Maria Vitória, uma realização de Mário Patrocínio, é mais uma produção portuguesa que suscita uma pergunta incómoda: que diálogo quer o filme estabelecer com o seu espectador? Ou ainda, de modo mais desencantado: será possível fazer um filme sem desejar algo do espectador? À semelhança de outros casos portugueses recentes, deparamos com uma dualidade insólita. Que personagens são estas? Podemos envolver-nos emocionalmente com elas ou devemos encará-las como meras figuras simbólicas cuja “mensagem” (simbólica, precisamente) já está expressa na sinopse do filme? Há qualquer coisa de humanamente comovente, ainda que esquematicamente simbólico, na personagem que dá o título filme. Numa “aldeia remota nas montanhas portuguesas”, para usarmos a abstração, também ela simbólica, sugerida pela sinopse oficial, a jovem Maria Vitória (Mariana Cardoso) pratica futebol com o espírito dividido: por convicção, ou por causa da constante pressão do pai, Nacho (Miguel Borges)? Ou ainda: será uma forma de luto pela mãe que morreu, ou tudo se baralha com a chegada inesperada do irmão, Bruno (Miguel Nunes), acentuando a fragilidade familiar e deixando cada um à deriva na sua solidão? Reencontramos uma velha questão que continua a assombrar muitas produções portuguesas — chamemos-lhe o drama da própria identidade narrativa de cada filme. A saber: até que ponto um filme consegue fazer sentir ao espectador que “aquilo” que mostra e encena pertence, de facto, ao país em que vivemos? Será que pertence também ao imaginário do espectador? Nada a ver, entenda-se, com a discussão pueril sobre as virtudes “comerciais” do filme X ou Y. Não se pode pedir a um filme isolado (seja ele qual for) que tenha soluções mágicas, até porque não é fácil lidar com as heranças culturais que tudo isto envolve. Aliás, a história ensina-nos que, há seis décadas, o Cinema Novo começou também por aí: Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Belarmino (Fernando Lopes, 1964) são filmes mobilizados pela mesma estranheza da identidade portuguesa — ou lusitana, como mais tarde Manoel de Oliveira relembrou. Como balanço necessariamente provisório, diremos que Maria Vitória reflete a procura de um realismo à flor da pele cujo valor programático — a recusa da retórica “telenovelesca” — não pode ser descartado nem desvalorizado. Resta saber como é que isso se pode afirmar num universo em que a miséria “naturalista” das novelas triunfou como padrão dominante de consumo no nosso espaço audiovisual. .'Yunan'. O exílio e as suas novas paisagens .'A Noiva!' Frankenstein em tom feminino