Kamel Daoud. “O árabe é uma língua que amo muito, mas, para mim, o francês é uma língua de libertação”
"Há dois tabus intelectuais no mundo árabe: o judeu e a mulher. Assim que se fala disso, surge um bloqueio. Descobri muito cedo que o Ocidente está à nossa frente porque preserva a liberdade das mulheres. Há coisas a fazer, mas ainda assim é melhor do que a Argélia, como a Argélia é melhor do que o Afeganistão. Depois, descobri que não se pode construir um país forte quando metade do seu poder intelectual e criativo é sufocado, aprisionado e silenciado. Nos anos 70 e 80, as pessoas mandavam as filhas para a escola porque a visão de sociedade era outra. Agora, a pressão dos conservadores faz com que haja muito abandono escolar. Estamos a regredir. O véu integral, etc. Estamos a perder o que foi construído pela geração anterior”, diz Kamel Daoud.
O escritor franco-argelino vive em França desde 2020 e já depois disso anunciou que um tribunal argelino o condenou a três anos de prisão por violar a lei que proíbe “instrumentalizar” a guerra civil dos anos 1990, que opôs o governo aos grupos jihadistas e fez entre 150 mil e 200 mil mortos. A lei dá primazia à reconciliação nacional. A ideia é esquecer os horrores vividos pelos argelinos até à pacificação pelo presidente Abdelaziz Bouteflika, que decretou uma amnistia em 1999, a Lei da Concórdia Civil, seguida de outra, em 2005, a Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional.
O crime pelo qual o escritor foi condenado resulta do seu romance Huris. Vencedor do Prémio Goncourt em 2024, o livro não está à venda na Argélia. O título, editado em Portugal pela Bertrand, refere-se às virgens prometidas aos crentes na tradição islâmica, que os grupos armados argelinos transformaram em recompensa para os mártires tombados na jihad, a guerra santa. Huri é também o nome que Aube, a protagonista e sobrevivente de um massacre, dá à criança de que está grávida.
A conversa com Daoud decorreu no Institut Français du Portugal, em Lisboa, durante uma passagem do autor por Portugal para promover um novo livro, Por Vezes é Preciso Trair, desta vez um ensaio, publicado pela Guerra & Paz. Dentro de dias, o escritor regressa para o Folio, o festival literário de Óbidos.
Conto a Daoud que estive na Argélia na década de 1990. Nessa altura, jornalistas argelinos como ele denunciavam com coragem os massacres de grupos como o GIA e eram, por isso, também alvos. Dezenas foram assassinados a tiro ou à bomba. Nos ataques às aldeias, ou nas falsas barragens policiais nas estradas, os jihadistas degolavam.
O escritor mostra-me no telemóvel a fotografia de uma reportagem sua na primeira página do Le Quotidien d'Oran. É sobre um massacre na região de Relizane, no primeiro dia do Ramadão, que coincidiu com o penúltimo dia de 1997 no calendário ocidental. Nascido em 1970, Daoud entrou em 1994 para a redação do jornal de Orão, a segunda maior cidade, depois de Argel. Tornou-se conhecido pela qualidade das reportagens e pelo tom incisivo da sua coluna de opinião. Explica que era uma época em que era possível escrever: “Vivíamos cada dia como se fosse o último. O regime não teve escolha: ficou do lado da imprensa e dos progressistas, porque eram o baluarte contra os islamistas. Mas, assim que venceu militarmente, mandou-nos embora.”
Bouteflika tinha sido guerrilheiro e depois um jovem ministro dos Negócios Estrangeiros, numa época em que a Argélia, recém-independente de França, era uma campeã do internacionalismo. O país chegou a acolher exilados portugueses, como o poeta Manuel Alegre. Bouteflika ressurgiu já sexagenário, em 1999, para acabar com a guerra civil, e ficou 20 anos no poder. Conseguiu, de facto, pôr fim à mortandade. Fê-lo através de amnistias, que abrangeram também os abusos dos militares envolvidos na repressão dos jihadistas. Usou as exportações de gás natural e petróleo para reconstruir a Argélia. Mas isso teve um preço, alerta o escritor.
“Os islamistas definem-se pelo islão. O regime define-se pela guerra de descolonização. São os dois pilares em que o sistema assenta, e um depende do outro. Os islamistas estão a tomar conta de todos os mecanismos culturais: gráficas, editoras, livrarias. Isso está a atrasar o país inteiro. A Argélia tem muitos médicos excelentes, boa parte dos médicos em França são argelinos. E, de um ano para o outro, decidiu-se ensinar medicina em inglês, em vez de francês. Os professores de medicina estão a ir embora e o nível da formação vai afundar. Devemos caminhar para o inglês, mas é preciso preparar isso ao longo de uma geração. Os islamistas perderam militarmente, mas venceram politicamente. Os generais que fizeram a guerra contra os islamistas nos anos 90 foram formados na escola russa. A nova geração não. É conservadora e frequenta a mesquita.”
Pergunto o que ficou da FLN, a Frente de Libertação Nacional, a guerrilha de tendência socialista e pan-arabista, depois pró-soviética, que conquistou a independência em 1962. Daoud faz uma pausa antes de responder: “Já não existe. Havia uma esquerda arabizante, pan-arabista, que foi apagada. Os islamistas têm os meios e têm o dinheiro. E o regime precisa deles para pacificar a sociedade. Mas cada um faz as suas contas. Os islamistas dizem: ‘Aliamo-nos ao regime porque, no fim, venceremos. Temos tempo. Estamos a preparar as novas gerações. Temos as escolas, a justiça, a cultura, a comunicação social.’ O regime diz: ‘Eles não têm as armas, eu é que as tenho.’ Cada lado pensa que está a usar o outro. Os militares acreditam que estão a usar os islamistas até ao momento em que estes se voltarem contra eles. Os islamistas têm tempo, dinheiro e um projeto transnacional. Um dos últimos episódios foi a caça a escritores como eu. Tenho contra mim as redes sociais, que eles controlam muito bem, e a Justiça. Já não podemos distribuir lá os nossos livros. Não posso voltar à Argélia. Acabei de ser condenado a três anos de prisão. Lançaram uma campanha difamatória contra mim e contra a minha família”. Há a queixa de uma argelina de que através da mulher, psiquiatra, Daoud terá usado a sua história no romance.
Chamam traidor ao autor de Huris. Comento que reagem assim à forma negativa como retrata a Argélia de hoje, mas Daoud discorda que escreva negativamente. “Escrevo de uma forma que considero construtiva. Se tem uma casa suja, não vai dizer que está limpa. Primeiro diz que está suja, e só depois começa a limpar. Faço-o porque amo a minha terra, que sonhei grande e forte. Sonhei que os nossos filhos ficariam lá. Sonhei que os barcos de migrantes iriam de Marselha para Orão, e não de Orão para Marselha. Foi isso que me magoou. Sempre escrevi a dizer que estamos errados. Que precisamos de todos os nossos filhos. Que precisamos de um objetivo que não seja o passado, mas o futuro. Que a religião é uma questão pessoal, não uma competição política. Que a situação da mulher nos nossos países é desastrosa. Que a escola não forma cidadãos, forma crentes. Digo isto há 20 anos. Durante algum tempo foi possível, mas agora já não. Os islamistas não gostam de pessoas como eu, e o regime precisa de legitimidade e não suporta a crítica. Para ele, está tudo bem. Somos forçados a escolher entre ficar e ir para a prisão ou partir para o exílio. E o exílio nunca é fácil”, sublinha.
Afirma Daoud que uma das formas de os islamistas se imporem é dar primazia ao árabe clássico, contra o árabe argelino, o tamazight, que é também língua nacional e oficial, e o francês.
“Quando me perguntam se falo árabe, respondo que ninguém fala árabe no mundo árabe. Cada país tem a sua própria língua. Eu mal consigo entender um saudita, e um libanês mal consegue entender um marroquino ou um argelino. Então dizem-me: ‘Mas isso é apenas árabe dialetal.’ Eu digo que não. É como dizer que o latim é latim e o português é latim dialetal. São línguas diferentes. No mundo árabe, temos um clero, incluindo islamistas, que quer sacralizar a língua para obter poder. Na Argélia, estão a expulsar os francófonos. Estão a criminalizá-los e a acusá-los de serem traidores e agentes da França, para os forçar a partir. E estão a ganhar poder. Mas a realidade é que os argelinos falam tamazight, francês, árabe argelino, tuaregue no extremo sul e alguns outros dialetos. Oficialmente, prevalece o árabe clássico. Os políticos usam-no nos discursos oficiais e os islamistas em discursos de dominação linguística. Não está presente no dia a dia das pessoas. Na Argélia, os sermões religiosos são em árabe clássico, e o discurso oficial também. Mas a publicidade é feita em árabe argelino e em tamazight. Pode-se traduzir o Alcorão para português, mas não para árabe argelino. Se o fizéssemos, teríamos a situação que os alemães tiveram com Martinho Lutero: acesso direto ao texto. Deixaríamos de precisar de islamistas e figuras religiosas para o interpretar. Este é o principal obstáculo ao desenvolvimento no mundo árabe: as pessoas não têm acesso ao texto. Vem alguém dizer que é proibido beber álcool. Onde leu isso? No Alcorão? Acontece que a população não entende essa língua, que remonta a vários séculos.”
Daoud, que se diz trilingue (árabe argelino, árabe clássico e francês), recusa confundir língua e identidade: “A língua é uma herança, um instrumento de transmissão, de narrativa nacional, de cultura, de história familiar. A identidade não é exclusivamente uma língua. Pode ser muitas outras coisas: o corpo, um lugar, uma batalha, a memória de uma guerra. A identidade é bastante complexa.”
Pergunto se já se imaginou a escrever um romance em árabe argelino. “Não é fácil. A língua empobreceu. Os poetas argelinos da era colonial tinham poemas muito mais elaborados, que já não entendemos. Porque é que os islamistas matavam cantores de raï? Por causa da língua. Cantam em árabe argelino e falam de sexo, bebida, vida, viagens. Os islamistas dizem que têm a língua do diabo. Essa língua precisa de ser regada como uma planta. E se escrever em árabe argelino, o que acontece? Não há editora e tem de imprimir clandestinamente. O árabe é uma língua que amo muito, mas não é a língua que me faz sonhar. Escrevo em francês porque a descobri em criança. Dizem-me: ‘Escreves na língua da colonização.’ Eu respondo: esse é o vosso problema. Nasceram antes de mim, na era colonial. Para vós é a língua do opressor, entendo. Mas eu sou um filho da liberdade. Descobri o francês a ler romances, Júlio Verne, os grandes autores mundiais. Para mim, o francês é uma língua de libertação; para eles, de opressão. Quem está errado? Ninguém”, responde.
Terminámos a conversa como começámos, com o tema das mulheres. Aube, a protagonista de Huris, é uma sobrevivente, mas é sobretudo alguém que quer viver a sua vida. Vestir a pele de uma mulher para escrever um romance foi um desafio? Daoud dispara: “Um escritor deve ser como um leitor: não se pode aborrecer. Gosto de escrever sobre o que não conheço. É uma aventura maravilhosa escrever na perspetiva de uma mulher ou de um japonês. Dany Laferrière escreveu um livro belíssimo, Eu Sou um Escritor Japonês. Os romances que só falam do próprio país num sentido político nunca funcionam. Quem se lembra da literatura comunista? Nenhum romance sobreviveu.”

