LEFFEST: para redescobrir a arte documental de Errol Morris
Nome grande do documentarismo contemporâneo (e, em boa verdade, de toda a história do documentário cinematográfico), o americano Errol Morris está representado no LEFFEST no interior de uma secção dedicada aos equilíbrios instáveis, por vezes perversos, entre “bem” e “mal” (título: “(i)moralidades). Dele será possível ver ou rever o magnífico American Dharma (2018), organizado a partir de uma entrevista com Steve Bannon, estratega do primeiro mandato presidencial de Donald Trump (durante os primeiros sete meses) e também figura nuclear na história do site de extrema-direita, Breitbart News [hoje na Culturgest, pequeno auditório, 18h00].
Como noutros momentos da sua filmografia — recordemos The Fog of War (Óscar de Melhor Documentário de 2003), sobre Robert McNamara, Secretário da Defesa de John Kennedy e Lyndon Johnson —, Morris não está marcado pela ingenuidade jornalística segundo a qual se espera que um político extremista (seja qual for a sua ideologia) confirme os pontos de vista, supostamente universais, do seu entrevistador. Ele é, antes do mais, alguém que sabe escutar, recolhendo os pontos de vista do seu entrevistado para, depois, os reorganizar criticamente, através da montagem cinematográfica.
Bannon apresenta-se, aliás, como um interlocutor surpreendentemente disponível, quanto mais não seja porque procura explicar e, mais do que isso, justificar a sua visão do mundo através das narrativas de vários títulos clássicos do cinema de Hollywood, nomeadamente de John Ford, Orson Welles e Stanley Kubrick — é aí que ele colhe, precisamente, o seu “dharma” (palavra que remete para algumas religiões orientais), de alguma maneira procurando legitimar o seu assumido populismo.
No imaginário cinematográfico de Bannon, destaca-se um filme realizado por Henry King, Twelve O’Clock High/Almas em Chamas (1949), em que a personagem interpretada por Gregory Peck, um general da Força Aérea dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, procura mobilizar os seus homens através de um “apagamento” da própria individualidade humana: segundo o seu sistema ideológico e moral, cada um deve mostrar-se indiferente a qualquer questão ou valor pessoal para se entregar por inteiro aos objectivos da sua “missão”.
O filme é tanto mais subtil quanto Morris trata o diálogo com Bannon através de uma rede de informações (imagens de filmes, registos televisivos, etc.) capaz de mostrar e demonstrar ao espectador a “lógica” filosófica em que funciona o seu entrevistado. Ou seja: alguém que combina uma atenção minuciosa ao dia a dia mediático com a “invenção” de uma realidade alternativa que, no seu universo mental, se confunde com um verdadeiro “destino” político.
Convém, por isso, não ver o filme como uma demonização fácil de Bannon. E não apenas porque a sua inteligência se distingue por uma invulgar (e muito culta) agilidade. Também porque Bannon, como quase todos os extremistas, conhece bem a fragilidade conceptual de muitas linguagens da comunicação social, americana e não só. Ele explica mesmo a Morris como “os media só conseguem lidar com uma coisa de cada vez — se lhes dermos cinco coisas por dia, três dela vão conseguir passar.” Morris responde, dizendo que, então, para Bannon, a “ideia” será fazer com que esses mesmos media “fiquem com uma sobrecarga sensorial.” Bannon confirma: “Exactamente — ficam mesmo.”

