"Tudo na biografia de António Lobo Antunes foi maiúsculo, ciclópico, colossal. Também o é a sua morte”. É assim que o diário espanhol El País descreve o desaparecimento do escritor português, esta quarta-feira (5 de março). Como a perda de uma figura monumental.A morte de António Lobo Antunes, aos 83 anos, teve ampla repercussão na imprensa internacional, que o recorda como uma das figuras maiores da literatura portuguesa contemporânea e um autor cuja obra marcou decisivamente a ficção europeia das últimas décadas.O El País acrescenta que o vazio deixado pelo autor, "o colosso da literatura portuguesa que melhor explorou os traumas da história", constitui “um desses buracos negros” na literatura contemporânea, recordando que publicou mais de três dezenas de romances, crónicas e ensaios ao longo de uma carreira intensa.A publicação espanhola destaca ainda a relação complexa entre Lobo Antunes e o Prémio Nobel da Literatura, que nunca chegou a receber apesar de ter surgido repetidamente entre os candidatos. Nesse contexto, evoca também a rivalidade frequentemente apontada entre o autor e José Saramago, os dois nomes mais destacados da literatura portuguesa pós-25 de abril, e nota que essa oposição foi muitas vezes alimentada como uma espécie de duelo literário em Lisboa, “semelhante ao que vivem os adeptos do Benfica e do Sporting, como se a admiração por um impedisse a do outro”.Também o El Mundo, em Espanha, lembra a postura irreverente do escritor perante os prémios literários. Numa entrevista citada pelo jornal, Lobo Antunes afirmava de forma contundente: “Estou-me nas tintas para o Nobel. Os prémios não melhoram os livros”. O diário espanhol descreve-o como “o último guerrilheiro da literatura portuguesa” e como o derradeiro representante de uma geração que incluía autores como José Saramago, José Cardoso Pires ou Sophia de Mello Breyner.Em França, o Libération sublinha a projeção internacional do escritor, lembrando que foi “um dos autores lusófonos mais lidos e mais traduzidos do mundo” e um nome frequentemente associado ao Nobel. O jornal descreve-o como um cronista desencantado da sociedade portuguesa contemporânea, cuja obra mistura romance, poesia e autobiografia num estilo “barroco e metafórico”.A mesma publicação recorda também o percurso biográfico que marcou profundamente a sua literatura. Nascido em 1942 numa família da grande burguesia lisboeta, Lobo Antunes foi enviado no início da década de 1970 para Angola como médico militar, experiência que viria a marcar de forma decisiva a sua escrita. Depois de regressar a Portugal, exerceu psiquiatria em Lisboa antes de se dedicar inteiramente à literatura a partir de meados da década de 1980.Ainda em França, o Le Monde destaca o caráter exigente e radical da sua escrita, recordando que o próprio autor rejeitava a ideia de escrever para agradar ao público. Numa crónica publicada em 2012, citada pelo jornal, afirmava: “Não escrevi para trazer paz a quem quer que seja. Não via interesse em divertir ou entreter. Fiz livros para adultos que se mantêm de pé, de olhos bem abertos”.Em Itália, o La Reppublica fala da despedida de um "cantor do Portugal livre" que foi, juntamente com Saramago, "a voz literária mais autoritária do seu país".No Brasil, O Globo salienta igualmente a dimensão internacional do escritor, descrevendo-o como “um dos autores portugueses mais lidos e traduzidos do mundo”, com uma obra amplamente reconhecida e distinguida, entre outros prémios, com o Camões em 2007..António Lobo Antunes (1942-2026): O escritor dos livros insones.Manuel S. Fonseca: “Imagino António Lobo Antunes ao lado de Marcel Proust, James Joyce ou Jorge Luis Borges”