“Discutir é mais importante do que comer”, chegou a declarar, numa blague própria de quem nunca dispensou o humor, o filósofo alemão Jürgen Habermas, que morreu a 14 de março, na Baviera, aos 96 anos. Ao mundo, e à Europa em particular, deixou um legado de reflexão incansável, sem par no último meio século. Jamais se refugiou no pensamento exclusivamente teórico, nem na “torre de babel” em que se poderia ter transformado a sua cátedra, tão requisitada por candidatos a discípulos de todo o mundo. Como quem, de facto, alimenta o espírito, debateu com alguns dos seus contemporâneos mais brilhantes, de Foucault a John Rawls, do sociólogo neoliberal Wolfgang Streeck ao Papa Bento XVI. Os temas, esses, eram tão abrangentes como as vozes com que esgrimiu ideias, e foram da herança do nazismo, que ele conheceu de perto na infância, à construção, em Democracia, da Europa comunitária, passando, mais recentemente, pela guerra na Ucrânia.Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf, a 18 de junho de 1929, embora a sua infância tenho decorrido em Gummersbach, não muito longe de Colónia. Filho de um membro da direção da Câmara de Comércio e Industria alemã, o jovem, como a maior parte dos seus contemporâneos, viu-se integrado na Juventude Hitleraniana. Embora não tivesse chegado a ser mobilizado para a frente de batalha, a experiência de ditadura e conflito global marcá-lo-iam profundamente. Ainda estudante de Filosofia, insurgiu-se de forma veemente contra o silêncio cúmplice da sociedade alemã face aos crimes do nazismo. Era um primeiro contributo para uma obra permanentemente inquieta com a construção da Democracia, na Alemanha e fora dela, e as ameaças que sobre ela vão pairando. Também por isso, há alguns anos, o antigo ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, definiu Habermas como “um quase filósofo de Estado da democracia alemã.”Ao longo de uma vida académica muito produtiva, Habermas teve o mérito, não muito comum, aliás, de ligar Filosofia à Política, pensamento e ação. Em artigo publicado em The Guardian, a 17 de março, Eva von Redecker escreveu: “Habermas era incrivelmente prolífico, com mais de 40 livros publicados, e muito carismático. Havia na sua presença uma intensidade, uma concentração de pensamento e diálogo que excedia amplamente os seus escritos.”Tudo começou em 1954, na antiga RFA, quando o jovem Jürgen se licenciou em Filosofia, na Universidade de Bona, com uma tese sobre Schelling. De 1956 a 1959, foi assistente de Theodor Adorno no Instituto para a Pesquisa Social, de Frankfurt. No início dos anos 1960, realizou uma pesquisa, misto de reportagem e investigação sociológica, sobre a participação estudantil na política alemã, intitulada Estudantes e Política. Um dos seus primeiros grandes feitos acontece em 1962, quando publica um livro ainda hoje considerado fundamental, História e crítica da Opinião Pública. Habermas introduzia, assim, um tema que lhe seria sempre caro: A modernidade como um projeto inacabado e a rejeição liminar de teorias derrotistas, que consideram os campos de extermínio e os autoritarismos uma consequência obscura dessa mesma modernidade. Em 1989, mostrou-se bastante crítico do processo de reunificação alemã, que considerou ter o motor errado: a ganância financeira em detrimento das questões culturais e identitárias. E alertou para o regresso dos nacionalismos, defendendo que a melhor forma de o evitar era investir com determinação num projeto federal europeu.Em 2013, esteve em Portugal, numa conferência internacional realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em que denunciou a perigosa sedução que os modelos totalitários de cariz fascista voltavam a exercer sobre os cidadãos europeus. Sem eufemismos, acusou os partidos políticos de preferirem o oportunismo à decisão, num momento que considerou “histórico”.Ao longo de décadas, Habermas foi sempre uma voz coerente na demanda de um pensamento suficientemente abrangente capaz de interpretar um mundo cada vez mais global, o que o coloca na linhagem dos maiores nomes da Filosofia alemã, que marcaram para sempre o pensamento ocidental: Kant, Hegel ou Marx. A idade avançada não o impediu de continuar a interpelar os caminhos da Democracia: em 2022 publicou o que poderá ser considerado o seu último grande texto: A Nova Transformação do espaço público e a Democracia Deliberativa. Em 2019, ano em que completou 90 anos, publicou um projeto de História da Filosofia, a que deu o título ambicioso de A Constelação Ocidental da Fé e do Saber. Em Portugal, a obra está publicada em dois volumes, com edição da Fundação Gulbenkian e tradução de José Lamego. Entre as suas principais obras traduzidas para Português, encontramos, entre outras, Comentários à Ética do Discurso; O Futuro da Natureza Humana; A Modernidade: Um Projeto Inacabado; Um Ensaio sobre a Constituição da Europa e Direito e Moral.