Keep Razors Sharp: uma banda como as outras

Quase quatro anos depois, os Keep Razors Sharp estão de regresso com Overcome, o segundo álbum de originais da formação composta por Afonso Rodrigues, Rai, Bráulio e Bibi, com o qual pretendem contrariar o rótulo de superbanda que inicialmente lhes foi colado.

Apesar de a conversa estar inicialmente agendada com todos os membros dos Keep Razors Sharp, à hora combinada apenas puderam estar presentes três deles. É o preço por todos eles pertencerem a outras bandas, a disponibilidade tem de ser multiplicada e o tempo não estica, mas mesmo assim isso não afetou a carreira (e a popularidade) desta espécie de superbanda do rock alternativo português, como inicialmente foi apresentada, quando do lançamento do álbum de estreia homónimo, em 2014.

A tentação do rótulo era fácil, afinal todos eles fazem (ou fizeram) parte de outras bandas bens conhecidas: Afonso Rodrigues é vocalista e guitarrista dos Sean Riley & The Slow Riders, Rai cumpre as mesmas funções nos The Poppers, Bráulio (o ausente nesta entrevista) foi baixista nos Capitão Fantasma e Bibi é baterista nos Riding Pânico. Os próprios, porém, recusam tal estatuto, como começa por sublinhar Afonso: "Isso é um bocado piada, superbanda eram os Traveling Wilburys. Percebo o conceito, porque pertencemos todos a outras bandas, mais ou menos conhecidas, mas é quase como se o todo fosse ainda maior do que a verdadeira soma das partes. Nunca levámos isso muito a sério, porque a nossa música não é um espelho do que fazemos nas nossas outras bandas."

A história dos Keep Razors Sharp é aliás bem mais parecida com a de muitas outras bandas e tem mais que ver com amizade, gostos comuns e a dose certa de coincidências.

"Houve uma altura em que o Bráulio e o Afonso vieram viver para Lisboa e parávamos muito nos mesmos locais, até chegámos a pôr música juntos nalguns bares", recorda Rai. Os Poppers, a sua outra banda, tinha na altura um espaço em Mem Martins e foi Bráulio quem sugeriu que por lá se juntassem todos, para fazer algo juntos. "Foi assim que tudo começou, de uma forma superdescontraída e sem grandes planos", garante o músico. Curiosamente, "os primeiros dias marcaram logo a identidade dos Keep Razors Sharp e a partir daí foi só continuar a fazer canções".

Mesmo antes de editado o primeiro disco, já a banda se tinha apresentado ao vivo diversas vezes, construindo à sua volta um pequeno fenómeno de culto, que foi crescendo a cada nova atuação. "Nunca tivemos nenhum plano, mas assim que começámos a tocar ao vivo, percebemos logo que íamos fazer mais música juntos. Essa era uma vontade clara por parte de todos, mas nem sabíamos muito bem em que moldes", afirma Afonso.

E mesmo agora pouco mudou. "Este segundo disco, por exemplo, teve para ser muitas outras coisas, inclusive até começámos a trabalhar num suposto álbum de hip hop, com instrumentais nossos e alguns mc convidados, mas depois abandonámos a ideia e começámos a trabalhar nestas novas músicas", desvenda o músico. O longo intervalo entre os dois discos é em parte explicado pela complicada agenda dos músicos, mas, mesmo assim, a banda nunca parou de dar concertos.

"Tudo isto precisa de tempo, para escrever, ensaiar, gravar, mas como não deixámos de tocar ao vivo, também nunca sentimos que a banda estivesse parada", salienta Afonso. Estes quatro anos, "muito bem vividos", como os classifica Carlos BB, são também apontados pela banda como uma das razões para o disco só sair agora. "Não nos fez ter tanta necessidade de ir a correr para o estúdio, compor e gravar mais canções", sustenta o baterista, para quem o novo disco "acaba por ser o resultado de todas as diferentes influências que têm os quatro membros da banda".

Foi portanto com o objetivo bem definido de não repetir as mesmas fórmulas do trabalho anterior, muito marcado pelas sonoridades do rock psicadélico, que voltaram para a sala de ensaio. "Nem nos impusemos qualquer limite estético e desta vez foi desde o início assumido por todos que iríamos explorar novos territórios. O outro disco é passado e todos nós queremos fazer coisas diferentes", diz Afonso, adiantando que Overcome esteve quase para sair ainda antes do verão. "Houve essa possibilidade, mas seria como estar a construir uma casa durante um ano e ir viver para lá sem ter as janelas e as portas. Este é um disco que toca em várias estéticas e para funcionar teria de ser desenhado com algum cuidado, em termos de alinhamento, para a história poder ser contada de uma forma fluida."

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