Representante do Canadá na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional de 2024 (não tendo conseguido chegar às nomeações), distinguido com o prémio do público na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes do mesmo ano, Linguagem Universal apresenta-se como um objeto, no mínimo, desconcertante. Nele encontramos uma “colagem” de três histórias que acontecem no Canadá, um país em que se fala francês, embora a língua dominante seja persa (farsi)... Nas fachadas de muitos edifícios, a começar pela escola onde decorre a bizarra cena de abertura do filme, as informações escritas parecem colocar-nos, não em Winnipeg (capital da província canadiana de Manitoba), mas nas ruas de Teerão...Que acontece, então? Uma visão futurista, talvez apocalíptica, de um mundo em que estão baralhadas as coordenadas geográficas e culturais? Uma proposta distópica mais ou menos devedora de temas e códigos da ficção científica? Ou apenas um jogo irónico sobre os modos de “reprodução” da realidade através do meios específicos do cinema?Esta última hipótese talvez seja a mais consistente, pelo menos se seguirmos as sugestões do realizador Matthew Rankin, nascido em Winnipeg, precisamente, em 1980, também coautor do argumento e intérprete de uma das personagens. Numa entrevista no Festival de Toronto, ele apresentou o seu filme como um reflexo do modo como se “relaciona com o mundo”. Além do mais, o filme integra memórias muito pessoais dos seus pais, ambos falecidos durante a pandemia — a personagem de Rankin é mesmo alguém que viaja para visitar a mãe.Se podemos usar um rótulo tradicional para classificar as propostas de Linguagem Universal, diremos que estamos perante uma comédia do absurdo, aliás sustentada por algumas curiosas invenções visuais, como seja o dinheiro que aparece no interior do gelo de uma paisagem... A ideia de criar uma geografia canadiana “ocupada” por referências iranianas, dos diálogos até algumas formas de enquadramento dos elementos arquitetónicos, provém também de uma homenagem explícita de Rankin a Abbas Kiarostami ou Jafar Panahi, cineastas que aponta como seus mestres.Convenhamos que a explicação “teórica” de tudo isto é sugestiva, mas não parece suficiente para garantir a consistência geral do empreendimento. Fica o humor contagiante de algumas situações, sobretudo através dos diálogos, mas também uma velha lição narrativa: para gerar uma sensação de absurdo não basta acumular arbitrariedades narrativas.