Para lá dos altos e baixos da sua filmografia, convenhamos que o italiano Paolo Sorrentino é um cineasta capaz de nos mobilizar através dos ecos dramáticos, por vezes trágicos, das histórias que tem para nos contar. Assim volta a acontecer em La Grazia, provavelmente o seu filme mais brilhante, centrado na figura de Mariano De Santis, um Presidente da República italiana que o próprio Sorrentino, numa nota de apresentação incluída no dossier de imprensa, define como “totalmente fictício, mas credível”.Porquê credível? Porque o descobrimos a enfrentar desafios legais que, mesmo através das suas peculiaridades fictícias, ecoam em termos muito concretos e universais. Assim, a poucas semanas de concluir o seu mandato, De Santis necessita de resolver alguns dilemas perturbantes: primeiro, assinar ou não dois indultos para pessoas condenadas por homicídio; depois, aprovar ou não um projeto de lei sobre as condições que legitimam a prática da eutanásia.Envolvendo as leis do Estado, são problemas que desafiam também, inevitavelmente, a sua identidade profissional e ética. Afinal de contas, De Santis é uma sumidade do Direito Penal e também um católico convicto. O seu saber e a sua convicção religiosa enfrentam, por isso, questões que, de uma maneira ou outra, vão determinar a maior ou menor consistência da sua herança política.Em boa verdade, esta é mais uma derivação de uma matriz narrativa que pontua todo o trabalho de Sorrentino. A sua fixação nos bastidores do poder passa mesmo, por vezes, pela abordagem de figuras verídicas: assim aconteceu em Il Divo (2008), drama intimista sobre o primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, e Silvio e os Outros (2018), crónica quase burlesca sobre os excessos de poder de Silvio Berlusconi.A cumplicidade simbólica destes títulos resulta também do facto de as suas personagens centrais serem interpretadas pelo impecável Toni Servillo, presença “fetiche” de quase todos os filmes de Sorrentino — é ainda ele que, em La Grazia, compõe o Presidente De Santis. O que aproxima tais personagens é a extrema solidão individual, mesma quando, como acontece no retrato de Berlusconi, surgem envolvidos num delírio festivo de muitas máscaras e outras tantas formas de cinismo. . Será sem dúvida por isso que observamos De Santis como um animal ferido — a noção mítica de “animal político” não poderia ser mais adequada — cujo poder é tanto mais vulnerável quanto o argumento (que Sorrentino também escreveu) o vai apresentando através de algumas derivações, no mínimo, irónicas. Classista pela herança política que representa, e também pela pose austera, ele é, afinal, um ouvinte curioso de rap. Isto sem esquecer que algumas das suas relações com os mais próximos, incluindo a sua melhor amiga e um possível sucessor, estão assombradas pela vontade obsessiva de descobrir com quem a sua mulher, já falecida, o traiu ao longo de muitos anos (a revelação do mistério acabará por gerar uma cena de desconcertante transparência emocional).Um sonho políticoLa Grazia resulta um filme tanto mais sedutor quanto, contrariando as modas politicamente corretas de compulsivo “julgamento” de tudo e todos, não receia assumir-se como parábola política centrada numa figura em que somos convidados a acreditar. Entenda-se: acreditar não significa apenas respeitar a complexidade da sua acção — aliás, as decisões sobre os indultos pendentes e a promulgação da lei da eutanásia serão expostas de modo muito claro. Acreditar envolve o acompanhamento de um símbolo de poder que existe (e resiste) contra a degradação “telenovelesca” da própria política.Daí também que o gigantismo cenográfico em que se move De Santis não se confunda com a ostentação de outros filmes de Sorrentino (incluindo A Grande Beleza, variação menor sobre a herança de Fellini). Somos convocados para uma celebração da política como arte de pensar no interior de uma solidão que, paradoxalmente, acolhe a complexidade do tecido social. Como um sonho que, com invulgar pudor, talvez não consiga mais do que fazer-nos sonhar..'De que Casa És?'. Como reorganizar todas as memórias?.'Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo'. Os dias e as noites de Abdellatif Kechiche