Julio Iglesias. O latino romântico que fez sucesso antes do reggaeton volta a Lisboa

O músico espanhol Julio Iglesias volta este sábado à Altice Arena, em Lisboa, para assinalar os 50 anos de carreira. Longe vão os tempos em que era o único latino nos tops americanos.

Julio Iglesias tem 75 anos de vida, 50 anos de carreira e mais de 250 milhões de discos vendidos em todo o mundo, segundo as contas da editora. O músico espanhol está de volta a Lisboa para um concerto, este sábado, na Altice Arena, onde vai aparecer certamente impecável com a sua camisa branca, a mão junto à barriga como quem dança abraçado a uma linda mulher, a cantar baladas românticas em espanhol, em inglês e em português.

Dizem que é "o artista latino mais bem-sucedido de sempre". Mas como é que se mede o sucesso?

Iglesias foi morar para Miami em 1979 e nessa altura já sabia que seria mais fácil chegar ao mercado norte-americano se cantasse em inglês e se fizesse duetos com estrelas como Willie Nelson, Diana Ross ou Stevie Wonder. Só assim chegou aos tops americanos.

Nos anos 1980 e 90 havia, de vez em quando, uma ou outra música latina que chegava aos tops europeus. Mas raramente tinha sucesso na América. Aconteceu com a Macarena, dos Los Del Río, que chegou a número um, e pouco mais.

Entretanto, muita coisa mudou na chamada "música latina", um termo usado nos Estados Unidos e que nos soa um pouco estranho, uma vez que engloba todos os temas em espanhol mas também em português (por exemplo, do Brasil).

A explosão: Despacito

Em 2016, apenas quatro temas cantados em espanhol chegaram ao Billboard Hot 100, o top semanal de canções mais populares nos EUA, que junta os dados de vendas, passagens na rádio e - desde 2013 - das várias plataformas de streaming, incluindo o YouTube. Em 2015 tinham sido só três.

Mas eis que em 2017 foram 19 as canções em espanhol que chegaram Hot 100. Entre elas, Despacito, de Luis Fonsi com Daddy Yankee, que então conseguiu o feito de ser o tema (em qualquer língua) que mais tempo ficou no 1º lugar da tabela. O que mudou?

A resposta mais evidente é: o streaming. Através do streaming, uma canção atravessa o mundo em segundos e pode ser partilhada e ouvida por qualquer pessoa. Sem custos. E sem intermediários.

A cada vez maior comunidade hispânica nos EUA podia, finalmente, ouvir os seus artistas preferidos. Assim que olharam para os dados do streaming, editores e promotores perceberam que havia ali um mercado a explorar. Editaram-se mais discos. Multiplicaram-se as parcerias entre músicos americanos e latinos.

Estas parcerias trazem para o mainstream ritmos que antes estavam acantonados na designação "latina". Quando Justin Bieber faz um remix de Despacito, ou quando Beyoncé canta Mi Gente (original de J Balvin e Willy William), que já eram grandes sucessos, todos ganham - ainda mais.

E se é sucesso nos EUA, é sucesso em todo o mundo. 2017 foi o ano de Despacito e Mi Gente mas também de Havana, da cubana Camilla Cabello (com Young Thug) e de La Bicicleta, de Shakira e Carlos Vives.

2018 foi o ano de I Like It, de Cardi B (nova-iorquina com raízes na América Central) com o porto-riquenho Bad Bunny e o colombiano J Balvin. No final do ano passado, era praticamente impossível ligar o rádio em Portugal e não ouvir Taki Taki (DJ Snake com Selena Gomez, Ozuna e Cardi B) ou Mia (Bad Bunny com Drake) ou qualquer outra música do género.

Neste ano, J Balvin e a espanhola Rosalía foram cabeças de cartaz nos muitos "alternativos" festivais de Coachella (na Califórnia) e Primavera Sound (Barcelona e Porto).

Ao ritmo do reggaeton

Leila Cobo, crítica da Billboard, sublinhou um outro "segredo" para o sucesso: esta música latina que chega aos tops é dançável. Põe-nos "a pensar com os pés e não com a cabeça". Não é preciso perceber a letra para gostar de reggaeton ou latin trap. Durante anos, a pop latina era produzida maioritariamente para audiências latinas, eram quase sempre "baladas românticas, com letras de partir o coração e arranjos complicados" - o que dava origem a grandes sucessos locais mas sem impacto global. Não por acaso os únicos temas que conseguiam sucesso fora de portas eram mais alegres, como Macarena (Los Del Rio), Livin la Vida Loca (Ricky Martin), La Camisa Negra (Juanes) ou Bailando (Enrique Iglesias).

"A música latina esteve sempre presente no mercado norte-americano", disse Luis Fonsi numa entrevista à Forbes na semana passada, lembrando o sucesso de, por exemplo, Shakira, Enrique Iglesias, Jennifer Lopez, Marc Anthony ou Gloria Stefan. "Não é como se estivéssemos a inventar a roda." No entanto, admitiu, "há um movimento realmente interessante na nossa cultura que está transbordando, digamos assim, para outras culturas e países. O streaming ajudou-nos a partilhar a nossa felicidade."

A verdade é que, mesmo que isso não se reflita no número de discos vendidos, nunca o mundo ouviu tanta música latina como agora. J Balvin e Bad Bunny, as duas maiores estrelas do reggaeton da atualidade, lançaram ontem um novo disco, Oasis, e colocaram nas plataformas o tema Qué Pretendes. O disco foi notícia no The New York Times e foi elogiado na Rolling Stone. Em apenas dez horas, o vídeo teve 1,5 milhões de visualizações no YouTube. Com isto Julio Iglesias não poderia sequer sonhar.

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