Louvre que mostrar "o último" da Vinci. Mas o quadro está em parte incerta

Museu fez um apelo ao proprietário, que permanece desconhecido, para que ceda o "Salvator Mundi" à exposição ​​​​​​que vai celebrar o 500º aniversário da morte do génio Renascentista. Mas até agora não obteve resposta

É quase uma novela, numa série de peripécias que envolvem o último quadro atribuído a Leonardo da Vinci - o Salvator Mundi, que tem muitas parecenças técnicas com a Mona Lisa - e o secretivo mercado da arte, que movimenta milhões e que de tempos a tempos faz "desaparecer" obras de arte famosas em cofres-fortes sigilosos.

É o caso do Salvator Mundi, um óleo sobre tela atribuído em 2011 a Leonardo da Vinci, com a figura de Cristo a fazer o sinal da cruz com a mão direita, enquanto na mão esquerda segura uma esfera de cristal - um salvador do mundo.

A preparar uma grande exposição sobre o génio renascentista para assinalar o 500º aniversário da sua morte, o Museu do Louvre fez uma diligência junto do atual proprietário, que se especula ser o príncipe herdeiro da Casa Real saudita Mohammed Bin Salman - recentemente obrigado a negar o seu envolvimento no homicídio do jornalista saudita Jamal Khashoggi -, para poder incluir o Salvator Mundi na mostra. Sem sucesso, pelo menos até agora.

A contagem decrescente para a abertura da exposição já começou - a inauguração está prevista para 24 de outubro, em Paris, dentro de escassas duas semanas - e o museu confirma que ainda não recebeu nenhuma resposta. Por isso, as expectativas de que o quadro venha a figurar na grande mostra, onde certamente atrairia multidões, são nesta altura poucas, ou nenhumas.

Um porta-voz do Louvre confirmou, em declarações ao britânico Observer, que a instituição "pediu o Salvator Mundi emprestado", mas que "não recebeu ainda nenhuma resposta".

De Bernardo Luini a Leornardo da Vinci

O quadro terá sido pintado entre 1506 e 1513 por encomenda do rei francês Luís XII. Um século depois, estava nas mãos do Duque de Buckingham, cujo filho o vendeu, em 1763.

A partir daí perdeu-se o rasto à obra, que só reapareceu em 1900, quando foi adquirida, já em bastante mau estado, pelo colecionador britânico Francis Cook, como sendo uma obra de Bernardo Luini, um dos pupilos de Leonardo.

Meio século depois, em 1958, a obra foi vendida em leilão pelos netos de Cook por apenas 45 libras, como sendo de Giovanni Antonio Boltraffio, outro dos alunos de Da Vinci.

Já neste século, em 2005, um consórcio de comerciantes de arte adquiriu a obra por 10 mil euros e foi a partir daí que a história do quadro acelerou.

O consórcio fez restaurar o quadro, uma operação que foi supervisionada por Dianne Dwyer Modestini, na Universidade de Nova Iorque, o que permitiu redescobrir a pintura original e redefinir a sua autoria da obra, que foi então atribuída a Leonardo. Em 2011 a National Gallery, que exibiu o quadro em 2012, autenticou a autoria do génio renascentista.

Isso não impediu, porém, uma pequena grande polémica. Ainda hoje há vozes que contestam que o quadro tenha mesmo sido pintado por Leonardo.

Seguiu-se depois uma história atribulada de vendas sucessivas, por verbas cada vez mais exorbitantes, e em 2017 o quadro acabou por ser vendido em leilão, por um valor recorde de 450 milhões de dólares (380 milhões de euros) a um comprador anónimo. Soube-se mais tarde que foi príncipe saudita Bader bin Abdullah quem o adquiriu, mas apenas como intermediário de alguém que permaneceu no anonimato.

Já em junho deste ano, a imprensa internacional noticiou que o verdadeiro proprietário seria o príncipe herdeiro da Casa Real saudita Mohammed Bin Salman. Não existe qualquer confirmação sobre isso e ao contrário do que tinha sido anunciado com grande pompa em 2018, o novo Louvre Abu Dhabi nunca chegou a exibir o Salvator Mundi.

O quadro permanece em parte incerta.

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