Em plena década de 1980, quando Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido, e Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, conduziam o mundo anglo-saxónico para o liberalismo económico, o Black Arts Movement emergia, reivindicando espaço para os artistas negros. É neste contexto, em 1986, que surge a obra A Fashionable Marriage (Um Casamento Elegante), da artista Lubaina Himid, que nasceu em Zanzibar, na Tanzânia, mas que foi em criança para o Reino Unido. Trata-se de uma instalação com figuras em tamanho real, recortadas, que reinterpreta uma pintura de William Hogarth, Marriage A-la-Mode, de 1743, e que é uma sátira em torno do poder e do lugar dos negros na sociedade e mundo artístico britânico.É uma obra marcante da arte contemporânea do Reino Unido e é um dos destaques da exposição Olhos Múltiplos que a partir desta quinta-feira, 14 de maio, abre ao público no piso -1 do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB), em Lisboa. Trata-se de uma exposição coletiva que reúne obras de Lubaina Himid, da austríaca Ines Doujak, e da chilena Patricia Domínguez, com curadoria de Nuria Enguita, diretora do MAC/CCB, e de Rafael Barber Cortell. .De Lubaina Himid, artista que nasceu em 1954 e representa este ano o Reino Unido na Bienal de Arte de Veneza, é possível ver também obras mais recentes, instalações e pinturas. Old Boat/New Money (Barco Velho/Dinheiro Novo) é uma instalação de 2019, composta por 32 tábuas de madeira de três metros de comprimento, dispostas de forma a parecerem uma onda ou o casco de um navio. Nelas estão desenhadas conchas de caurim (búzios), utilizados como moeda no comércio transatlântico, nomeadamente de escravos. A obra inclui o som do mar e remete para a praia como lugar simultaneamente de prazer e de trauma.De Ines Doujak é possível ver um conjunto de obras das sua série Ghost Populations, que são colagens feitas a partir de imagens de publicações médicas sobre doenças de pele do século XIX. Trata-se de uma série iniciada em 2015 em que ela trabalha essas imagens compondo “corpos que se abrem e crescem atravessando fronteiras”. Pessoas que comunicam com plantas, pessoas que se transformam em animais: a fealdade tornada bela. .A ideia de unicidade está bem patente na obra da chilena Patricia Domínguez, que nos seus trabalhos combina espiritualidade, ciência, tecnologia e ancestralidade. Na sua instalação Três Luas Abaixo, realizada no âmbito de uma residência artística no CERN (Arts at CERN), o centro europeu que alberga o maior acelerador de partículas do mundo, a artista junta escultura, aguarelas e filme, cruzando “cosmologias andinas e física de partículas”, procurando compreender os “entrelaçamentos infinitos que nos atravessam”. Patricia Domínguez e Ines Doujak fizeram uma obra especificamente para esta exposição. Um Planeta para Abu junta um tapete tecido à mão de acordo com uma técnica tradicional indiana e desenho da artista chilena, e uma escultura. Os visitantes são convidados a deitarem-se no tapete sob o olhar e “presença xamânica” de uma escultura suspensa, um “guia”. . Ines Doujak apresenta Julgamento Animal 1: porco. Uma instalação que partiu do facto histórico de na Europa os animais terem sido literalmente levados a tribunal, julgados como se fossem pessoas, por crimes como invasão de propriedade ou violência. Numa tenda vê-se um teatro de marionetas em que o porco é acusado de espalhar doenças. O que juntou estas três artistas, de gerações e geografias tão distintas? “Eu não gosto de falar de biografia para explicar as obras, mas, neste caso, é uma questão de biografia para ter uma posição comum, das três. Há realmente um ativismo, um pensamento subterrâneo, divergente. Porque falam das crises ecológicas, dos extrativismos vários, das guerras, falam do capitalismo que está a destroçar o mundo”, diz ao DN Nuria Enguita. :: Olhos Múltiplos: 14 de maio a 25 de outubro de 202 no Piso -1 do MAC/CCB