"Há sempre qualquer coisa nova para descobrir em Leonardo da Vinci"

O historiador de arte Claudio Giorgione esteve em Lisboa para uma conferência sobre Leonardo da Vinci, na Gulbenkian. Ao DN falou do mito que envolve o génio renascentista, e do muito que ainda há para saber sobre ele.

Historiador de arte, curador no Museu Nacional da Ciência e Tecnologia Leonardo da Vinci, em Milão, Claudio Giorgione está ali a preparar uma nova exposição permanente sobre Leonardo da Vinci, a inaugurar em novembro, para assinalar o 500º aniversário da morte do génio do Renascimento. Em Lisboa para uma conferência na Gulbenkian, Claudio Giorgione falou ao DN do mito que se colou ao nome de Leonardo, e de como isso, por vezes, ele contribui para obscurecer o homem universalista, sobre o qual há muito ainda para estudar - e descobrir.

O que o fascinou em Leonardo da Vinci?
A sua incrível curiosidade. Há sempre qualquer coisa nova para descobrir em Leonardo da Vinci. E é muito importante considerá-lo como um todo, porque tudo nele está inter-relacionado. É fascinante a sua curiosidade, que sempre manteve em relação à natureza, à vida, a tudo, e que está bem patente nos seus desenhos, a sua grande herança para o mundo. São cerca de sete mil desenhos, em diferentes manuscritos, que cobrem todos os seus interesses. Da natureza à arquitetura, e da engenharia à arte.

Ainda é, hoje, uma figura misteriosa?
A palavra misterioso associada a Leonardo tem muito que ver com o mito criado sobre ele. E por vezes esse mito é um problema. Era um grande génio, claro, mas criaram-se histórias e todo o tipo de interpretações durante séculos. No Renascimento, era considerado um grande mestre, mas o seu mito cresceu depois da Revolução Francesa. Foi descoberto como pintor e a sua vida foi transformada em lenda. E, sobretudo, no século XX, em Itália, foi usado durante o fascismo para exprimir o primado do génio italiano. Há a ideia de que Leonardo escondeu mensagens nos seus quadros e nos seus estudos, mas isso está muito longe do verdadeiro Leonardo. A sua abordagem era sempre a da experiência pessoal e concreta da natureza e da vida, mesmo em matérias religiosas. O que poderia ser misterioso, é a quantidade incrível de coisas pelas quais se interessou. Mas é preciso dizer que essa capacidade de estudar diferentes temas, da arte à ciência e à engenharia, e que Leonardo fez de forma extraordinária, era comum na sua época.

Disse que o mito sobre ele, por vezes, é um problema. Em que sentido?
No sentido em que a ideia de um Leonardo sobre-humano e um inventor do futuro, esse mito criado durante o fascismo, ainda é muito forte. A ideia de um génio isolado não nos ajuda a perceber quem foi. O que fazemos, enquanto estudiosos do seu trabalho e da sua figura, nomeadamente no museu onde estou, é colocá-lo no contexto da cultura do seu tempo e dos seus pares. O Renascimento foi um período de transformação, pelos contributos de muitas pessoas. Temos de olhá-lo como uma pessoa curiosa que aprendeu muito e que deu em troca as suas próprias ideias. Esse é um Leonardo mais humano, que permanece um génio, mas que o foi porque outros contribuíram para a sua educação. Enquanto museu, temos de dar às pessoas a informação mais atualizada da investigação académica.

É esse o objetivo da exposição que está a preparar?
É. O nosso museu foi criado em Milão, em 1953, a fechar as celebrações dos 500 anos do nascimento de Leonardo da Vinci. Foi então criada uma coleção de modelos que são representações físicas dos seus desenhos, mas sem muitas referências à sua história. A nova exposição que estamos a preparar contará a sua história, a partir de alguns tópicos, mantendo sempre o foco nas relações entre o conhecimento da arte, da ciência, da literatura e da engenharia. Será uma exposição mais cultural, com as máquinas como tópico central, porque somos um museu de ciência e tecnologia. Começamos o percurso em Florença, no seu estúdio e na sua biblioteca. Conhecemos a sua biblioteca porque ele deixou uma lista dos seus livros nos manuscritos. Leonardo dizia de si próprio que era un uomo senza lettere, sem educação intelectual, porque foi treinado como artista, não como intelectual. E toda a sua vida tentou preencher esse hiato entre a sua atividade oficinal e intelectual. Tinha uma grande biblioteca que cobria literatura, ciências naturais, filosofia, religião e muitos outros assuntos, e vamos mostrar isso na exposição. Vamos falar também da noção de perspetiva no desenho, das tecnologias militares, do seu sonho de voar, que é muito importante, embora seja também parte do mito, e de coisas práticas, em que estava interessado, como a produção de têxteis ou o melhoramento da engenharia hidráulica, quando foi para Milão.

O que pode uma figura como Leonardo da Vinci dar ao mundo de hoje?
É uma pergunta muito interessante. Pode ensinar-nos a olhar para as coisas de forma diferente, numa época em que os conhecimentos são muito especializados. Leonardo, que atingiu um ponto muito alto na compreensão da natureza, encontrou muitas conexões entre aspetos muito diferentes da vida, num entendimento profundo da natureza como um organismo vivo, para ser preservado. Em Leonardo há esta consciência do poder da natureza, que pode ser uma mãe, ou uma força destruidora. Neste momento muito crítico, em que enfrentamos problemas como as alterações climáticas, tomar consciência de que fazemos parte da natureza, e não somos seus senhores, é muito importante. Leonardo foi muito moderno nessa compreensão, e essa é uma lição para os dias de hoje. Era um homem universal, os valores que nos traz são universais, e esse é um dos motivos porque nos fascina tanto.

Um dos exemplos do mito é a Mona Lisa. Porque se tornou o quadro um ícone tão central na nossa cultura?
Parte do mito vem dos mistérios que se criaram à volta do quadro. Ainda hoje há diferentes ideias sobre ele. Para alguns, é uma espécie de autorretrato do pintor, representado numa mulher asiática, porque há quem defenda que a mãe dele era asiática. Diz-se muita coisa diferente. O que fascina no quadro é a expressão incrível de vida. Leonardo começou o quadro como retrato de Lisa Gherardini [mulher de Francesco del Giocondo, um comerciante de Florença na época], uma mulher real. Mas não o terminou, e manteve-o consigo o resto da vida. Continuou sempre a modificá-lo e foi ele próprio quem transformou a Mona Lisa num ideal de quadro, no qual representa o movimento da vida através de uma expressão que se está a transformar num sorriso, mas que ainda não é um sorriso. A paisagem, com a água a correr e as belas perspetivas aéreas, as sombras e a atmosfera, que criam a ideia de distância, tudo isso representa a vida, que é o objetivo da pintura. A Mona Lisa é a representação ideal do que Leonardo pensava que a pintura tem de representar, incluindo até os aspetos mais psicológicos da vida.

Ainda há descobertas a fazer sobre Leonardo da Vinci?
Sim. Há muitas coisas que não são claras e podem ser aprofundadas. Uma questão que se tornou importante nos últimos anos, por exemplo, é a de perceber até que ponto os seus desenhos eram conhecidos no Renascimento tardio e no Barroco. Muitos estudos estão a tentar encontrar indícios da existência desse conhecimento noutros artistas e intelectuais anteriores à Revolução Francesa. Persiste a ideia, sobretudo no mundo anglo-saxónico, de que Leonardo, com as suas ideias incríveis sobre a anatomia, engenharia e ciências naturais não teria tido influência no desenvolvimento seguinte da ciência e da tecnologia, porque não publicou. Mas é um paradoxo. Por isso há muitos investigadores a estudar isto nos séculos XVI e XVII, para entender as conexões entre os seus estudos e os que se seguiram nessas áreas, depois dele.

Pensa que existe essa conexão?
Sim. Já se descobriram algumas conexões nos desenhos e nos tratados de alguns humanistas do Renascimento tardio, por exemplo. Algumas máquinas são realmente muito parecidas com as que estão nos desenhos de Leonardo. E os dele, por sua vez, são idênticos a outros da sua própria época. Este é um campo de investigação que trará resultados no futuro.

E dos seus próprios estudos, o que espera no futuro?
Nós estudámos muito a área de engenharia hidráulica associada a Leonardo. Milão era uma cidade de canais e nós estudámos a influência de Leonardo nesta área, no tempo que se lhe seguiu. No Arquivo Nacional de Milão descobrimos uma série de desenhos de engenheiros do início do século XVII, ou seja, cem anos depois de Leonardo, que seguiram as suas ideias no desenho para a manutenção de todo o sistema hidráulico na cidade. Tratou-se de perceber a continuidade dos estudos num campo específico, e verificámos que há muitas semelhanças em relação ao que ele desenhou. Claro que ele e outros engenheiros do Renascimento são muito famosos, mas há uma história da engenharia que tem de ser reconstruída, redescobrindo os nomes dessas pessoas e da sua contribuição para esse dia-a-dia da cidade. Ainda há muito a fazer aí.

Entrevista publicada na edição impressa do DN de 22 de junho

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