Foram Fernando Schmidt e Christian Ibarzabal, os uruguaios autores da peça Radojka, que entraram em contacto com Marina Mota e não o contrário. “Recebi um email, tanto quanto me lembro, a dizer-me que esta peça já tinha sido representada em não sei quantos países e se eu teria interesse em fazê-la. Mandaram-me o original em espanhol e a adaptação para o português do Brasil, e depois eu fiz a minha para português de Portugal”, conta a atriz sobre o início deste projeto. A comédia estreou em agosto do ano passado, tem andado a ser apresentada em várias cidades do país e chega agora a Lisboa, ao Teatro Variedades no Parque Mayer, onde estará em cena de 4 a 28 de junho, de quinta-feira a domingo. Feito o contacto dos autores uruguaios, o que interessou a Marina Mota nesta peça? “Interessou-me o facto de ela ser uma comédia meio tétrica, com algum humor negro que eu nunca tinha feito. Abordamos assuntos muito fortes e tentamos desconstruir tudo isso. Abordamos muitas vezes a morte, mas falamos da morte de uma forma leve, que leva as pessoas a distraírem-se, foi isso que talvez me tenha aliciado.”Nesta história interpretada por Marina Mota, Rosa Villa e Diogo Chamorra, Glória e Lúcia são cuidadoras de uma idosa sérvia chamada Radojka, que vive em Portugal, longe da família. Tudo corre bem até um acontecimento imprevisto alterar a rotina, obrigando as duas mulheres a tomar um decisão “pouco convencional”.“Tratamos da Radojka por turnos e um dia acontece um trágico acidente, infelizmente, no meu turno, no turno da Glória. O que é que acontece nesta peça? Muitas peripécias”, assegura a atriz e encenadora desta produção. . A comédia, com música de Ménito Ramos, é da Marina Mota Produções, e sofreu algumas alterações em relação ao texto brasileiro. “Não só em relação à linguagem, aos termos utilizados, porque de facto há muitos termos no Brasil que nós não utilizamos cá, mas também umas pequenas alterações que eu fiz. Eu acho que eles não se vão zangar, não mexemos na estrutura da peça. Houve uma adaptação mais profunda nos últimos dez minutos, porque a minha personagem morria no final e eu não achei que fosse interessante, e então decidi manter-me viva”, diz Marina Mota sobre esta comédia que protagoniza. A atriz quer que as pessoas passem um bom bocado, mas também que saiam da sala de espetáculos a pensar sobre algumas questões. “Queremos antes de mais que as pessoas se divirtam e que depois também façam uma pequenina reflexão sobre os vários assuntos que abordamos”. Por exemplo, sobre “como são tratados os nossos mais velhos. Eu costumo dizer que não sabemos se a Radojka tem filhos, só saberemos se viermos ver a peça, mas se tem, será que se preocupam com ela o quanto deveriam? Falamos da forma como se negligencia, de facto, essa relação entre pais e filhos. Falamos do sistema nacional de saúde, da dificuldade que temos de encontrar um médico, da dificuldade de pessoas da minha faixa etária, acima dos 60 anos, encontrarem um novo emprego depois de perdermos um que é estável. Não ficamos a debater esses assuntos durante muito tempo. Abordamo-los, falamos deles durante dois ou três minutos e saltamos para outro assunto. E fazemos tudo isto de uma forma muito divertida”. Assuntos sérios que provocam gargalhadas, como nos habituou Marina Mota. A atriz, que diz que só os “distraídos” pensam que só faz comédia, lembrando que até no teatro de revista fez números dramáticos, admite que gosta mais de fazer rir. “Eu fico muito mais feliz quando acabo um trabalho divertido do que um trabalho com uma grande densidade dramática, porque me desgasta muito mais. E porque me traz para uma profundeza que nem sempre é agradável. Gosto mais de coisas leves, e mais agora, como o mundo anda, quero é rir-me”. Radojka foi apresentada pela primeira vez no Centro Cultural de Samora Correia no ano passado e tem percorrido vários cineteatros do país, onde, garante a atriz, tem sido recebida com sucesso. “Nós, felizmente, já temos grandes salas de espetáculos espalhadas pelo país inteiro. E eu sempre gostei muito de fazer itinerários e digressões, porque acho que o público que não está nos grandes centros urbanos tem, de facto, um carinho e uma forma de nos acolher muito especial. São mais efusivos, gostam de estar connosco, e eu própria gosto muito deste exercício de adaptar a peça cenograficamente a cada espaço.”A atriz elogia a existência de projetos artísticos que em cada vez maior número andam pelo país a levar cultura à população fora das grandes cidades, mas também considera que as produções são feitas muitas vezes à pressa. “Há muita companhia na estrada, o teatro está muito bem, a fazer-se em muitos lados, na música... Agora, o que eu acho é que é tudo muito mais descartável. Os projetos são todos muito imediatos a chegar, e também a desaparecer.” (ver entrevista ao lado).A última apresentação de Radojka, para já, está marcada para o Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, no primeiro fim de semana de agosto mas, sublinha Marina Mota, até ao final desse mês ainda poderá circular, altura em que terminará a carreira. . Marisa Mota: ”Perdeu-se o espírito de vamos fazer o melhor possível. Com muito brio, cada um no seu setor”Atriz, cantora e produtora, Marina Mota começou a vida artística a cantar fado ainda em criança, tempo que não esquece na contabilização dos anos de carreira. O fado levou-a à revista, tendo-se estreado há 46 anos, em 1982, no Parque Mayer, e nos anos 1990 tornar-se-ia figura televisiva, com programas como Ora Bolas Marina. A participação na peça Bravo 2023!, do Teatro Praga, valeu-lhe um Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz de Teatro em 2024. Também faz telenovelas, a últimas quais A Protegida, da TVI, onde interpretou a personagem Anita Moreno. Como é estar de volta ao Parque Mayer, ao renovado Teatro Variedades?Estar no Parque Mayer não deixa de ser maravilhoso, porque é um espaço que me diz muito, enquanto mulher, enquanto atriz, enquanto mãe. Estreei-me aqui enquanto atriz, foi aqui que a minha filha foi concebida, no Teatro ABC que já não existe. Foi aqui que conheci o meu ex-marido, o Carlos Cunha. Casámos num dia de folga, a uma segunda-feira, dia 20 de setembro. Portanto, isto tem tudo a ver com o meu crescimento enquanto pessoa e enquanto profissional. Agora, entrar aqui e ver aquele buraco, que não é um buraco, é um parque de estacionamento....Faz-me falta olhar para o fundo do Parque Mayer e ver o Teatro ABC. Entristece-me ver o estado em que se encontra, porque no meu tempo todos os teatros estavam a funcionar, havia muita vida, muito público, muitos restaurantes, muitos cafés, muitos colegas atores, havia pelo menos três companhias em simultâneo, e disso eu tenho saudades. .Já tem meio século de carreira. Que balanço é que faz? Faria tudo igual?Provavelmente, depois de saber algumas coisas, faria algumas coisas diferentes. Mas acho que as opções que fiz tornaram-me esta pessoa. Portanto, se eu tivesse feito outras escolhas, o caminho também não teria sido este. Isto para dizer que não, não me arrependo de nenhuma das escolhas que fiz e fazem parte da minha formação enquanto ser humano.Quer continuar a fazer teatro, televisão e cinema?Se me for permitido continuar a representar em todos os registros, no teatro, na televisão, no cinema, gostaria muito, enquanto me sentirem útil, enquanto eu puder servir esta arte e continuar a dignificá-la, gostaria muito de andar aqui mais uns aninhos. Mas, obviamente, não é uma escolha só minha. . Entre teatro e televisão, o que escolheria?As duas plataformas são importantes. Gosto muito de fazer televisão, mas não me despedir durante muito tempo do teatro. Porque o meu lado de atriz é daqui que vem. Embora, às vezes, os percursos sejam muito invertidos. Ou seja, conhecemos muitos atores que nunca pisaram umas tábuas. Mas a mim faz-me falta. Faz-me falta o contacto direto com o público. Faz-me falta sentir se a minha mensagem chega lá e de que forma. A caixinha é muito bonita, mas nós só sabemos isso depois de muitos dias ou muitos meses. O teatro não dispenso, mas também reconheço que a televisão é, sem dúvida, um dos maiores veículos promocionais e de divulgação do nosso trabalho e das pessoas saberem que nós estamos aqui e que existimos. Principalmente agora, que a imprensa escrita já quase que não existe. Diz que há uma regressão no mundo do espetáculo. O que é que podia ser diferente?Talvez não consumirmos tudo de uma forma tão rápida e tudo que se faz não ser tão descartável. Haver mais tempo para saborear, para nos entregarmos aos projetos e para os cuidarmos com amor e carinho, e para isso é preciso tempo. E, às vezes, é tudo muito à pressa. Isto virou uma indústria quase de enlatados. Tem que ser agora, tem que ser para amanhã, perdeu-se aquele espírito de vamos fazer o melhor possível. Com muito brio, cada um no seu setor”. .A carreira da peça Radojka está a chegar ao fim. Já sabe o que vai fazer a seguir?Logo a seguir, gostaria de ter férias, nem que sejam duas semaninhas, e depois recomeçar um novo projeto. Há umas ideias no ar, mas acho que ainda é precoce falar sobre elas, e a vida também me ensinou que não vale a pena perspetivar muito o futuro, porque depois acontece ao contrário, e a vida é bonita por isso, porque é recheada de surpresas. .Maria Rueff: “Os comediantes são sempre tratados como parente pobre das artes”.Diogo Infante: "Não sinto uma presença forte do D.Maria II no meio teatral. Há projetos mais interessantes"