques (onde está o modelo em gesso da estátua de Fernando Pessoa feita pelo escultor que hoje surge junto à Brasileira) com esta questão da luz. Pergunro se os seus projetos, que se enquadram na beleza da paisagem italiana, do verde intenso dos campos e do céu limpo, também podem funcionar nos países do norte? “Há uma bela história sobre um pintor do norte da Europa que pintava quadros azuis e muito frios. Depois chegou a Itália, e aí é tudo amarelo e dourado. E com um arquiteto é algo assim também. Assim, percebe a qualidade da luz, as cores, a temperatura. Precisa de projetar o seu edifício também para captar essa diferença”. E se for um arquiteto italiano a projetar na Escandinávia? “Tem tudo que ver com empatia, como disse na conferência. Precisamos de ser empáticos com o lugar e lidar com essa natureza diferente.”Nesta vinda a Lisboa, Cucinella participou também num debate no MAAT com a arquiteta Helena Botelho, centrado na regeneração urbana e no papel das cidades como laboratórios de sustentabilidade e inclusão. .Oito Pritzker num só lugar. Siza é um deles e o indiano Doshi o mais recente