Este dilema filosófico pode ser delineado por dois arquétipos centrais que representam dois paradigmas de convivência entre civilizações humanas:- por um lado, temos o “Espelho do Logos”. Os que subscrevem esta visão consideram cada civilização um universo fechado e logicamente coerente, cujos conceitos centrais possuem um “ADN” intraduzível, quais formas de vida oriundas de galáxias diferentes. Para eles, “liberty” não é equivalente a “liberdade”, “ren” não é “equivalente a “caridade”; qualquer tradução é uma traição, qualquer diálogo é o início de um mal-entendido mais profundo. Assim, defendem a criação sistemática de um “mal-entendido cortês”, permitindo às civilizações, como estrelas, iluminarem-se mutuamente sem nunca se fundirem, salvaguardando a sua “pureza”. Trata-se de um “protecionismo” civilizacional baseado num profundo pessimismo;- por outro lado, temos a “Árvore do Conhecimento”, que vê cada civilização como uma árvore da vida enraizada num solo histórico, geográfico e cultural específico. A interação entre civilizações não deve ser de “enxertia” ou “transplante”, mas sim como a das árvores na floresta: as raízes trocando nutrientes através de redes de micélio no subsolo, as copas polinizando-se entre si no vento, mantendo cada uma a sua integridade enquanto geram novas possibilidades. Este é o paradigma da “Floresta Simbiótica”, baseado na sabedoria ecológica.. Estes dois paradigmas representam caminhos radicalmente diferentes: optar por um “isolamento elegante” por medo da “contaminação”, ou abraçar uma “simbiose difícil” por acreditar no “crescimento”?Macau oferece uma resposta clara, solidamente ancorada em mais de 400 anos de prática.Desde a abertura do seu porto em meados do século XVI, Macau tornou-se a primeira “interface de contacto” duradoura e profunda entre as civilizações chinesa e ocidental. Aqui não ocorreu a conquista ou substituição total de uma civilização por outra. Em vez disso, evoluiu, no longo curso da vida quotidiana, um ecossistema cultural de “harmonia na diversidade e coexistência próspera”:- no plano espacial, o fumo dos incensos do Templo de A-Má e os sinos da Igreja de São Paulo ressoam sob o mesmo céu, as calçadas portuguesas e os edifícios com qilou (arcadas) de estilo Lingnan entrelaçam-se. Longe de se fundirem num estilo híbrido monótono, criaram, em diálogo, uma estética urbana de “colagem sem conflito e proximidade com independência”;- no plano comunitário, a formação e desenvolvimento da comunidade macaense é a manifestação mais concreta da simbiose civilizacional. Ligados pela língua portuguesa, os macaenses desenvolveram o seu próprio crioulo, o patuá. Seguem a fé católica, mas também praticam o culto dos antepassados e celebram festivais tradicionais chineses. Na culinária, criaram a única e distinta gastronomia macaense. Não são um mero grupo “mestiço”, mas um novo sujeito cultural que “cresceu” naturalmente do diálogo profundo entre civilizações;- quanto ao plano espiritual, Macau foi o berço dos pioneiros chineses modernos que “abriram os olhos para o mundo”. A colaboração iniciada entre Matteo Ricci e Xu Guangqi por via de Macau, traduzindo e introduzindo os Elementos de Euclides, foi não apenas uma transferência de conhecimento, mas um diálogo de paradigmas de pensamento, inaugurando um precedente de intercâmbio académico sino-ocidental.. Como foi tudo isto possível? O segredo de Macau reside em ter proporcionado um ambiente de diálogo de “baixa pressão e longo ciclo”. Como porto comercial e porta cultural, o contacto civilizacional não foi um debate que tivesse de ter um vencedor, mas uma experiência de vida comum, num percurso de mais de 400 anos de descoberta e adaptação mútuas.Esta é precisamente uma manifestação viva do paradigma da “Árvore do Conhecimento” no mundo real. Macau prova que as diferenças civilizacionais não são um problema a eliminar, mas um recurso que pode estimular a inovação; o objetivo do diálogo civilizacional não é alcançar um consenso uniforme, mas formar uma harmonia rica e diversificada.No atual contexto internacional, onde a sombra da teoria do choque de civilizações persiste e a política identitária exacerba as divisões, a realização do “Fórum Internacional de Intercâmbio Civilizacional” em Macau tem um significado que vai muito além de uma conferência académica comum. É uma declaração ao mundo: existe uma sabedoria testada pelo tempo, que prova que a Humanidade tem plena capacidade para sair do dilema do “ou isto ou aquilo”.A lição central do modelo de Macau reside numa abordagem de convivência civilizacional baseada numa “visão de ecossistema”: respeitar as raízes e o solo de cada “Árvore do Conhecimento” (princípio do respeito pelas raízes); opor-se à colheita instrumentalizada e fragmentada das civilizações (princípio da integridade da vida); aspirar à inspiração mútua e coevolução, não à substituição ou conquista (princípio da simbiose e não da substituição).Esta é a resposta mais sólida e calorosa ao pessimismo civilizacional. Macau não é uma utopia, mas um exemplo de esperança que ainda respira e ainda cresce. Macau diz-nos que, além do isolamento do “Espelho do Logos” e da fusão forçada, a civilização humana tem a sabedoria para trilhar um terceiro caminho - um caminho baseado no respeito, na inclusão e na simbiose.Este texto é um excerto da intervenção de Wu Zhiliang, académico especializado em História e Cultura de Macau, no Fórum Internacional de Intercâmbio Civilizacional 2025.O Fórum Internacional de Intercâmbio Civilizacional 2025 decorreu em Macau, China, nos dias 16 e 17 de dezembro. O evento contou com a participação de mais de 300 representantes governamentais, especialistas e académicos de cerca de 10 países e regiões, num diálogo aprofundado sobre temas como a coexistência civilizacional, a proteção do Património Cultural, o valor contemporâneo do princípio “Um País, Dois Sistemas” e a aprendizagem mútua entre civilizações. .Uma iniciativa do "MACAO DAILY NEWS"