No dia 9 de outubro do ano passado, quando foi noticiada a atribuição do Nobel da Literatura ao húngaro László Krasznahorkai (n. 1954), o seu nome surgiu frequentemente associado ao do cineasta Béla Tarr (1955-2026). Por justificadas razões, como é óbvio — afinal de contas, uma boa metade da filmografia de Tarr resultou de argumentos a que Krasznahorkai está ligado. Agora, podemos compreender melhor as raízes dessa cumplicidade criativa graças ao lançamento do seu primeiro romance, O Tango de Satanás (1985), adaptado por Tarr num filme de 1994. Trata-se, aliás, no contexto português, de uma reedição: com tradução de Ernesto Rodrigues, O Tango de Satanás fora publicado pela Antígona em 2018; agora, surge com chancela da Cavalo de Ferro.Desde muito cedo, a dimensão apocalíptica foi associada à escrita de Krasznahorkai — na nota biográfica desta edição é mesmo evocada a frase emblemática de Susan Sontag, definindo-o como “mestre húngaro do Apocalipse”. A expressão tem todo o fundamento. Afinal de contas, num plano “factual”, estamos perante o retrato das desesperadas condições de vida — em boa verdade, dos dramas de sobrevivência — dos membros de uma cooperativa agrícola, algures numa zona esquecida da Hungria..Simplificando, diremos que os seus habitantes são marionetas de um universo de extrema pobreza e decomposição moral cujo “ponto de fuga” poderá ser a figura enigmática de Irimiás. Todos aguardam o regresso de Irimiás, confundindo a sua demagogia (incluindo, claro, a manipulação dos dinheiros de cada um) com uma vocação messiânica que, em boa verdade, ele sabe explorar de forma mais ou menos exuberante — dir-se-ia o apresentador de um talk show televisivo, mas em versão ruinosa (apocalítica, precisamente), sem cenários coloridos nem publicidade para preencher os perversos intervalos...Há outra maneira de dizer isto, paradoxal mas sedutora. Assim, pela prosa de Krasznahorkai perpassa uma vertigem apocalíptica, bíblica na sua pulsação trágica, que não exclui (antes parece nascer de) um delirante realismo dos detalhes. Neste mundo em que a noite cai de forma cruel (“Nada de estrelas, nem Lua”), tudo o que existe, dos corpos humanos aos mais anódinos objetos, passando pelo frio das paisagens, apresenta-se assombrado pela vertigem de uma decomposição física tingida de cruel metafísica: “Eflúvios dos esgotos misturam-se com a lama das poças, com o cheiro de raios que coriscam no céu, o vento faz tremular os fios eléctricos, as telhas, panelas, os ninhos vazios; fendas das janelas baixas, mal fechadas, deixam filtrar as palavras impacientes e febris dos amantes...”A preto e brancoHá em tudo isto a sensação de um tempo que se desmorona a partir do interior, como se entrássemos num espaço em que todas as durações estão contaminadas pelo reiterado anúncio do apocalipse. No limite, com ou sem ironia, talvez que O Tango de Satanás aconteça já depois de um qualquer evento apocalíptico, sem deuses redentores, impossível de descrever..Morre aos 70 anos o realizador Béla Tarr, figura de culto do cinema da Hungria.Recordemos, por isso, as esplendorosas sete horas que dura o filme de Tarr. Não é um tempo “excessivo”, mas uma duração adequada à reinvenção cinematográfica do romance de Krasznahorkai. Na beleza austera do preto e branco das suas imagens (apocalípticas, uma vez mais), encontramos um modelo de narrativa cinematográfica em tudo, e por tudo, cúmplice dessa pulsação que o próprio escritor identifica através de uma magoada depuração realista. Eis algumas palavras do capítulo final, acompanhando a saga do burlesco Futaki: “Como num quadro de flagrante realismo, viu surgir a estrada que o esperava, e o nevoeiro, que, vindo dos lados, lentamente a envolvia, e no meio, num estreito feixe luminoso, todos os rostos no futuro, progressivamente decompondo-se, em traços que denunciavam sinais de asfixia.”.Um Nobel para o “mestre do Apocalipse” que “não faz concessões à leitura”