Começamos pelo início, pela sala que nesta nova exposição no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva junta obras do casal de pintores e de Lourdes Castro, sob o mote Triângulo ao Quadrado. O título, explica-se na tabela, remete para os caligramas que Lourdes Castro criou para representar os nomes de Vieira e Arpad: “Dois triângulos sem uma das faces que juntos representam um losango, que é associado ao equilíbrio, à harmonia e à união espiritual”. Lourdes Castro era amiga de Vieira da Silva e Arpad Szenes, tendo convivido com eles quando se estabeleceu em Paris, em 1958, juntamente com o seu marido, René Bertholo, depois de ter passado um período em Munique. A artista voltaria para a Madeira, onde nasceu, em 1983, mas manteria correspondência com o casal, relação documentada com fotos, postais e cartões e que são mostrados na exposição. . Neste espaço juntam-se obras iniciais de Lourdes Castro, do final dos anos 1950, em papel, influenciadas pelo ambiente artístico na Cidade das Luzes naqueles anos, em diálogo com trabalhos do casal de pintores, numa altura em que a corrente dominante era o “abstracionismo lírico, caracterizado pela libertação do gesto, a mancha e a caligrafia”. Subindo as escadas para o espaço expositivo principal do museu, passa-se pela instalação tridimensional Atelier, Lisbonne, de Sara & André, criada a partir da pintura homónima de Vieira da Silva (1934-1935), já presente em ciclos expositivos anteriores. Agora, porém, é possível ver também o quadro que lhe deu origem, que esteve fora em Veneza e no Museu Guggenheim de Bilbau, mas já voltou e integra esta exposição. .Nuno Faria, diretor do museu e curador, explica que estes ciclos expositivos obedecem a uma "estrutura mista, com uma lógica museológica, obras que passam de ciclo para ciclo, e projetos individuais". Assim, este segundo ciclo mantém as pinturas dos anos 1960 de Vieira da Silva, mas introduzem-se novos elementos, como um conjunto de 25 gravuras (utilizando a técnica do buril sobre cobre) que a artista realizou entre 1959 e 1961 para ilustrar o livro L'Inclémence lointaine do poeta francês René Char.Neste núcleo intitulado A Vida das Plantas, sublinha-se como a natureza é fonte de inspiração para poetas e pintores, e o artista Carlos Noronha Feio apresenta algumas das peças que criou para esta exposição, um conjunto intitulado Arborescências.Carlos Noronha Feio trabalha com tecido, imprimindo fotografias sobre seda, estabelecendo com isso uma relação com o espaço do museu, que já foi a Real Fábrica dos Tecidos de Seda. “O uso da seda para mim tem a ver com a possibilidade de sentirmos o material em si. Eu gosto de trabalhar com materiais que tenham uma certa ligação ao corpo”, diz o artista que acompanhou ontem a apresentação da exposição aos jornalistas.O trabalho resultou de uma residência artística realizada em Budapeste, na Hungria, onde ele diz que foi “no encalço de Arpad Szenes”, pois o artista era húngaro. As peças “são feitas de pequenos momentos e detalhes que foram captados, não só em relação à minha experiência da cidade onde Arpad e Vieira da Silva passaram, mas também em relação à minha própria biografia e a situações onde há um interesse comum entre os três”, diz o artista. E isso porque, acrescenta, “há muito pouco que se conhece da vida de Arpad Szenes em Budapeste, por isso eu fui um pouco arrastado pela minha própria experiência da cidade, porque eu não fazia a menor ideia de qual era a experiência dele. Procurei, investiguei, mas há muito pouco escrito sobre isso”. . Numa das sedas suspensas há uma abordagem à flora com a imagem de uma roseira com os seus espinhos, uns virados para cima e outros para baixo. Noutra há uma fotografia de um estátua em Budapeste, que é uma homenagem a um soldado. Mais adiante no percurso expositivo estão mais três sedas suspensas impressas com detalhes de fotografias tiradas, por exemplo, na Galeria Nacional Húngara.Neste segundo ciclo expositivo há também um núcleo dedicado a João Paulo Feliciano, que ocupa duas salas interligadas por um corredor. Nuno Faria diz que quem conhece o percurso deste artista multidisciplinar, que nos últimos anos tem trabalhado também no campo da produção e edição musical (Moneyland Records, festival NOS Primavera Sound), vai ficar surpreendido com as obras expostas. O artista exibe regularmente desde 1984 e mistura pintura, desenho, fotografia, vídeo, luz, som, música, design gráfico, arquitetura e performance, mas esta exposição é um regresso à pintura. .Intitulada Da Capo, a mostra exibe pinturas de pequeno formato realizadas de 2021 a 2026. E não é por acaso que o artista foi convidado para expor naquele museu. Conta Nuno Faria que João Paulo Feliciano, formado em Línguas e Literaturas Modernas, começou a interessar-se por pintura nos anos 1980 quando lhe foi oferecido um livro monográfico sobre a obra de Vieira da Silva por Leonor Nazaré. Também estão expostas algumas pinturas sobre tela e papel daqueles anos, em que a influência de Vieira da Silva é evidente.Este segundo ciclo expositivo no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, patente até de 13 de setembro, termina com a instalação Reflexo de Adorar da dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela, composta por pinturas em tela expostas na parede e dois conjuntos dispostos no chão com superfícies em seda sobre as quais são projetadas imagens. .O ano em que o húngaro Arpad Szenes terá uma exposição só dele.José Pedro Croft: “Uma das coisas maravilhosas da arte é não ter programa. Não quer dizer nada e não serve para nada”